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Por que os indianos adoram recordes mundiais

Obsessão generalizada pode ser explicada pelo fato de que, excluídos o críquete e o xadrez, os indianos apresentam um desempenho péssimo na maioria dos esportes

Economist.com

02 Fevereiro 2015 | 12h13

O ministro das finanças da Índia, Arun Jaitley, viveu um breve momento de alívio no dia 20 de janeiro. A Guinness World Records conferiu a ele um certificado reconhecendo que mais de 18 milhões de novas contas bancárias foram abertas na Índia numa única semana no mês de agosto do ano passado, um feito único. 

Há uma campanha em andamento com o objetivo de incluir todos os lares no sistema bancário: até 24 de janeiro um total de pelo menos 121 milhões de novas contas  tinham sido abertas. Mas o tema da inclusão financeira é de uma monotonia mortífera. O que empolga as pessoas é o fato de um recorde mundial, especialmente quando certificado por uma autoridade estrangeira, Guinness, ou por uma autoridade local, como o Livro dos Recordes Limca. Por que os indianos se interessam tanto (mais do que outros povos) pela quebra de recordes?

Com uma população de 1.25 bilhão de pessoas, a Índia conta com uma vantagem inerente em relação aos demais países quando o assunto são os grandes números. O tamanho do país significa que não é difícil alcançar novos recordes: a Índia tem o maior banco de dados biométricos do mundo (mais de 700 milhões de participantes até o momento), por exemplo, e o maior número de mulheres eleitas para cargos políticos (mais de 1 milhão). 

Mas explicar a obsessão individual pela quebra de recordes é mais difícil. De acordo com a Guinness World Records, que abriu um escritório em Mumbai alguns anos atrás, os indianos enviam mais solicitações de certificados de recordes do que todos os demais países emergentes (somente americanos e britânicos fazem mais solicitações). Se contabilizarmos o Limca e os demais registros locais de feitos recordes, é quase certeza que a Índia ultrapassará todos os demais países.

Entre os feitos nacionais: maior pão chapati do mundo (64 quilos), em 2005; maior reunião de sósias de Gandhi (485, em Kolkata, 2012); redator de cartas mais persistente (456 cartas enviadas a um jornal de Bophal, entre 2000 e 2006); maior bigode (quatro metros e 29 centímetros, em 2013); passar uma agulha pelos pontos de costura 7.238 vezes em duas horas (1990). O mais estranho? Talvez seja o do sapateiro James Syiemiong, que estalou 26 juntas diferentes do corpo dentro de um único minuto, ou o de Radhakant Baijpal, dono dos pelos mais longos já vistos em orelhas (25 centímetros).

As motivações de quem tenta quebrar recordes são as mais variadas, mas muitas delas podem explicar a obsessão generalizada observada na Índia. Uma delas é o fato de, excluídos o críquete e o xadrez, os indianos apresentam um desempenho péssimo na maioria dos esportes reconhecidos. A seleção de futebol, por exemplo, ocupa a 171.a posição no ranking, logo atrás de São Tomé e Príncipe, com população de 190 mil. 

Assim, o estabelecimento de recordes mundiais em atividades incomuns pode ajudar a estimular o orgulho nacional. Em segundo lugar, muitos indianos adotaram prontamente traços organizacionais dos britânicos (os dois países têm muitos tipos estranhos obcecados com a manutenção de registros, que adoram recordar o placar de partidas de críquete ou lembrar detalhes do clima). 

Os membros de uma faculdade ou associação voluntária com frequência se reúnem para alcançar uma meta conjunta, como foi o caso dos 292 estudantes de engenharia de Pune que pularam juntos uma mesma corda simultaneamente, ou os sósias de Gandhi em Kolkata que captaram recursos para crianças pobres. 

A Índia está repleta de ativistas e associações de caridade promovendo campanhas ou captando dinheiro com alguma peripécia digna de entrar nos livros de recordes. Em terceiro, os indianos se mostram extremamente à vontade diante da excentricidade: uma sociedade que não se choca com seitas religiosas cujos membros andam nus - ou com o fato de muitos passarem a maior parte da vida meditando - dificilmente vai se surpreender com a obsessão individual de um candidato a recordista.

Uma última explicação, ligada às demais, é o fato de os indivíduos usarem os recordes como caminho para alcançar glória e renda modestas. Um celebrado personagem de Delhi, Guinness Rishi (ele mudou de nome para chamar atenção à sua reputação de quebrador de recordes), conquistou sete recordes certificados pela Guinness até 2012, embora alegasse ser o dono de outros 15. Tinha o maior número de tatuagens de bandeiras no corpo (220), tinha sido o mais rápido a devorar determinada quantidade de ketchup e produziu o menor Alcorão do mundo.

Por que ele fez tudo isso? A um jornalista estrangeiro, ele respondeu: "Não tenho escolha a não ser insistir em quebrar recordes, caso contrário serei esquecido". Em outras palavras, a Índia é tão populosa que pode ser difícil encontrar uma maneira de se destacar da multidão. Quebrar um recorde significa receber atenção. O ministro Jaitley não precisava de atenção, mas muitos outros indianos anseiam por ela.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com 

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