PORTFÓLIO-Só o mercado desacelera a queda do dólar

Durante muitos anos, a taxa de câmbio brasileira foi considerada tão estratégica que não podia ser definida por uma entidade imprevisível como o mercado.

CLÁUDIO GRADILONE, REUTERS

22 de maio de 2009 | 16h08

A relação entre o dólar e a moeda da vez (foram sete na história recente) sempre foi determinada pelo governo. Esse cenário é passado. A partir de agora, o ajuste será pelo mercado.

O comportamento do dólar nos últimos 12 meses é um bom exemplo. Em fins de maio de 2008, a moeda norte-americana atingiu seu menor valor histórico desde a desvalorização de 1999, chegando a 1,55 reais.

Cinco meses de crise depois, o dólar era negociado a 2,50 reais, numa das maiores oscilações cambiais do mundo.

A violenta oscilação do dólar causou não só ameaças de volta da inflação, mas também traumas que vergaram ícones do capitalismo brasileiro como Sadia e Aracruz.

Ambas foram vendidas a seus principais concorrentes devido aos prejuízos insuportáveis provocados por suas operações no mercado futuro de dólar.

Agora, maio de 2009, o dólar ameaça romper o patamar "psicológico" de 2 reais. O retrocesso tão rápido das cotações deve-se à lei da oferta e da demanda. Estão chegando dólares aos borbotões, tanto na renda fixa quanto na renda variável.

Segundo dados do Banco Central, as aplicações de renda fixa receberam cerca de 2 bilhões de dólares nos dez primeiros dias de maio, devido aos elevados juros brasileiros. Enquanto os países desenvolvidos praticam taxas próximas de zero, por aqui os papéis públicos pagam dois irresistíveis dígitos.

No acumulado do ano, a Bolsa de Valores registrou a entrada de quase 7 bilhões de dólares, sem falar nos números menos visíveis de investimentos diretos de empresas internacionais no Brasil.

Os bons prognósticos para as empresas brasileiras têm atraído a atenção dos investidores internacionais. E tudo indica que o dólar deve continuar caindo.

O real vai continuar se apreciando em relação à moeda norte-americana até o ingresso de dólares ser detido pela perda da atratividade dos investimentos brasileiros no mercado internacional. Isso ocorrerá pela baixa de juros, pela queda das exportações e pela perda de fôlego das ações.

Analisando separadamente cada um desses casos. A trajetória da taxa de juros é visivelmente declinante, mas esse é um declínio travado pelas condições estruturais da economia brasileira.

Desequilíbrio das contas públicas, oligopólios e entraves jurídicos e burocráticos impedem a queda abrupta da inflação.

Não por acaso, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, já alertou, com a linguagem cifrada dos banqueiros centrais, contra um aquecimento inesperado da demanda em abril e maio, declaração que provocou corcoveios na curva de juros nos últimos dois dias. Marginalmente, essa mudança vai reduzir a atratividade da renda fixa.

As ações deverão perder competitividade não pelo fato de os prognósticos das empresas serem ruins, mas simplesmente pelo fato de as boas perspectivas já estarem adequadamente precificadas nas cotações. Assim, os investidores internacionais terão menos incentivo para comprar ações brasileiras.

Finalmente, as exportações deverão retroceder, reduzindo os saldos da balança comercial. Já em abril, o Ministério do Desenvolvimento projetava uma queda de cerca de 20 por cento nas exportações brasileiras, que deverão somar 160 bilhões de dólares em 2009.

Claro que uma taxa de câmbio inferior a 2 reais dispara, imediatamente, um alarme do setor exportador, que começa recitar o velho poema de pedir alongamento de prazos de empréstimos, alívio fiscal e juros subsidiados.

Mesmo assim, as medidas serão sempre paliativas, pois os exportadores terão o duplo desafio de lidar com um câmbio desfavorável e com um mercado consumidor desaquecido e vão vender muito menos do que venderam nos últimos anos.

A conclusão é que não há, no cenário nacional, indicações de uma valorização do dólar no curto prazo. As medidas paliativas têm alcance limitado, que podem, no máximo, desacelerar a apreciação do real.

O dólar vai continuar caindo, e não há nada que Brasília possa fazer a respeito no curto prazo.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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