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Por uma estratégia para o IDE

O Brasil recebeu em junho US$ 10,3 bilhões de ingresso de Investimento Direto Estrangeiro (IDE), recorde histórico para um único mês, segundo os dados do Banco Central. O acumulado em 12 meses atingiu US$ 32,8 bilhões, igualando-se ao recorde do fluxo total do ano 2000, dos quais, naquela ocasião, cerca de US$ 7 bilhões estavam diretamente associados às privatizações. Outra diferença é que, ao contrário do final dos anos 1990, em que o fluxo de capitais externos era imprescindível para financiar o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) ao ano, a situação hoje é exatamente inversa. Com superávit em conta corrente e um nível de reservas internacionais relativamente confortável, o Brasil pode dar-se ao luxo de ser mais seletivo e exigente quanto à qualidade do capital estrangeiro ingressante.O País continua no foco dos investidores globais, ainda mais agora, diante da concreta perspectiva de se tornar grau de investimento pelas agências de classificação de risco. Nos últimos 12 anos o Brasil se vem mantendo no segundo posto entre os países em desenvolvimento mais atrativos, apenas superado pela China. De fato, nenhuma empresa que pretenda ser global pode se dar ao luxo de ficar de fora da economia brasileira, a nona maior mundial. No entanto, o País ainda carece de uma estratégia integrada de absorção de Investimento Direto Estrangeiro.A pergunta que precisa ser feita é qual o papel do IDE? Estudos de diferentes matizes têm apontado, baseados na experiência histórica de outros países, que o ingresso de investimento externo não é, por si só, garantia de sucesso no desafio do desenvolvimento. Ou seja, sem uma estratégia nacional de desenvolvimento, na qual esteja explícito o papel dos ingressos de capital externo, dificilmente se consegue o resultado desejado.Antes de uma visão excessivamente ufanista, vale uma análise da qualidade do investimento. Qual seria a modalidade de IDE mais adequada ao Brasil? Dadas as condições da economia é aquela que supra nossas carências produtivas e de infra-estrutura. Há setores das cadeias produtivas brasileiras nos quais temos claras debilidades. É o caso da indústria de componentes eletrônicos, químico-fármacos e bens de capital, para citar os mais claramente detectáveis. Estes setores perfazem um déficit comercial setorial acumulado de cerca de US$ 18 bilhões ao ano. Há ainda outros setores em que já possuímos importante base produtiva, mas que necessitam ampliar sua capacidade. É o caso do complexo automotivo, bens eletrônicos duráveis, papel e celulose, mineração e siderurgia, por exemplo. Também há as áreas novas, nas quais devemos criar e desenvolver novas capacidades competitivas, como biocombustíveis, etanol, etc. Há ainda carências a serem supridas nas áreas de infra-estrutura: energia, transportes, saneamento, portos, aeroportos, etc.A maior parte do IDE ingressante está associada às operações de fusões e aquisições de empresas. Num primeiro momento, apenas uma transferência patrimonial, sem geração de novas capacidades. O Brasil tem potencial para muito mais e para atrair investimentos em novos projetos (green field). É preciso, para isso, articular as estratégias de absorção de IDE num único órgão no governo. Ele deveria capitanear as ações e a interlocução entre o governo e a iniciativa privada. Vários países o fazem por meio de uma agência promotora de investimentos, embora isso não seja imprescindível. As políticas macroeconômicas, principalmente a cambial, precisam favorecer o investimento de maior valor agregado, o que não ocorre hoje. Também é crucial que todas as estratégias sejam integradas às iniciativas de políticas de competitividade (políticas industrial, científica tecnológica e de comércio exterior, principalmente). Nesse ponto há um grande potencial ainda não suficientemente explorado. Há sinalizações de mudança positiva, a julgar pelas manifestações dos novos titulares das áreas responsáveis no governo federal. Ainda não sem tempo! *Antonio Corrêa de Lacerda, doutor em economia pela Unicamp, ex-presidente da Sobeet, é professor doutor da PUC-SP e autor de Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil (Saraiva). E-mail: aclacerda@pucsp.br

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