Por que o presidente americano é o homem das tarifas?

Com as tarifas, o presidente dos EUA exerce um poder desenfreado, recompensando amigos e punindo inimigos; quem achar que ele vai mudar vive num mundo de fantasia

Paul Krugman*, The New York Times

07 de dezembro de 2019 | 04h00

Quase um ano se passou desde que Donald Trump declarou: “Sou o homem das tarifas”. Contrariamente aos seus hábitos, ele estava dizendo a verdade.

Já perdi a conta de quantas vezes os mercados se empolgaram, achando que ele estava pondo fim à sua guerra comercial e em seguida depararam com anúncios de que um acordo muito aguardado não seria firmado ou que tarifas estavam sendo determinadas sobre uma nova série de produtos ou países.

Na semana passada, isso aconteceu de novo: os mercados apostavam numa paz comercial entre Estados Unidos e China, mas receberam uma pancada com a declaração de Trump que poderá não haver nenhum acordo antes da eleição e pelas novas tarifas que ele estabeleceu no caso do Brasil e da Argentina.

Portanto, Trump é de fato o homem das tarifas. Mas por quê? Afinal, os resultados dessa guerra comercial têm sido consistentemente ruins, econômica e politicamente.

Ofereço uma resposta. Mas, primeiramente, vamos falar do que ela conseguiu. Um aspecto peculiar da economia de Trump é que, enquanto o crescimento no geral tem sido sólido, as áreas de fragilidade surgem exatamente de coisas que ele tenta estimular.

Vale lembrar que a única grande realização legislativa de Trump foi o enorme corte de impostos para empresas, o que deveria levar a uma disparada dos investimentos. Mas, ao contrário, as corporações embolsaram o dinheiro e os investimentos acabaram caindo.

Ao mesmo tempo, a guerra comercial tinha por fim reduzir o déficit comercial e reviver o setor de manufatura dos Estados Unidos. Mas o déficit comercial aumentou e a produção no campo da manufatura vem enfraquecendo.

A verdade é que até economistas contrários aos cortes de impostos e tarifas estão surpresos com sua ineficácia. A explicação mais comum para esses péssimos resultados é que a política tarifária de Trump vem gerando muita incerteza, pois dão às empresas um forte incentivo para elas adiarem quaisquer planos de criação de novas fábricas e criação de mais empregos.

Nesse caso, porém, por que Trump não faz o que os mercados continuam esperando erroneamente que ele faça e não se rende à evidência? A persistente obsessão de Trump por tarifas parece particularmente estranha diante das evidências crescentes de que elas o estão prejudicando politicamente.

É importante entender que o protecionismo de Trump não foi uma resposta a um grande aumento do apoio da opinião pública. É o máximo que posso dizer das incontáveis entrevistas com brancos racistas, que são, e nós todos sabemos, os únicos americanos que importam, ou seja, aqueles eleitores que são movidos mais pela animosidade com relação aos imigrantes e pela percepção de que os presunçosos liberais os desprezam mais do que a política comercial.

A opinião pública parece ter se tornado muito menos protecionista mesmo quando Trump eleva tarifas, com uma porcentagem de americanos afirmando que acordos de livre-comércio são algo muito importante como sempre.

Portanto, a guerra comercial do presidente vem perdendo, e não ganhando, apoio. E uma análise recente concluiu que ela foi um fator prejudicial para os republicanos nas eleições de meio de mandato em 2018, respondendo por um número importante de assentos perdidos no Congresso

Entretanto Trump insiste. Qual a razão?

Uma resposta é que ele sempre teve a ideia fixa de que as tarifas são a resposta para os problemas dos EUA e ele não é o tipo de pessoa que reavalia seus prejulgamentos à luz da evidência. Mas há algo mais: a legislação comercial americana lhe oferece mais liberdade de ação, mais capacidade para fazer o que desejar, do que qualquer outra área política.

O fato é que há muito tempo – na verdade após a desastrosa tarifa Smoot-Hawley de 1930 –, o Congresso deliberadamente limitou o próprio papel na política comercial. E deu ao presidente poderes para negociar acordos comerciais com outros países que depois são submetidos a voto no Congresso sem emendas.

Sempre ficou claro que esse sistema necessitava de alguma flexibilidade para responder a eventos. Assim, o Executivo passou a ter o poder de impor tarifas temporárias sob determinadas condições: aumento das importações, ameaças à segurança nacional, práticas desleais de governos estrangeiros. A ideia era de que especialistas não partidários determinassem se e quando essas condições existiam e ao presidente caberia decidir o que fazer.

O sistema funcionou bem durante muitos anos. Mas ficou extremamente vulnerável a uma pessoa como Trump, para quem tudo é partidário e expertise é um palavrão. As justificativas dele para as tarifas constantemente são absurdas – quem acha seriamente que as importações do aço canadense ameaçam a segurança nacional? Mas não existe uma maneira clara de impedi-lo de impor tarifas.

E não há nenhuma maneira clara de evitar que seus assessores determinem isenções individuais, aparentemente baseadas em critérios econômicos, mas que na verdade são recompensas pelo apoio político. A política tarifária não é a única área em que Trump pratica o capitalismo de compadrio – os contratos de serviços terceirizados firmados pelo governo federal são cada vez mais escandalosas – e as tarifas são especialmente usadas para exploração.

Por isso, Trump é o homem das tarifas. Elas permitem que ele exerça um poder desenfreado, recompensando seus amigos e punindo os inimigos. Quem achar que ele vai mudar e começar a se comportar com responsabilidade está vivendo num mundo de fantasia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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