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Por sobrevivência, 65% dos executivos veem criação de novos produtos e serviços como prioridade

Em fórum da McKinsey realizado nesta sexta-feira, 19, empresas como o Magazine Luiza e a Vivo contaram suas estratégias de reinvenção

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 13h36

A construção de novos negócios virou um imperativo para as empresas no Brasil e no mundo. E, de acordo com uma pesquisa realizada pela consultoria McKinsey, os principais executivos das empresas brasileiras estão prestando a atenção nessa questão. Para 65% deles, criar novos produtos ou serviços está entre as três principais prioridades para os próximos anos – um em cada cinco colocam como a principal prioridade.

Com mudanças cada vez mais velozes no mercado como um todo, aquelas empresas que não se transformarem rapidamente podem entrar na triste estatística do encerramento das operações. Esse tipo de situação já está acontecendo. Prova disso é que, em 1958, a vida média de uma empresa listada nos Estados Unidos era de 58 anos. Hoje, uma empresa dura cerca de 22 anos. 

“A transformação não é mais uma opção, mas um imperativo”, diz Reinaldo Fiorini, sócio sênior e líder do escritório da McKinsey no Brasil, em entrevista ao Estadão realizada durante o Fórum McKinsey 2021. De acordo com o executivo, trata-se de uma necessidade de sobrevivência. 

Um dos convidados do evento foi o presidente do Magazine Luiza, Frederico Trajano, que contou sobre a transformação pela qual a companhia vem passando desde que ele assumiu o negócio, no fim de 2015. A missão na época era digitalizar a companhia, que tinha pouca tradição no e-commerce. De lá para cá, a companhia deu um salto nas vendas digitais, que já representam 70% do seu negócio.

Mas isso é apenas um número, segundo Trajano. Para a companhia conseguir esse objetivo, muita coisa mudou dentro de casa. Talvez a principal delas foi a criação do Luiza Labs, braço de inovação da varejista que já conta com cerca de 3 mil colaboradores na área de tecnologia. “São 200 ‘squads’ que estão trabalhando diariamente com a missão de digitalizar o cliente”, diz Trajano.

Com diversos times focados em trazer novos produtos e serviços, a empresa chegou a 120 mil empresas vendendo em sua plataforma de marketplace, sendo que 55 mil nunca tinham vendido nada pela internet. 

Concorrência

O Magalu é um exemplo de empresa tradicional que conseguiu se reinventar. Não à toa, as suas ações dispararam nos últimos anos e a transformaram na maior queridinha da Bolsa – este ano, no entanto, vem sofrendo no mercado, assim como todo o setor de varejo. Porém, o exemplo da Magalu não é dos mais comuns: as empresas incumbentes estão perdendo espaço para as startups.

Um exemplo dado por Heitor Martins, sócio sênior e líder da McKinsey Digital na América Latina, é o Nubank, que está prestes a estrear na bolsa dos Estados Unidos. É esperado que a empresa alcance um valor de mercado acima de US$ 70 bilhões, o que a transformaria na empresa do setor financeiro mais valiosa da América Latina, à frente de bancos como o Itaú, Bradesco e Santander Brasil. 

“As startups são mais ágeis e mais abertas para o erro, mas perdem na questão da marca e da escala. O contrário acontece com as incumbentes, que têm marcas fortes, mas são mais lentas para inovar. As empresas precisam juntar esses dois mundos”, afirma Heitor. 

Gigantes de olho nas startups

A Vivo vem focando nessa transformação por meio da Wayra, braço de investimentos em stratup da empresa de telefonia. Hoje, a Wayra possui uma carteira com 33 investimentos em startups e que, juntas, possuem um valor de mercado de R$ 1 bilhão. Esse tipo de estratégia, segundo o presidente da Vivo, Christian Gebara, é fundamental para o futuro da empresa, que vem estreando em outras áreas.

Se antes a empresa era apenas uma companhia de telefonia, que vendia linhas de telefone fixo e de celular, além de conexão para a internet, a Vivo estreou em outros segmentos como educação (em uma parceria com a Ânima, dona de faculdades como a Anhembi Morumbi), entretenimento (com a venda de pacotes de streamings na fatura), casa inteligente e também abriu o seu próprio marketplace. Além deles, a operadora estreou também no segmento financeiro e através do “Vivo Money” vai começar a fazer empréstimos de até R$ 50 mil para os seus clientes.

“Nós temos informações dos clientes que as vezes nem os bancos têm, então conseguimos conceder empréstimos com segurança”, diz Gebara. 

Inovação na mídia

Também presente no Fórum McKinsey, o presidente do Estadão, Francisco Mesquita,  afirmou que a transformação digital do jornal vai muito além de apenas “estar na internet”: “Hoje, você entende melhor a jornada, o tipo de informação e formato que o leitor quer. Antigamente, a gente tinha só o papel, e concentrado no café da manhã. Hoje as pessoas se informam o dia inteiro, do café da manhã até a hora em que vão dormir, e temos de estar presentes.”

Mesquita também comentou a recente “virada” do jornal de papel para o formato berliner. “A gente tinha de modernizar essa plataforma. Fizemos um grande trabalho e muitas pesquisas de mercado, testamos formatos diferentes e fizemos essa mudança, que tem poucos dias, com uma repercussão muito positiva”,  diz. “O berliner é um formato intermediário. Ele facilita a leitura numa mesa de café da manhã, no avião, metrô. É mais moderno no formato, no design e no conteúdo.” 

O desafio de inovar durante a crise

A transformação digital pode ser um imperativo, mas custa dinheiro e tempo da companhia. Diante de um cenário de recessão, que é esperado para 2022, além da alta do desemprego e da inflação, essa missão fica ainda mais complicada para as empresas que já estão sofrendo com os impactos de quase dois anos da pandemia.

Para Fiorini, da McKinsey, trata-se de um cenário complexo. Porém, as empresas precisam realizar sua parte para cobiçarem melhores posições no futuro. Ele, inclusive, faz uma provocação: será que não existem mudanças a serem realizadas nos orçamentos? “As vezes é necessário reavaliar o portfólio e mexer uma parte de orçamento de uma área para a outra”, diz o executivo. 

Segundo ele, as companhias precisam ser resilientes nesse período e aquelas que conseguirem fazer a lição de casa nesse momento – e até mesmo fazer investidas – podem ser aquelas que se destacarão em breve. “As empresas que vão ganhar participação no futuro são as que estão índo para o ataque agora”, diz Fiorini. 

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