PORTFÓLIO-Com perfil do século 19, Bovespa sofre com commodities

A quaresma começou mais cedo no mercado. O último pregão da Bolsa de Valores de São Paulo está registrando uma queda de cerca de 2 por cento, e o índice Bovespa caminha para os níveis do início do ano, pré-euforia de janeiro. A queda é justificada. Os investidores estão recalculando quanto valem as ações tendo em vista as perspectivas ruins para os setores de commodities, que são os mais importantes no mercado. E a má notícia é que não há, pelo menos a curto prazo, sinais de que essa tendência será revertida. O caso da Vale é um bom exemplo. A mineradora divulgou, na noite da quinta-feira, um lucro líquido de 21,3 bilhões de reais referente a 2008. Apesar da crise, o resultado foi pouco mais de 6 por cento maior do que o de 2007. No quarto trimestre, o lucro superou 10 bilhões de reais, um crescimento de 137 por cento em relação ao mesmo período de 2007. Mesmo com esses resultados, divulgados após o encerramento dos negócios, as ações da Vale recuavam cerca de 6 por cento a menos de uma hora do fechamento do pregão desta sexta-feira. Ao anunciar os resultados, Roger Agnelli, presidente da mineradora, disse tudo o que o mercado não queria ouvir. Ele disse que a Vale vai buscar empresas de cobre, carvão e fertilizantes para comprar. "O futuro nesses setores será muito bom no longo prazo", disse Agnelli. Os analistas interpretaram mal essa declaração. "Isso quer dizer que as perspectivas para o minério de ferro e o níquel, os principais negócios da Vale hoje, não são tão boas", diz um analista de ações. O resultado da Vale foi incomparavelmente melhor que uma de suas principais concorrentes, a mineradora Anglo American. A empresa anunciou, nesta sexta-feira, que seu lucro de 2008 encolheu quase 30 por cento. Como resultado da perspectiva econômica ruim, a mineradora anunciou que não vai pagar dividendos, vai interromper o programa de recompra de ações e, pior, vai cortar 19 mil empregos. A Bolsa brasileira tem uma característica muito particular: ela está no século 19. Não em termos de tecnologia e sistemas ou legislação, mas quando se olham os setores mais relevantes no mercado. Apesar de o Brasil ser um país com setores industrial e de serviços fortes e pujantes, eles estão pouco representados na Bolsa. O grosso dos negócios ainda depende de matérias-primas básicas, como o minério da Vale ou petróleo da Petrobras , ou insumos como o aço da Gerdau, CSN e Usiminas. Não há, por exemplo, uma grande empresa eletroeletrônica, uma grande empresa de informática ou uma grande empresa de saúde. Essa característica torna o índice bovespa um ativo financeiro violentamente pró-cíclico, subindo mais do que a média quando a economia está aquecida e caindo mais do que a média quando a economia esfria. E é exatamente o que está acontecendo agora. Os prognósticos para a economia são ruins. Os analistas mais otimistas do setor privado já reduziram as perspectivas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para 1 por cento em 2009, metade dos previsto no fim de 2008. Grandes demissões, como os quatro mil funcionários dispensados pela Embraer na quinta-feira, também contribuem para piorar o humor do mercado. O que fazer? A Bolsa deverá apresentar boas oportunidades de compra nos próximos meses, quando o Ibovespa estiver rondando os 35 mil pontos. Nesse momento será promissor comprar ações de empresas com menores características cíclicas, como bancos, varejo e alimentos, e esperar a recuperação dos preços prevista para o fim de 2010. Ou, se o apetite por risco estiver baixo, aproveitar as taxas de juros ainda elevadas --afinal, os prognósticos para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) são de uma redução de 0,75 até um ponto percentual nas taxas de juros. * O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade. (Edição de Alexandre Caverni)

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