Portfólio-A duvidosa solidez do setor de construção na Bolsa

O setor de construção civil registrou a mais expressiva valorização no mercado acionário brasileiro ao longo do mês de julho. Coroando uma recuperação expressiva em suas cotações, as ações de construtoras subiram, em média 30 por cento no mês passado.

CLÁUDIO GRADILONE, REUTERS

10 de agosto de 2009 | 19h56

Os especialistas, porém, advertem que essa bonança pode, assim como alguns edifícios, ter fundações pouco sólidas.

No acumulado de 2009 até o fim de julho, as cotações das empresas de construção civil subiram 138 por cento, segundo uma pesquisa realizada com as 20 ações mais negociadas do setor.

Alguns papéis, como as ações ordinárias da construtora Tenda, subiram mais de 100 por cento no mês passado. As empresas mais voltadas para construções populares apresentaram as maiores valorizações.

A justificativa para esse desempenho foi tanto a retomada do crédito imobiliário por parte dos bancos quanto a generosa injeção de recursos governamentais no setor. Programas como o "Minha Casa, Minha Vida", do governo federal, foram vistos pelo mercado como um subsídio indireto às construtoras voltadas para a baixa renda.

As empresas mais voltadas para as habitações populares passaram a dispor de um manancial de recursos abundantes e baratos e, mais do que isso, imunes às vicissitudes do mercado internacional de crédito. Somando-se a isso as boas expectativas para o crescimento da economia brasileira em 2010 (2009 ainda está sujeito a discussão), houve grande afluência de recursos para essas empresas.

Essa alta é justificável? Para responder a essa pergunta, é preciso colocar dois pontos em perspectiva. O primeiro é a capacidade de tantas companhias abertas subsistirem em um mercado cada vez mais competitivo. A segunda é se a valorização das ações representa um ganho efetivo ou uma mera correção de preços após a crise do segundo semestre de 2008.

A capacidade de sobrevivência das companhias imobiliárias no mercado foi uma questão ventilada desde a febre das aberturas de capital em 2007. Os banqueiros de investimento responsáveis pelos lançamentos comentavam reservadamente que muitas das construtoras que abriram capital repetiam um padrão observado na bolha das ações de Internet, dez anos antes.

Ou seja, muitas companhias abriram capital com o objetivo perfeitamente lícito de facilitar e capitalizar uma posterior troca de controle. Em um setor historicamente prejudicado por baixa transparência, más práticas fiscais e trabalhistas, ineficiência, desperdícios e atuação sem preocupações ambientais, a chancela do capital aberto facilitaria muito na hora de negociar com um eventual comprador ou sócio estratégico.

Assim, as cotações dessas empresas foram, desde o início, influenciadas não só pelos resultados, mas também pelas expectativas do mercado quanto a fusões e aquisições, que gerariam generosos prêmios de controle e permitiriam um ganho expressivo devido ao "tag-along", uma vez que a maioria das construtoras listou suas ações no Novo Mercado.

Esse movimento, que arrefeceu durante a crise, voltou com força. Diversas empresas viram suas ações subir devido aos crescentes rumores do mercado com relação a mudanças de controle.

A segunda questão é se as altas representam uma valorização. Como relembra um especialista ouvido pela coluna, as maiores altas de julho, de construtoras como Tenda e Abyara, não representam uma valorização, mas uma recuperação de preços. Na ponta do lápis, essas empresas apenas equipararam-se a seus valores contábeis de liquidação.

Isso ocorre porque, no auge da euforia, as construtoras adotaram uma estratégia que parecia imbatível, mas que tornou-se insustentável: adquiriram grandes lotes de terra para erguer edifícios comerciais e residenciais, imobilizando boa parte do capital levantado. Quando a crise travou o crédito e contraiu as vendas, esse dinheiro empatado tornou-se não um bônus, mas um ônus difícil de carregar.

Vale a pena apostar mais na recuperação das construtoras? A melhor resposta é mostrar os números.

Considerando-se as 20 ações mais líquidas do setor, a relação Preço/Lucro (P/L) das empresas no fim de junho era de 73, segundo o sistema de informações Economática. Ou seja, o investidor demoraria três gerações para recuperar seu dinheiro.

No fim de julho, porém, essa relação havia subido para 93. Os resultados das construtoras demorariam pouco menos de um século para devolver ao investidor o capital investido na compra de suas ações. Imóveis são tidos como um investimento de longo prazo, mas esse período é longo demais.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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