Lucas Jackson/REUTERS
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Por que os mercados prosperam em um ano de infelicidade para a humanidade

Além dos estímulos do Fed, o aumento da poupança entre os trabalhadores de renda maior criou uma maré que elevou quase todos os ativos financeiros nos Estados Unidos

Neil Irwin e Weiyi Cai, The New York Times

03 de janeiro de 2021 | 19h24

A realidade central dos Estados Unidos ao final de 2020 era de que tudo vai mal no mundo, enquanto os mercados financeiros vivem um ótimo momento, o que pode parecer incompreensível.

É um espetáculo macabro. Os preços dos ativos seguem alcançando novos e extraordinários recordes, em um momento em que há cerca de 3 mil pessoas morrendo diariamente por causa do coronavírus e 800 mil pessoas por semana solicitando auxílio para desempregados.

Até um defensor apaixonado do capitalismo poderia se perguntar se há algo de completamente falido no sistema de funcionamento da economia.

Para entender melhor a estranha mistura de prosperidade nos mercados e desespero econômico, é interessante analisar os dados. Os números oferecem uma narrativa coerente mostrando como os EUA chegaram a esse ponto, trazendo lições a respeito da intersecção entre políticas públicas, mercado e economia, e revelando a aguda disparidade entre os possuidores e os despossuídos no ano da pandemia.

Renda

Este épico começa, como tantos outros, com uma tabela de dados da National Income and Product Accounts (Levantamento nacional de renda e produção, NIPA) — mais especificamente, a “Personal Income and Its Disposition, Monthly” (Renda pessoal e sua disposição, mensalmente).

Esse relatório mostra como são a renda e o gasto dos americanos, duas atividades que o coronavírus alterou drasticamente em 2020. Ao combinar os números de março a novembro (os mais recentes disponíveis) e compará-los com o mesmo  período de 2019, enxergamos mais claramente o efeito gangorra da pandemia.

A primeira observação importante: os salários agregados caíram menos do que um atento observador da economia pensaria. A compensação total de empregados teve queda de apenas 0,5% nesses nove meses, algo mais condizente com uma leve recessão do que uma catástrofe econômica.

Isso pode parecer impossível. Setores inteiros da economia foram paralisados; há milhões de desempregados. O número de empregos que os empregadores informaram manter estava em baixa de 6,1% em novembro em relação ao ano anterior, de acordo com outros dados do departamento de emprego.

Como é possível uma queda de 6% no número de empregos, mas uma queda de apenas 0,5% na compensação? A resposta está no tipo de emprego que foi perdido. As milhões de pessoas que deixaram de trabalhar por causa da pandemia pertencem desproporcionalmente à categoria de emprego de salário mais baixo no setor de serviços.

A probabilidade de profissionais de salário mais alto serem afetados foi menor, e alguns setores específicos estão prosperando, como armazéns e mercados, levando a uma renda mais alta para esses trabalhadores.

Apesar de todos os ataques direcionados ao pacote de auxílio contra o coronavírus aprovado pelo congresso americano no fim de março, isso representou uma ajuda extraordinária para a renda dos americanos, especialmente aqueles que perderam o emprego.

A renda dos americanos proveniente de benefícios do seguro desemprego foi 25 vezes maior entre março e novembro de 2020 do que no mesmo período de 2019. Isso reflete em parte o fato de haver milhões de pessoas a mais recorrendo aos benefícios contra o desemprego, é claro.

Mas reflete também um complemento de US$ 600 semanais aos benefícios contra o desemprego que o pacote garantiu até julho — além de um programa de apoio aos freelancers e autônomos que ficaram sem trabalho e não teriam direito ao benefício.

No total, programas de auxílio para desempregados injetaram US$ 499 bilhões a mais no bolso dos americanos entre março e novembro em comparação ao ano anterior; desse montante, US$ 365 bilhões foram resultado da expansão prevista pelo pacote de ajuda contra o coronavírus.

Os cheques de US$ 1.200 que a maioria dos lares americanos incluídos nesse pacote trouxeram mais US$ 276 bilhões para a renda pessoal — e boa parte disso foi destinado a famílias que não sofreram uma queda em seus ganhos.

E o principal programa do pacote voltado à manutenção dos empregos, o Programa de Proteção ao Assalariado (PPP, na sigla em inglês), evitou um colapso na “renda do proprietário” — lucros que chegariam aos donos de negócios e fazendas.

Essa renda apresentou uma leve alta, de US$ 29 bilhões, mas teria caído cerca de US$ 143 bilhões se não fosse pelo PPP e um programa de assistência alimentar contra o coronavírus.

São números notáveis. Na somatória, a renda cumulativa pessoal dos americanos após o pagamento de impostos teve alta de US$ 1,03 trilhão entre março e novembro de 2020 em relação a 2019, crescimento superior a 8%.

Parte do pessimismo entre os analistas econômicos (e jornalistas) no segundo trimestre refletiu uma incapacidade de entender a dimensão do estímulo e sua influência.

Mas a renda é apenas parte da história. Em 2020, as grandes mudanças também afetaram o outro lado dessa equação: os gastos.

Gastos

Ao acompanhar outra história empolgante, “Personal Consumption Expenditures by Major Type of Product, Monthly” (Gastos com consumo pessoal nos principais tipos de produto, mensalmente), enxergamos um padrão que, retrospectivamente, pode parecer óbvio, mas não era fácil de prever enquanto a economia entrava em colapso durante o segundo trimestre.

A parte óbvia diz respeito ao declínio nos gastos com serviços. Todas as reservas que deixaram de ser feitas nos restaurantes, os voos cancelados e ingressos para eventos esportivos e de entretenimento representam bastante dinheiro. Os gastos com serviços tiveram queda de US$ 575 bilhões, ou quase 8%.

Menos óbvios foram alguns dos outros padrões que afetaram os gastos do consumidor em meio à pandemia. Os americanos gastaram bastante comprando coisas — o dinheiro que não quiseram ou não puderam gastar em serviços.

O gasto com bens duráveis teve alta de US$ 60 bilhões (uma cadeira melhor para trabalhar em casa, ou quem sabe uma bicicleta nova), enquanto o gasto com bens não duráveis aumentou US$ 39 bilhões (pense naquele uísque comprado para tomar em casa que, em um universo paralelo, seria registrado como consumo de “serviços” em um bar).

Mas os gastos extras com esses produtos não superaram o rombo nos gastos com serviços. E, graças aos juros mais baixos, o pagamento dos empréstimos pessoais dos lares teve queda de US$ 59 bilhões.

Na somatória, além de receberem mais dinheiro, os lares americanos estavam gastando menos. O total de despesas teve queda de US$ 535 bilhões.

Poupança

Essa combinação entre alta na renda pessoal e queda nos gastos fez aumentar muito a poupança dos americanos. Entre março e novembro, as poupanças pessoais aumentaram US$ 1,56 trilhão em relação a 2019, o equivalente a 173%.

Normalmente, a proporção da poupança oscila dentro de uma margem estreita, de aproximadamente 7% antes da pandemia. Em abril houve uma alta de 33,7%, a maior já registrada desde 1959, quando esse dado começou a ser medido.

Mesmo com milhões de pessoas enfrentando dificuldades econômicas este ano, no geral os americanos estavam poupando a um ritmo surpreendente. O dinheiro tinha que ir para algum lugar. Mas onde?

Conservar o dinheiro extra foi uma alternativa — e o dinheiro em circulação aumentou em US$ 260 bilhões desde fevereiro, o equivalente a 14%. Os depósitos nos bancos comerciais aumentaram muito — 19% desde a primeira semana de março.

Ou, para aqueles que se sentem mais confortáveis diante do risco, havia o investimento em ações, que explica a alta de 16% no índice S&P 500 em 2020. Para aqueles dispostos a enfrentar riscos maiores — e capazes de aproveitar o embalo do mercado — a opção era comprar ações que o mercado adora, de empresas como a Tesla, ou trading de opções.

Outra possibilidade foi aproveitar a ocasião da pandemia para comprar uma casa nova. As vendas de lares aumentaram muito, e o índice imobiliário nacional S&P CoreLogic mostrou alta de 8,4% no início de outubro em relação ao ano anterior.

Essencialmente, a alta na poupança entre aqueles que evitaram o pior do estrago econômico  está criando uma maré que eleva o valor de quase todos os ativos financeiros.

É claro que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) desempenha um papel. O banco central reduziu os juros a quase zero, prometendo mantê-los nesse patamar durante anos, comprando a dívida do governo e sustentando os mercados de obrigações corporativas.

Mas a alta nos valores dos ativos chegou a setores muito distantes do apoio do Fed, como as ações e o Bitcoin. E a alta se acelerou no terceiro trimestre, mesmo com a falta de novas medidas de estímulo por parte do Fed. / TRADUÇÃO: AUGUSTO CALIL

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