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Por trás da CES

Aparecer muito na imprensa não dá qualquer garantia que aquela inovação vá decolar

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2017 | 05h00

Este e outros jornais estão gastando páginas e páginas, de papel e de web, para fazer a cobertura da CES. Consumer Electronics Show, feira dos eletrônicos de consumo, que ocorre toda primeira semana do ano, em Las Vegas. Não à toa. É o maior evento de produtos tecnológicos do mundo. É possível escrever longamente sobre o que se passa por lá. Mas o que raramente se fala é de como a CES funciona, de por que funciona.

Nenhum evento internacional reúne tantos jornalistas, vindos de tantas partes do globo, todos especializados em tecnologia. A CES não é importante por conta do público que circula pelos pavilhões. É importante por causa dos jornalistas. A feira, afinal, é uma gigantesca peça de propaganda da indústria digital. As empresas que apresentam suas novidades por ali pensam, principalmente, na quantidade de repórteres escrevendo em não sei quantas línguas, simultaneamente. Se destacar lá garante aparecer em tudo quanto é canto. Ganhar esse destaque, porém, não é trivial.

Tampouco é acidente que a CES ocorra na primeira semana do ano. É uma das semanas mais infernais para qualquer redação. Nada acontece. Claro, por vezes há uma tragédia – caso do massacre no Amazonas. Mas fora algo extraordinário, é uma semana parada. A imprensa busca, em desespero, temas sobre os quais escrever. Fazer uma feira dessas neste período garante que mais espaço será dado ao assunto. Amplia as chances de todos que desejam aparecer.

Mas a CES é também uma briga. Indústrias disputam o espaço para estabelecer os temas dominantes. Houve a CES dos tablets, a da tecnologia de vestir. Acaso seu principal lançamento do ano pertença à categoria mais comentada da feira, já é meio caminho andado para aparecer nas páginas e timelines. Quando um tema específico é muito mais falado do que os outros, as chances de que aquele tipo de produto emplaque, e pessoas saiam às lojas para a compra, aumentam.

Mas nem sempre funciona. No caso dos wearables, os relógios inteligentes e outros apetrechos de vestir, muito se falou e, ainda assim, algumas das principais empresas do ramo estão fechando as portas. Alguns produtos emplacaram em nichos como o de avaliação de condicionamento físico. Aparecer muito na imprensa, ora pois, não dá qualquer garantia de que aquela inovação tecnológica vá colar.

Este ano, por exemplo, há inúmeros robôs na CES. Robôs são curiosos, geram matérias divertidas que o leitor gosta de encontrar. Isto não quer dizer que ele esteja convencido de que robôs, em geral caros, têm espaço em suas rotinas. (Há exceções. Os aspiradores de pó robôs são espetaculares de tão úteis.) Há, porém, outro nicho importante surgindo – este promissor. O dos assistentes digitais, que se encontram no centro das casas inteligentes. O primeiro deles, Echo da Amazon, já é um enorme sucesso de vendas. Dominarão este ano? A ver.

Há outro jeito que a turma de marketing gosta de usar a CES. Tudo, hoje, é digital. Parecer uma indústria antiga, analógica, é um negócio terrível. Então quando empresas tradicionais se bandeiam para Las Vegas nesta semana, estão querendo dizer que se encaixam nos tempos correntes tanto quanto qualquer um vindo daquele pequeno vale ao sul de San Francisco. É por isso, por exemplo, que a indústria automobilística passou a ir para lá. Não deseja que as Teslas e os Googles da vida roubem-lhe o espaço. Ao menos não todo o espaço. Seus carros, querem dizer, são tão século 21 quanto aqueles do Vale do Silício.

Divirta-se com todas as novidades da CES. O digital está no centro de nossas vidas, então a cobertura é relevante. Mas é uma cobertura difícil. Tudo, lá, é marketing.

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