Adriano Machado/Reuters
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Bastidores: Por que o índio precisa de água potável? Porque contaminaram seus rios, vice-presidente

Frase foi dita pelo vice-presidente da República para justificar o veto de Bolsonaro à lei que garantia água potável para aldeias de todo o País, entre outros insumos básicos

André Borges, BRASÍLIA

09 de julho de 2020 | 18h24

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, declarou nesta quinta-feira, 9, que os povos indígenas do Brasil não precisam beber água potável porque, em sua frase romanesca, os índios bebem água dos rios. “O indígena se abastece da água dos rios que estão na sua região”, catequizou Mourão, em entrevista que concedeu no salão do Palácio do Planalto. O vice comentava o veto de Jair Bolsonaro à lei que garantia o fornecimento gratuito de insumos básicos e vitais, como água, para aldeias de todo o País, nestes tempos de pandemia.

Trata-se, para dizer o mínimo, de uma distorção absoluta da realidade encarada diariamente por grande parte das aldeias indígenas do País. Seja nas águas do rio Roosevelt, em Rondônia, nas margens do Xingu, no Pará, no rio Branco, em Roraima, ou no Negro, no Amazonas, crianças indígenas adoecem todos os dias ao beberem águas contaminadas pelo mercúrio despejado pelos garimpos ilegais ou pelo agrotóxico que desce pelo curso das águas. Não há água pura para os povos indígenas que vivem na Amazônia. Há intoxicação, doenças e viagens de barcos que duram cinco, seis dias dentro de canoas, para correr atrás de atendimento médico, sempre precário.

Na “cabeça do cachorro”, região citada por Mourão como exemplo onde o índio bebe a água dos rios, essa situação é frequente, como a reportagem do Estadão já pode presenciar em expedição à região do Vale do Javari, que concentra a maior população de povos isolados do planeta.

Onde a agricultura predatória não chegou, já chegou o desmatamento de madeira nobre e o garimpo ilegal. Os povos isolados do Javari estão cada vez mais acuados, vítimas de criminosos que invadem a floresta e contaminam suas águas. Por enquanto, a atitude do governo para a região tem sido a de tentar enviar pastores para converter os índios.

Na bacia do Xingu, um estudo do Instituto Socioambiental (ISA) alertou, no mês passado, que uma nova onda de garimpos ilegais ameaça a região. A partir de 2018 e durante todo o ano de 2019, áreas de garimpo foram abertas ou reativadas em três terras indígenas, ativando áreas que estavam fechadas há mais de 14 anos. Entre abril e maio de 2020, foram abertos 562 hectares associados à exploração garimpeira, comprometendo a qualidade das águas em 20 sub-bacias do Xingu, o gigante amazônico que foi barrado pela hidrelétrica de Belo Monte.

Veneno da extração do ouro

Entre Roraima e Amazonas, milhares de yanomami veem suas águas, cujos significados remontam às suas origens e crenças, serem invadidas pelo veneno expelido na extração criminosa do ouro. São 9,6 milhões de hectares cercados pela extração descontrolada de minério. A Fundação Fiocruz, que é um órgão do próprio governo, mostrou que, nessas terras, vivem cerca de 26 mil indígenas ianomâmis que, a todo tempo, são diretamente impactados pela presença de garimpeiros ilegais.

A fundação analisou amostras de cabelo de quase 300 indígenas da região. O resultado mostrou que 56% deles apresentaram concentrações de mercúrio acima do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 2 microgramas por grama. Em 4% da população analisada havia concentrações acima de 6 microgramas, considerado o limite para o surgimento de efeitos adversos à saúde. A partir dessa concentração de mercúrio no cabelo, alertou a Fiocruz, aumentam as chances de surgirem danos neurológicos graves.

O índio, nos atuais discursos oficiais, é aquele que, invariavelmente, é citado como alguém que deve estar inserido à realidade urbana, cada vez mais integrado à vida do homem branco. Quando essa tese não parece interessante, o governo o leva para as beiras dos rios, agachado, nu, bebendo água com a palma da mão.

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