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E-Investidor: qual o melhor investimento para 2020?

Portfólio-Os lucros sumiram, viva as ações de viúva

Na próxima terça-feira, dia 31 de março, encerra-se o prazo legal para que as companhias abertas divulguem seus resultados de 2008 ao mercado. Muitas companhias abertas ainda não informaram como foi o desempenho dos seus negócios, mas, à luz dos números já divulgados, é possível concluir que o quarto trimestre de 2008 ficará na história como um dos períodos mais sombrios na história do Brasil corporativo.

CLÁUDIO GRADILONE, REUTERS

27 de março de 2009 | 19h41

Pior: os efeitos da crise ainda serão sentidos ao longo de todo o ano de 2009.

Um levantamento a partir do sistema de informações da empresa Economática, especializada em informações sobre empresas listadas em bolsa, indicou que 179 companhias cujas ações são listadas em bolsa e ainda estão ativas já divulgaram seus números. O resultado é desanimador. Apesar de 2008 ser um ano promissor, o impacto da crise financeira foi pesado.

Na média, o faturamento das empresas aumentou saudáveis 51 por cento em 2008 quando comparado a 2007. Os lucros, no entanto, encolheram à metade, caindo 46 por cento em 2008 em relação ao mesmo período do ano anterior.

Um resultado tão ruim pode ser explicado por dois motivos. O primeiro é específico das empresas pesadamente intensivas em capital, como mineradoras, siderúrgicas e empresas de papel e celulose, por exemplo. Nesses casos, a margem de manobra dos administradores é muito restrita, e não há como reduzir muito o ritmo de atividade, que consome mão de obra, energia e insumos, além dos gastos com depreciação.

Não por acaso, os maiores casos de redução dos lucros foram de companhias aéreas como Gol, empresas de petróleo e petroquímicas como OGX, Braskem e Quattor e companhias de papel como Suzano e Klabin.

O segundo motivo para os prejuízos foi a pesada turbulência financeira, que afetou não apenas o ritmo da economia como também os resultados financeiros das empresas.

A abrupta retração do crédito bancário a partir do segundo semestre estancou as atividades das empresas mais alavancadas, e a forte volatilidade do câmbio provocou fortes perdas não apenas nas carteiras de comércio exterior, como também devido a apostas especulativas erradas com o dólar. Os casos mais evidentes são Sadia e Aracruz, que perderam bilhões no mercado futuro de câmbio.

Essa é uma descrição do passado. O que esperar do futuro?

Os prognósticos não são dos melhores. O pior momento da crise já passou, e não se esperam mais falências de bancos, especialmente depois da promulgação do pacote de ajuda do governo norte-americano de mais de 1 trilhão de dólares. Mesmo assim, o rescaldo dessa turbulência ainda vai demorar para acabar.

A maioria dos empresários têm notado uma dura redução de suas margens no primeiro trimestre de 2009, acompanhada de um encolhimento das encomendas como um todo. As empresas vendem menos, e ganham menos com as vendas.

O setor siderúrgico é um bom exemplo. As siderúrgicas brasileiras têm tido de lidar com dois problemas. Um deles é a concorrência desesperada de empresas européias, especialmente siderúrgicas do Leste Europeu. Premidas pelo desaparecimento de linhas de crédito em seus países de origem, essas companhias precisam literalmente torrar estoques a qualquer preço para manterem as caldeiras acesas. O resultado é uma sangrenta guerra de preços que fez as margens encolherem.

O segundo problema é que os principais mercados consumidores --construção civil e indústria automobilística-- devem apresentar um 2009 muito inferior a 2008.

No primeiro semestre do ano passado, a perspectiva mundial era de que faltaria aço no mundo. Hoje, a perspectiva é que uma em cada cinco ou, na pior das hipóteses, uma em cada quatro empresas siderúrgicas terá de reduzir gastos ou fechar as portas devido ao desaparecimento do mercado --cabe aqui lembrar que esse é um panorama global; as empresas brasileiras não correm esse risco, pelo menos não as listadas em bolsa.

Nesse cenário, a principal recomendação para o investidor não é cautela, mas desapego. Haverá pouquíssimas oportunidades de ganhos extraordinários na Bolsa de Valores ao longo do ano, excetuando-se eventos menos previsíveis e não-recorrentes, como fusões e aquisições de companhias.

Nesse cenário, o melhor negócio é procurar empresas com poucas dívidas e um fluxo de caixa razoável e constante, que ofereçam dividendos previsíveis, as velhas "ações de viúva", que poderão render mais que os decrescentes juros de mercado.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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