Por que o mundo financia os EUA?

Nos momentos mais difíceis da crise financeira, muita gente acreditou que o mundo estava diante de uma grande mudança, o fim do capitalismo. Dizia-se: a quebra do Lehman Brothers está para o capitalismo assim como a queda do Muro de Berlim esteve para o socialismo. Mais ainda, que o processo de derrocada do capitalismo começaria em sua maior pátria, os Estados Unidos. O que se passou? A crise não era só dos Estados Unidos, muito menos só de Wall Street. Espalhou-se pelo mundo todo, por uma razão simples: todo o mundo havia se beneficiado do capital abundante e barato gerado pelo sistema financeiro. As bolsas não haviam subido no mundo inteiro? Quando esse capital desapareceu, todos tinham uma conta a pagar. E com a crise espalhada, como reagiram as pessoas? Comprando dólares e títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Isso mesmo, o mundo inteiro comprou a moeda e os papéis americanos, numa demonstração clara de que pensava o seguinte: se o capitalismo acabar, o último lugar será nos Estados Unidos. Convém ressaltar este ponto: o consumidor americano é o mais endividado do mundo (as famílias devem o equivalente a 140% de sua renda); o governo tem um déficit nas suas contas que, se fosse um país normal, estaria já nas mãos do FMI; idem para o déficit nas contas externas nacionais. Por que o mundo continua, mesmo assim, financiando esse país? Porque a moeda nunca mudou, embora seu valor tenha tido altos e baixos ao longo do tempo. Porque os contratos sempre foram respeitados. Porque nunca houve calotes ou confisco de dinheiro ou congelamento de contas bancárias. Porque o país sai fortalecido das crises e sai mais rápido que os demais. Tudo isso considerado, continua sendo mais seguro ter papéis americanos, tal o comportamento global. Obtendo, assim, o financiamento do mundo todo, os Estados Unidos tiveram como injetar dinheiro no mercado financeiro e agora têm fundos (ou dinheiro tomado emprestado) para iniciar um enorme programa de obras de infra-estrutura e modernização tecnológica. Reparem de novo: o governo americano já tem um déficit grande e mesmo assim vai aumentar os gastos, com o que o rombo vai encostar nos 7% do Produto Interno Bruto (PIB), quando todas as normas de prudência dizem que não deve ultrapassar os 3%. A dívida pública, que já estava em 60% do PIB, ou seja, US$ 8,4 trilhões, pode crescer mais US$ 1 trilhão por conta dos novos gastos. E ninguém pensa em calote. Se houvesse desconfiança, o Tesouro americano teria de pagar juros cada vez maiores para colocar seus títulos. E os juros estão caindo, perto de zero. Em resumo, todo mundo acredita quando Barack Obama diz que precisa gastar agora, mas que vai, sim, reequilibrar as contas quando a crise passar. Resumo da ópera: o mundo todo está financiando Obama para que ele resolva a crise dos Estados Unidos, porque se entende que essa é a condição básica para a solução do problema global. Lula, o neoliberal - Foi certamente uma boa notícia para o presidente Lula e seu pessoal. Numa relação das 50 lideranças globais mais influentes, a revista Newsweek colocou Lula numa posição mais que honrosa, um significativo 18º lugar. A esquerda brasileira comemorou. Muitos de seus representantes jogaram na cara dos neoliberais. Estão vendo? O centro do capitalismo se curva ao... ao o que mesmo? Ao socialismo? Aos programas assistenciais? Ao Bolsa-Família? Longe disso. No curto texto em que explica a posição de Lula, a revista elogia o "bom senso fiscal" do presidente, que levou o Brasil a ter a inflação mais baixa entre os emergentes (na verdade, uma das mais baixas) e a acumular reservas externas de US$ 207 bilhões. O que estão elogiando? Que Lula colocou as contas públicas sob controle (acumulando superávit primário suficiente para reduzir o endividamento), dominou a inflação (com os juros altos do Banco Central), comprou dólares para as reservas e não as gastou. Aliás, comprou maciçamente títulos do Tesouro americano. Espere aí. Não são as virtudes que o pessoal chamava de neoliberal? Eis o ponto, Lula é considerado o mais sensato dos líderes que vieram da esquerda, por ter mantido a política que busca a estabilidade macroeconômica. Quando Lula pagou antecipadamente tudo o que o Brasil devia ao FMI e manteve as bases da política econômica, só faltou o Fundo instalar uma estátua para o presidente brasileiro. Mas agora a Newsweek fez justiça. Mais uma vez, a ortodoxia premiada. Imigrando para o imperialismo - As diversas cúpulas latino-americanas realizadas na Bahia este mês foram um festival de ataques ao imperialismo americano. Os líderes alardearam diversas vezes que a América Latina e o Caribe são independentes dos Estados Unidos e que vão tocar suas vidas e seus negócios à sua maneira. Não querem saber do modelo capitalista americano, ainda mais agora, com a crise financeira. Mas esperem um pouco: por que esses mesmos líderes, nos seus comunicados, reclamaram da política de imigração dos Estados Unidos? Eles querem garantir que os cidadãos latino-americanos tenham o sagrado direito de se mudar para os Estados Unidos e lá trabalhar legalmente. Os líderes da América Latina também reclamaram das restrições que os Estados Unidos impõem à importação de diversos produtos latino-americanos, como, aliás, ao etanol brasileiro. Portanto, retórica antiimperialista à parte, eis o contencioso América Latina-Estados Unidos, imigração e comércio. É por isso, aliás, que os governos americanos não se incomodam com a retórica. Quanto tempo perdido nessas cúpulas. *Carlos Alberto Sardenberg é jornalista Site: www.sardenberg.com.br

Carlos Alberto Sardenberg*, O Estadao de S.Paulo

29 Dezembro 2008 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.