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PORTFÓLIO-O novo status dos países emergentes

Há dois meses completaram-se 20 anos do Plano Brady, elaborado pelo Tesouro norte-americano para solucionar o problema das dívidas de países emergentes. Poucos investidores perceberam a efeméride, mas o mercado comemorou trazendo os títulos de países emergentes de volta à baila.

CLÁUDIO GRADILONE, REUTERS

29 de maio de 2009 | 20h04

A diferença é que, desta vez, não por seus defeitos, mas por suas qualidades.

Nos anos 1980, os títulos que surgiram a partir do Plano Brady eram negociados com deságios elevados, que chegavam a 90 por cento do valor de face em alguns casos. Tanto desprestígio para um papel garantido pelo Tesouro dos Estados Unidos explicava-se por sua origem, pois eles nasceram para salvar bancos de países inadimplentes.

O primeiro plano Brady, que deriva seu nome do ex-secretário do Tesouro Nicholas Brady, surgiu para sanear o sistema financeiro norte-americano. No início dos anos 1980, Paul Volcker, presidente do Federal Reserve, atacou a inflação dos Estados Unidos com uma forte elevação dos juros, que chegaram a 21 por cento ao ano.

Esse movimento tornou impraticável a rolagem de dívidas contraídas por países emergentes no regime de taxas flutuantes. No dia 13 de agosto de 1982, numa cabalística sexta-feira, o México anunciou que não pagaria sua dívida externa, o que foi o estopim de um movimento amplo de inadimplências e moratórias de países emergentes.

As negociações entre credores e devedores se arrastaram por toda a década de 1980. Além de travar o acesso dos países endividados ao crédito, a crise deixou os bancos com vastos estoques de empréstimos a receber. Levou anos, mas no fim da década os credores já se convenciam que boa parte da dívida era simplesmente impagável.

A solução imaginada pelo mercado e que ganhou o aval de Nicholas Brady foi eficiente e elegante. Os países emergentes precisavam de um avalista, que seria o Tesouro norte-americano. Washington emitiria títulos para garantir as dívidas. Seriam papéis longos, de 20 ou 30 anos, que não pagariam juros, chamados "zero coupon bonds".

Por serem longos e não pagarem juros, eles eram negociados com um elevado desconto na emissão. Assim, os países endividados poderiam usar pouco dinheiro para comprar grandes quantidades dessas garantias, que lastreariam papéis novos, igualmente longos e de melhor perfil de risco.

Essa dívida nova ficou conhecida como bônus Brady, que foram usados para quitar as dívidas dos bancos e garantir a normalização das relações financeiras internacionais de cerca de 16 países emergentes. Ao todo foram emitidos 160 bilhões de dólares nesses papéis.

Tanto volume acabou gerando um mercado bastante ativo. Em 1994, segundo a Emerging Markets Traders Association (EMTA), os negócios com bônus Brady foram de 1,68 trilhão de dólares, 61 por cento do total de negócios com títulos de países emergentes.

Além de sanear as contas, esses bônus acabaram por criar todo um mercado para dívida de países emergentes. Com a normalização das relações, os títulos foram gradativamente recomprados pelos países emissores e substituídos por papéis normais, sem os problemas de origem dos bônus Brady.

São esses novos papéis, títulos soberanos e privados de países emergentes, que estão recebendo toda a atenção dos investidores. Isso vale para países bem comportados como o Brasil, e para outros nem tanto como a Argentina. As cotações de uns e de outros vêm subindo, devido às perspectivas de recuperação econômica mais rápida dos emergentes.

Os prêmios de risco pagos por esses papéis, que são a diferença entre a remuneração e o rendimento dos títulos do Tesouro norte-americano de prazo equivalente, encolheram em cerca de 4,6 pontos percentuais nos últimos três meses, depois de terem se ampliado muito com o aprofundamento da crise a partir de outubro do ano passado.

Apesar de serem títulos bastante voláteis, os papéis de países emergentes deverão manter um desempenho superior à média do mercado nos próximos meses. Seus emissores têm economias menores, mais simples e com maior potencial de recuperação, e suas taxas são mais atraentes que as dos principais títulos americanos e europeus.

Por isso, o dinheiro novo que chegar ao mercado, fruto de pacotes de ajuda governamental ou gerado pelos efeitos desses pacotes deverá buscar os juros mais atraentes do títulos de países emergentes.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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