Por um Brasil sem cigarro

Décadas atrás, o hábito de fumar era visto como algo elegante e charmoso, ideia reforçada pela publicidade e pelas estrelas que apareciam com cigarros entre os dedos nos filmes de Hollywood. Na época, os malefícios para a saúde não eram muito debatidos a não ser entre os cientistas e os próprios executivos de empresas fabricantes. Após intensas campanhas antitabagismo, o número de fumantes no Brasil caiu e o hábito é cultivado com certo constrangimento. De acordo com pesquisa divulgada em abril pelo Ministério da Saúde, os fumantes são 14,8% dos brasileiros, proporção bem inferior aos 22,4%, de 2003, e os 34,8%, de 1989. No mundo, 47% da população masculina e 12% da feminina fumam, evidenciando, em perspectiva, o sucesso dos programas de combate ao tabagismo no Brasil.

José Cechin, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2012 | 03h05

Mas, se em termos relativos os números são positivos, em termos absolutos, ainda temos o que lamentar. No Brasil, há 30 milhões de fumantes, destes, mais de 3 milhões de adolescentes, entre 15 e 19 anos, e cerca de 30 mil crianças, entre 5 e 9 anos. Mais estarrecedor é o grande número de mulheres grávidas fumantes, quase 1 milhão. E mesmo entre estudantes de Medicina, o hábito ainda está presente, como apontou o estudo de 2011 da Faculdade de Medicina de Passo Fundo, identificando que 5,1% dos alunos eram fumantes diários e 11,2%, eventuais. Fumar é uma escolha pessoal, com recompensa imediata na forma de um intenso prazer que chega a cada tragada, muito antes de suas consequências, que só o tempo se encarrega de explicitar. De acordo com a Organização Pan-americana da Saúde, o tabagismo é responsável por 25% das mortes por derrame cerebral, 30% das mortes por câncer e 90% das mortes por câncer de pulmão. No Brasil, são 200 mil óbitos por ano relacionados à causa. E não é só na saúde que o tabagismo impacta negativamente. Quem fuma um maço por dia ao final de um ano poderia comprar uma TV LCD de 42 polegadas, por exemplo.

As consequências financeiras também são severas para toda a coletividade, uma vez que as despesas com saúde são bancadas por todos na forma das contribuições que financiam o SUS ou mensalidades dos planos de saúde. De fato, o governo sente no bolso esse impacto, já que só o SUS gasta, anualmente, R$ 426 milhões no tratamento de doenças relacionadas ao fumo. A esse montante ainda poderíamos somar os prejuízos causados pelas ausências ao trabalho, despesas previdenciárias com auxílio-doença e aposentadorias por invalidez. Felizmente, a política antitabagismo foi bem-sucedida na supressão do glamour associado ao cigarro e despertou um sentimento coletivo do direito a ambientes livres de fumaça, sem negar o direito individual de fumar. Esse é um movimento que parece não ter mais volta. Atualmente, cenas que seriam consideradas comuns há alguns anos, como pessoas fumando em hospitais, restaurantes, ônibus e aviões, já causam perplexidade na maioria de nós. Para tal, o aumento das restrições ao fumo, a proibição à propaganda e as campanhas de esclarecimento tiveram grande contribuição. Há que persistir nessa política para reduzir ainda mais a fração de fumantes. Para facilitar o alcance desse objetivo, é necessário colocar à disposição meios para auxiliar aqueles que pretendem abandonar o hábito e superar a dependência e os efeitos da abstinência.

As operadoras de planos de saúde têm dado grande contribuição com a oferta de programas de incentivo e apoio à adoção de hábitos saudáveis. As ações são as mais variadas possíveis, indo da distribuição de materiais informativos a palestras de sensibilização, sessões terapêuticas, diagnósticos específicos, orientações personalizadas e acompanhamento por equipes multidisciplinares. E aqueles que já sentem no corpo as consequências do tabagismo têm à disposição diversos programas de acompanhamento de doentes crônicos. Assim, munidos de informação, aqueles que ainda escolhem o caminho do tabagismo, fazem-no dentro de seu pleno direito. Para aqueles que pretendem abandonar o vício, nunca houve momento tão propício.

JOSÉ CECHIN, DIRETOR EXECUTIVO DA FENASAÚDE

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