Mohamed Abd El Gani/ Reuters
Mohamed Abd El Gani/ Reuters

finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Dólar perto de R$ 6: por que está tão alto e quais as consequências?

Além das incertezas com os impactos do coronavírus e a recente crise do petróleo, política interna do Brasil também tem contribuído para a alta da moeda

Maiara Santiago e Diego Kerber, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2020 | 13h00
Atualizado 18 de maio de 2020 | 11h28

A escalada do dólar tem preocupado o mercado financeiro em 2020. A moeda, que no começo do ano estava na casa dos R$ 4,00, vem batendo seguidos recordes e atingiu a cotação máxima de R$ 5,9718 em 14 de maio. Essa alta tem sido causada por diversos fatores, entre eles a pandemia do novo coronavírus, que afeta a economia de todo o mundo, e a crise política interna do País, com a saída de dois ministros da Saúde e o embate entre o presidente Jair Bolsonaro e governadores sobre as medidas de isolamento social.

O País adota o câmbio flutuante, ou seja, não há uma política rígida de controle da moeda e ela fica livre para ser influenciada positiva ou negativamente pelo mercado. No entanto, a atual volatilidade tem preocupado. Em março, quando a moeda americana ultrapassava os R$ 4,30, o próprio presidente Jair Bolsonaro admitiu que estava “um pouquinho alto o dólar”.

O tema é recorrente também nas declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes. Em fevereiro, ele causou polêmica ao comentar que, com o dólar baixo, empregadas domésticas iam para a Disneylândia. Em março, ao contrário do que dizia o presidente, ele afirmava que era normal a alta do dólar justamente por conta do câmbio flutuante.

Mas não são apenas as viagens internacionais ou produtos importados que são afetados pela moeda. Alguns dos itens que consumimos todos os dias, como o pãozinho e produtos de higiene ou ainda os bens duráveis, como carros e eletrodomésticos, sofrem impacto direto da variação da cotação do dólar.

Quer entender um pouco mais sobre como funciona a moeda dos Estados Unidos? Veja abaixo as principais dúvidas relacionadas ao dólar.

O que define o valor do dólar?

Assim como qualquer ativo da Bolsa - ou produto na prateleira do supermercado -, o dólar é regido pela lei da oferta e demanda. “Quando a procura pelo dólar é alta, mas há pouca moeda no mercado, o valor tende a subir. Quando a oferta é alta, mas a procura é baixa, o valor da moeda tende a despencar”, explica César Caselani, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas.

O detalhe é que a demanda por ele é sempre alta, independentemente do preço. “O dólar é uma moeda forte, utilizada como ativo de reserva. Então por mais que o preço esteja alto, sempre vai ter alguém disposto a pagar o valor pela segurança que ela traz”, diz Fernando Bergallo, diretor de câmbio da FB Capital.

O dólar já chegou a R$ 5,90. Há uma previsão de cotação máxima para a moeda?

No atual cenário de volatilidade do câmbio, as estimativas começaram a ficar em segundo plano. "Se me dissessem há dois meses que o dólar chegaria na marca dos R$ 5, eu jamais acreditaria", diz Caselani. Porém, a notícia ainda pode ser boa. "Esse valor é apenas um pico e ela logo deve voltar a baixar", acredita Bergallo.

Com o dólar próximo dos R$ 6, quais serão os impactos para o consumidor e para o mercado financeiro?

O dólar alto não afeta apenas quem compra produtos importados. “A partir dos anos 1990, houve a globalização, que trouxe o benefício de reduzir o custo de produção com a possibilidade de os países comprarem itens de qualquer parte do mundo. Com isso, foi possível incluir em toda a linha de produção, da coisa mais simples à mais complexa, produtos importados”, explica o economista e professor da Uninove Alessandro Azzoni.

“O dólar afeta custos de produção daqueles insumos que são importados. A produção de alimentos, por exemplo, conta com fertilizantes que são importados, e esse é um custo importante. Muitas vezes o produtor compra uma semente que inclui royalties, que são cobrados em dólar ou em outra moeda internacional”, exemplifica o professor Wilhelm Eduard Meiners, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Ele explica que, se a cotação do dólar chegar a R$ 6, o que vai significar um aumento de quase 50% no valor da moeda desde o começo do ano, e continuar alto nos próximos meses à medida que a economia for retomada, pode acontecer um aumento de preços no médio prazo. “Hoje, estamos vivendo um ambiente em que a demanda interna está fortemente encolhida, então, dificilmente vai ter uma repercussão inflacionária agora, mas no segundo semestre pode ter uma reação inflacionária também puxada pelo câmbio, não apenas pelas causas comuns de inflação. A gente chama isso de passthrough.”

A política monetária do governo também contribui para a alta do dólar, como explica o economista e professor do Insper Fábio Astrauskas. “Quando o governo decide diminuir a taxa básica de juros da economia (Selic), ele está sinalizando ao mercado e aos investidores que vai dar um rendimento menor para quem compra títulos públicos. Para receber tão pouco em um ambiente inseguro como esse que estamos vivendo, ele prefere, como reserva de valor, levar o dinheiro para fora do país, para algum lugar mais seguro.”

O professor afirma que, como o investidor precisa comprar dólar para sair do País, há um aumento da demanda pela moeda e o preço sobe. “O valor do dólar está potencializado hoje por conta desse movimento e ele trará consequências para o consumo ao permanecer desse jeito por mais tempo”, completa.

Na visão dele, “daqui para frente o que pode haver são alguns movimentos especulativos em torno da moeda”, embora seja difícil prever com certeza os próximos movimentos.

Por que o dólar está subindo tanto desde o início de 2020?

Fatores internos e externos estão influenciando a alta do dólar desde o começo do ano. Antes da pandemia, em um curto espaço de tempo, tivemos a morte de Qassim Suleimani, no Iraque, que deixou iminente o risco de uma guerra entre Irã e Estados Unidos; o avanço do novo coronavírus, cujos primeiros casos surgiram entre o final de dezembro e o começo de janeiro na China, e se espalharam pelo mundo; além de mais uma crise do petróleo, provocado por uma disputa entre Rússia e Arábia Saudita. E as petrolíferas são extremamente importantes para a economia.

Um fator interno também merece ser observado ao se analisar o câmbio: a alta saída de investidores estrangeiros da Bolsa - até 13 de maio, R$ 77,441 bilhões já haviam sido retirados da B3. Quando isso acontece, menos dólar circula no mercado brasileiro. 

Parte dessa fuga, segundo Caselani, pode ser explicada pelos cortes na Selic, a taxa básica de juros da economia, que atualmente está em 3% ao ano. “Para o estrangeiro que investe em renda fixa, como no caso dos títulos públicos, os juros baixos tornam a opção pouco interessante - e se associarmos isso ao atual risco país do Brasil, temos a explicação para esse evento." 

A política do governo Bolsonaro influencia a alta do dólar?

Sim, pois existem aspectos da atual política interna que afetam diretamente o câmbio. O fraco resultado do Produto Interno Bruto (PIB) de 2019, é um exemplo disso. “Todo início de governo é cercado de expectativa, mas o resultado fraco do ano passado abalou as estimativas de crescimento e desanimou os investidores estrangeiros”, aponta Caselani.

Nesse cenário, o excesso de indefinições também tem um peso importante. “Quando o governo não aprova as reformas, quando surgem desavenças internas e entre os três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) ou quando não há investimentos em infraestrutura e produtividade, o real fica menos valorizado e o investidor, mais desconfiado, o que afugenta o dólar”, explica Caselani. "Arrumar o cenário interno é uma forma de valorizar o real e aliviar o preço da moeda estrangeira."

No entanto, segundo Bergallo, é cedo para atribuir culpa ao governo. “As economias globais estão passando por um momento de retração e obviamente isso afeta o Brasil.” Para ele, frases polêmicas da equipe de Bolsonaro preocupam, mas, por si só, não causam estragos muito grandes na cotação da moeda. “Podemos ver picos de altas momentâneos, mas que rapidamente se normalizam.” 

Por que o coronavírus afeta o dólar?

"O novo coronavírus alterou o funcionamento do mercado financeiro a nível global", explica Caselani. O fechamento de cidades inteiras, como aconteceu primeiro em Wuhan, na China, e depois até de países, como a Itália, levou à paralisação da atividade econômica em todo o mundo.

"A China é o centro da economia mundial e o novo coronavírus causou uma grande queda na demanda interna do país. Eles diminuíram as importações de outros países e reduziram as exportações de peças para carros e equipamentos eletrônicos, por exemplo", explica Caselani. O movimento de retração que começou na China travou a economia global, visto que o país asiático é um grande produtor e parceiro comercial de inúmeros outros países, como o Brasil.

E como isso afeta o dólar? "Sempre que há um choque no mercado, o investidor corre para o ativo que considera mais seguro e estável, para conseguir se proteger contra possíveis perdas. Nesse caso, temos o ouro, mas o principal ainda é o dólar", analisa Bergallo. E como a moeda passa por um momento de retirada no Brasil, o excesso de demanda tem feito o preço disparar. 

Ter o dólar alto é bom para o País?

Até um certo nível, ele pode ser bom para a exportação. "Eu diria que até R$ 4,15 ainda é possível encontrar benefícios, mais do que isso, já se torna um problema”, avalia Bergallo. Ou seja, quando o dólar está alto, os produtos brasileiros - como as commodities, por exemplo -, ficam mais atraentes para os estrangeiros. O comércio e o turismo internos também se fortalecem nessas situações.

No entanto, é importante considerar que o Brasil ainda utiliza recursos e equipamentos cotados em dólar em boa parte de suas produções. “Quando o valor da moeda aumenta, os gastos com esse tipo de recurso ficam mais elevados, o que obriga o produtor a aumentar o valor final de seu produto ou serviço, deixando-o mais caro”, explica Caselani.

Qual a diferença entre a cotação do dólar comercial e do dólar turismo?

O dólar comercial é a versão utilizada pelas empresas durante o processo de importação, exportação, compra de mercadoria ou prestação de serviços. Logo, quando alguém comentar que a moeda está operando em alta ou baixa ou sempre que o Banco Central anunciar que vai vender dólar para conter a alta do preço e acalmar o mercado, trata-se da versão comercial da moeda. 

O dólar turismo é a moeda em espécie e aquela utilizada pelas pessoas físicas durante viagens e compras no exterior, ou para quitar os gastos em moeda estrangeira feitos no cartão de crédito. Seu preço costuma ser R$ 0,20 mais alto que o do dólar comercial, pois nele estão embutidos os custos para a importação da moeda, o lucro da casa de câmbio e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.