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Por uma agricultura de precisão mais barata

Faixas de frequência de televisão que estão desocupadas e uso de drones podem contribuir para que projetos de fazendas inteligentes se tornem uma realidade

The Economist, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2016 | 05h00

Na fazenda Dancing Crow, no Estado de Washington, os raios de sol que banham as plantações também são captados por uma série de painéis solares. A pequena propriedade abastece as feiras de Seattle com verduras orgânicas. Além disso, é palco de um projeto experimental da Microsoft. Ao longo do últimos doze meses, os engenheiros da empresa vêm desenvolvendo no local tecnologias destinadas a reduzir drasticamente os custos da chamada “agricultura de precisão”, que, recorrendo a sensores e algoritmos, procura fornecer água, fertilizantes e pesticidas apenas para as plantas que efetivamente necessitam desses insumos.

A agricultura de precisão é uma das ferramentas tecnológicas que podem ajudar a alimentar um planeta cuja população deve chegar a quase 10 bilhões de pessoas até 2050. Se os agricultores puderem irrigar suas plantações apenas quando necessário e evitar o uso excessivo de pesticidas, economizarão recursos e ampliarão a produção.

Mas os sistemas existentes custam US$ 1 mil por sensor. Se o valor já é proibitivo para a maioria dos agricultores do mundo desenvolvido, para os países pobres, onde os ganhos de produtividade são mais necessários, é simplesmente inviável. Na realidade, os sensores, que registram itens como umidade, temperatura e acidez do solo, nem são tão caros, e funcionam com a energia gerada por painéis solares baratos.

O que pesa no bolso é levar os dados dos sensores para o agricultor. São poucas as propriedades agrícolas que têm boa cobertura de telefonia celular, e as redes Wi-Fi não têm como cobrir toda a extensão de uma plantação. Por isso, a maior parte dos sistemas de agricultura de precisão empregam sensores conectados a estações-base de telefonia celular, que chegam a custar dezenas de milhares de dólares, ou a satélites, que exigem antenas e planos de dados dispendiosos.

Na Dancing Crow, porém, os sensores aproveitam os segmentos desocupados das frequências de UHF e VHF utilizadas pelas emissoras de TV. Muitos países vêm fazendo testes com esse “espaço branco” a fim liberar mais banda larga para as redes de telefonia celular. Na zona urbana, pequenas fatias do espectro de espaço em branco valem milhões de dólares. Na zona rural, porém, a baixa densidade populacional garante espaço de sobra, diz o pesquisador da Microsoft Ranveer Chandra.

A sede da Dancing Crow é conectada à internet de maneira tradicional. Uma estação-base retransmite o sinal para um galpão, erguido junto à plantação, em cujo telhado há uma antena de TV comum. Os sensores se comunicam com o galpão utilizando transceptores com alcance de mais de 8 km. E esses transceptores são baratos: “Já conseguimos montar sensores com menos de US$ 100”, diz Chandra. “Nosso objetivo é chegar a um sensor que custe menos de US$ 15.”

Esforço. A Microsoft não está sozinha na busca de sensores agrícolas mais em conta. Pesquisadores da Universidade de Mannheim, na Alemanha, desenvolveram uma rede de sensores que com base na tecnologia “rádio definido por software” (SDR, na sigla em inglês), que usa computadores para simular um receptor de rádio extremamente sensível. E cientistas da Universidade de Nebraska-Lincoln estão trabalhando em sensores que se comunicam por ondas de rádio propagadas pelo solo, e não pelo ar, e que são alimentados com a energia gerada pela vibração da passagem de tratores e outras máquinas agrícolas no terreno.

Por outro lado, embora muito úteis, os dados produzidos pelos sensores não incluem todas as informações de que os agricultores precisam. Para preencher a lacuna, a Dancing Crow utiliza um drone. Esses aviões não tripulados estão cada vez mais baratos (um modelo básico sai por US$ 1 mil), mas é preciso gente treinada para operá-los, e, como suas baterias são pequenas, sua autonomia de voo também é limitada. Por isso, a equipe da Microsoft elaborou um sistema de piloto automático, que determina a rota mais eficiente e reduz em 25% o tempo que o drone leva para percorrer a fazenda.

As imagens produzidas contêm informações úteis sobre o crescimento da plantação, as condições de saúde das plantas e o aparecimento de eventuais pragas. A questão é que interpretar essas informações está fora do alcance da maioria dos agricultores. Por isso, a Microsoft desenvolveu um software capaz de reunir as fotos numa única visão panorâmica de toda a propriedade. Os dados produzidos pelos sensores são sobrepostos a essa visão e o computador projeta valores de umidade e acidez, entre outros, para áreas específicas da plantação.

Daqui a alguns meses, quando as águas do rio Snoqualmie, que corre perto da Dancing Crow, inundarem as terras da propriedade, como fazem todos os anos, Chandra pretende levar suas tecnologias para a Índia. Os agricultores mais desvalidos não têm condições de adquirir nem os drones mais baratos. O pesquisador da Microsoft quer testar uma solução mais simples: amarrar um smartphone num balão de hélio de US$ 5 e carregá-lo consigo enquanto percorre as plantações.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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