Porto Velho já vive período ‘pós-usinas’

Com o fim das obras de Santo Antônio e Jirau, cresce número de desempregados; preços de imóveis, aluguéis e outros serviços já começaram a cair

, O Estado de S. Paulo

14 de junho de 2014 | 18h23

Quetila Ruiz, especial para O Estado

Porto Velho, capital do Estado de Rondônia, já começa a viver o período do “pós-usinas” com a finalização das obras das hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira. Já é notável o aumento no número de desempregados na cidade, a queda no preço dos imóveis e dos aluguéis, entre outros serviços. 

As usinas começaram a ser construídas no segundo semestre de 2008 e atraíram milhares de pessoas de várias partes do País. Até 2010, as estatísticas mostram que a população de Porto Velho já havia crescido 12,5%. Cerca de 40 mil trabalhadores vieram para a capital atrás das ofertas de empregos na construção civil, o que provocou o avanço no preço dos aluguéis e dos imóveis à venda. Diárias de hotéis e o custo de vida da população também aumentaram no período.

Mas esse quadro já está mudando. Com o fim das obras, a maioria dos trabalhadores está migrando para outros Estados - alguns para Altamira em busca de emprego na Hidrelétrica de Belo Monte. A população teme que a construção das hidrelétricas repita outros ciclos de crescimento, como o da borracha e do garimpo, que não deixaram nenhum legado para a região. 

Dados do Sistema Nacional de Emprego (Sine) de Porto Velho apontam que a construção civil é o principal fator de queda na oferta de emprego. De abril de 2013 até abril deste ano, 61.600 vagas foram criadas, mas o número de desempregados foi maior, 71 mil. “O desemprego hoje é decorrente da conclusão das usinas. Isso também ocorreu em Foz do Iguaçu (PR) na época da construção da Usina de Itaipu, e aqui não seria diferente”, diz Antônio Geraldo Affonso, secretário de Desenvolvimento Econômico (Semdestur), responsável pela gestão do Sine municipal.

A fase alta no ritmo dos negócios na cidade também já se foi. “Os preços dos imóveis não estão mais como estavam no início das construções. Os valores estão menores, ficando estabilizados. Um imóvel que eu alugava por R$ 5 mil hoje estou alugando pela metade do preço”, relatou Fernando Casal, proprietário de imobiliária e presidente licenciado do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de Rondônia (Creci/RO).

Assim como quem vende ou aluga imóvel, donos de hotéis já sentem o efeito pós-usinas. Os preços das diárias de alguns deles têm sido revisados para um valor menor. “Antes eu tinha vários quartos alugados para os próprios consórcios, para os trabalhadores. Hoje tenho vagas sobrando. Esse cenário não acontece só comigo, vários outros hotéis já estão com vagas sobrando, coisa que a um ano atrás seria impossível”, relatou Isaac Oliveira, proprietário de um hotel no centro da capital.

Criminalidade. O índice de criminalidade também aumentou bastante durante as obras. De 2008 a 2010, o número de estupros em Rondônia cresceu 76,5%. A quantidade de crianças e adolescentes vítimas de abuso ou exploração sexual subiu 18% no período e o número de homicídios dolosos aumentou 44%. Com os altos índices na criminalidade, o Poder Público iniciou projetos de melhorias na segurança.

O secretário de Segurança, Defesa e Cidadania, Antônio Carlos dos Reis, afirmou que nos últimos três anos houve avanços em todas as áreas da segurança no Estado de Rondônia. “Na área de tecnologia, houve melhora nos equipamentos para a atuação policial. Também tivemos avanços nas questões das investigações. Temos, hoje, um bom índice de resolução de crimes.” Nos primeiros meses de 2014, houve um aumento no número de homicídios, assaltos e furtos. 

Nova Mutum. Para abrigar os engenheiros e encarregados da Usina de Jirau, e os ribeirinhos removidos pelo alagamento da Velha Mutum, o consórcio Energia Sustentável construiu uma cidade, Nova Mutum. Mas muitas das famílias que foram transferidas para o local não se adaptaram com a nova realidade e procuraram outros locais para morar. Alguns se uniram e foram morar perto do igarapé que leva o nome de Jirau, outros foram morar em Jacy-Paraná ou Porto Velho.

A vendedora autônoma Maria das Graças não se adaptou ao local. “Não tinha nada lá. Era um monte de casa no meio do nada. Me mudei para Jacy-Paraná.” Ela conta que muitos vizinhos ficaram por lá e se acostumaram com a nova realidade da cidade. “Eles não sabem como vai ficar depois que acabar de vez a construção, mas já está todo mundo acomodado lá”, relatou.

Mesmo com vários ribeirinhos e funcionários da usina morando em Nova Mutum, o futuro das mais de 1.500 casas do local é preocupante. A previsão de entrega total das obras de Jirau é de 2016, mas o empreendimento já começou a reduzir de forma significativa a quantidade de trabalhadores na obra. Até agora, nenhuma indústria ou atividade de geração de renda independente da construção da usina foi criada no local para tentar amenizar os efeitos negativos com o fim da renda proporcionada com o projeto.

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