Janaína Ribeiro/AAN
Janaína Ribeiro/AAN

Por que o Zaffari quer um estádio de futebol?

Empresa gaúcha arrematou área que pertence ao Guarani em Campinas

NAIANA OSCAR, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2015 | 02h06

Os gaúchos do Grupo Zaffari acabaram de dar mais um passo em seu discreto - e comedido - plano de expansão. No início do mês, a empresa, dona da quinta maior rede de supermercados do País, arrematou o estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas (SP), por R$ 105 milhões. O empreendimento pertencia ao Guarani Futebol Clube, time da série C do Campeonato Brasileiro atolado em problemas financeiros, com 300 processos trabalhistas que somam R$ 70 milhões.

Mas o que era para ser mais uma cartada discreta do Zaffari, inflamou a diretoria e os torcedores do clube, colocando os gaúchos na posição em que se sentem desconfortáveis: sob os holofotes. Os filhos de Francisco José e Santina de Carli Zaffari - que abriram o primeiro mercadinho, 80 anos atrás, na cidade de Erechim - construíram um império no Rio Grande do Sul, mantendo uma postura reservada. Não dão entrevistas, não aparecem em colunas sociais e nem gostam de detalhar seus planos.

Mas, dessa vez, não teve jeito: a diretoria do Guarani fez barulho por considerar o lance muito inferior ao valor de mercado do estádio, avaliado em R$ 400 milhões. Entrou com recurso pedindo o cancelamento do leilão e tentou articular nova proposta com a Magnum, fabricante de relógios e parceiro de longa data do time - mas a proposta foi recusada pela Justiça.

Apesar da pressão, os gaúchos não voltaram atrás. Na quinta-feira passada, o advogado da família Zaffari, Dárcio Vieira Marques, disse, em uma reunião conciliatória, que o grupo está disposto a construir um novo estádio em troca "da paz". "Queremos entrar em Campinas em harmonia. Respeitamos a história do Guarani e pretendemos colaborar, ajudando o clube, inclusive, a construir um novo estádio", disse. Desde que seja em outro lugar e não na área de 82 mil quadrados arrematada no leilão.

Quem vê a fixação do grupo pelo estádio pode pensar que esse era um sonho antigo, parte de uma estratégia de expansão traçada milimetricamente. "Que nada. Até um mês antes do leilão a empresa nem tinha conhecimento dessa área. Fomos contatados por leiloeiros na última hora e depois de algumas visitas ao local decidimos brigar por ela", conta o advogado, que está representando a Maxium Empreendimentos, braço imobiliário do Zaffari. A empresa ainda não tem planos para o terreno, mas vê a possibilidade de construir ali um shopping, com supermercado e, quem sabe, torres comerciais.

Campinas é a segunda cidade fora do Rio Grande do Sul a ser alvo do Grupo Zaffari. A primeira foi São Paulo, em 1997. Naquele ano, a empresa arrematou a área do antigo shopping Matarazzo, na Avenida Pompeia, e iniciou uma batalha judicial com antigos lojistas para assumir o local. A expansão para fora do território gaúcho foi planejada pelo filho mais velho dos fundadores, Marcello Zaffari, que presidiu a companhia por 12 anos até sua morte, em 2008, poucos meses depois de inaugurar o atual Shopping Bourbon.

Desde então, a empresa extinguiu o cargo de presidente e é tocada por quatro irmãos de Marcello - João Benjamin, Claudio, Ivo José e Airton. Embora não seja acionista, o primo Cláudio Luiz, coordenador de operações, é quem fala em nome do grupo - dono de 30 supermercados e 10 centros comerciais. "O grupo cresce com capital próprio, por isso a expansão é muito mais lenta", diz Manoel Araújo, sócio da consultoria em varejo Martinez de Araújo.

Embora tenham virado também empresários do ramo de shopping center, nos negócios, os Zaffari têm duas paixões: operar supermercados e comprar terrenos. "Não há estratégia definida de crescimento", diz um executivo próximo ao grupo. "Eles saem comprando áreas, depois pensam no que fazer com elas, sem pressa."

Terrenos. No ramo imobiliário, terreno parado é dinheiro perdido. Mas os Zaffari parecem não se preocupar com isso. Em 2009, após inaugurar o shopping em São Paulo, a companhia gaúcha adquiriu 22 imóveis no entorno do empreendimento e até hoje não fez nada naquela área. Na zona leste, o grupo é dono de um terreno de 175 mil metros quadrados, onde ficava a fábrica Linhas Corrente, na Vila Alpina. E na zona sul, tem um terreno de 36 mil metros quadrados em frente à sede da Rede Globo, ainda parado.

Procurada, a companhia não detalhou planos para seu "banco de terrenos". Restringiu-se a afirmar, em nota, que "procura estar atenta aos melhores pontos que a dinâmica das cidades possa gerar, novas áreas são incorporadas para oportunizar a expansão das atividades". No mercado, estima-se que, com as áreas que detém, o grupo poderia estar operando pelo menos 15 shoppings. Mas a prioridade dos irmãos Zaffari continua sendo os supermercados.

Desde 2012, quando o Grupo Pão de Açúcar passou a ser controlado pelos franceses do Casino, o Zaffari se tornou a única rede de controle nacional entre os cinco maiores supermercadistas do País. Com receita de R$ 4,2 bilhões no ano passado, tem o maior faturamento por metro quadrado entre os primeiros do ranking (veja quadro acima). "O atendimento é um dos diferenciais da rede", diz Rogério Machado, da consultoria Agillys.

Hoje, segundo a companhia, quatro novas lojas estão em desenvolvimento - três em Porto Alegre e uma em Caxias do Sul, em um shopping da israelense Gazit, que também está construindo um empreendimento em São Paulo, que deve contar com um supermercado da rede. Quando for inaugurada, essa será a segunda unidade do grupo em território paulista desde sua chegada, em 1997. Se a expansão em Campinas seguir no mesmo ritmo, os torcedores do Guarani podem ficar tranquilos: vai levar um bom tempo até que tenham de se despedir do Brinco de Ouro da Princesa.

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