Portugal, em busca de caminhos

Opção de portugueses por estradas sem pedágio é apenas mais um retrato da crise 

Jamil Chade, enviado especial de O Estado de S.Paulo,

17 de maio de 2014 | 12h41

FARO, PORTUGAL - Viadutos abandonados, trechos de estradas onde nunca um carro passou e até a estrutura de pedágios entregue ao mato. A crise que Portugal viveu desde 2008 obrigou o Estado a abandonar dezenas de obras já iniciadas. Para algumas faltou dinheiro. Em outras, as empresas que as construíam quebraram.

Enquanto isso, os cidadãos portugueses optaram por abandonar as estradas com pedágios e passaram a circular pelas velhas vias secundárias, símbolo de um país que redescobriu a pobreza e foi obrigado a ajustar o cinto, mesmo que isso signifique buscar literalmente novos caminhos.

Agora, o governo tenta recuperar alguns dos projetos. Mas novos estudos revelam que a expansão da rede de estradas não poderá ser como havia sido planejado antes da crise. O motivo: o freio na economia portuguesa também reduziu de forma dramática o número de carros vendidos e de famílias dispostas a viajar. Algumas das estradas iniciadas, portanto, jamais serão concluídas.

A nova estrada que ligaria a cidade do Faro à cidade de Olhão, na região sul de Portugal, por exemplo, corre o sério risco de ser uma dessas obras inacabadas que ficarão abandonadas por um bom tempo. Ao passar pela região, a reportagem do Estado constatou que nem sequer existem planos para o reinício das obras.

As pontes que pararam no meio do caminho se transformaram em retrato de um país sem direção e que acumula dívidas que não tinha como pagar para construir as estradas que projetava. Dados oficiais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelaram que já antes da crise Portugal tinha a maior rede rodoviária por habitante, com cerca de 2,8 mil quilômetros de autoestradas. O plano era a rede chegar em 2025 com 50% a mais.

Mas um levantamento feito pela empresa Estradas de Portugal em novembro de 2013 constatou que o fluxo de automóveis por algumas das estradas, depois de 2010, ficou até 40% abaixo das previsões feitas em 2000, diante da queda de circulação.

Para Manuel Gonçalves, diretor para a região do Algarve da Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas e Serviços, a redução da renda da população também teve repercussão direta no uso de estradas, principalmente aquelas com pedágios. No trecho entre Faro e Olhão, milhares de motoristas optam todos os dias pelas vias sem pedágio, deixando as estradas pagas às moscas.

Segundo a Associação Europeia das Concessionárias de Autoestradas com Pedágios, Portugal registrou apenas em 2012 uma queda de 15% na circulação de carros por estradas pagas. Um índice parecido foi registrado na Grécia e Espanha, com 13% e 9,7% de queda, respectivamente.

No Algarve e em todo o país, estradas que eram gratuitas passaram a ser pagas. E os carros desapareceram, inclusive os das autoridades. Na A-22, que percorre o sul do país, o fluxo de veículos caiu 50% desde 2011. Enquanto isso, a estrada secundária - e sem pedágios - que passa quase paralela a ela vive entupida.

A estrada é um reflexo do que vive todo o país no setor da construção. "Em 2007, tínhamos 700 mil pessoas trabalhando no setor", conta Gonçalves. Hoje, esse número não passaria de 300 mil. Na região do Algarve, a crise representou um verdadeiro tsunami no setor da construção. Em 2007, a associação tinha 2,5 mil empresas filiadas. Hoje, elas não passam de 500.

No total, Portugal registrou a falência de 26 mil empresas do setor da construção entre 2010 e 2013. Para a Associação Portuguesa dos Comerciantes de Materiais de Construção (APCMC), o setor voltou ao mesmos níveis de 1993. Já a Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas e Serviços alertou que, em 2012, o consumo de cimento no país chegou a um patamar mínimo inédito.

Recuperação. Mas, em abril de 2014, pela primeira vez em quatro anos o setor anunciou haver indícios de que a crise acabou. O número de falências caiu 17% no primeiro trimestre e o governo anunciou a retomada de alguns projetos. O setor de construção civil comemora o fato de que, neste ano, a previsão é de uma contração de "apenas" 4,5%. Em 2013, o encolhimento foi de 15%.

O Estado colocou o setor da construção como uma de suas prioridades para incentivar a recuperação da economia. Mas a ordem agora é renovar o que já existe e recuperar áreas abandonadas, e não construir novas residências. A perspectiva do setor é de que 70 mil postos de trabalho poderão ser recuperados nos próximos anos. Mas os níveis ficarão muito abaixo do patamar de 2007.

"Não voltaremos a ser o que éramos antes. Mas o que éramos antes era fantasia, e não realidade", insistiu Gonçalves. Segundo ele, a culpa pela expansão desenfreada foi dos bancos que deram crédito a "qualquer um".

A União Europeia, que desde os anos 80 havia injetado bilhões de euros na economia de Portugal financiando milhares de quilômetros de estradas, avisou em abril que não dará mais um centavo sequer até 2020 para a rede viária portuguesa.

Para os representantes do setor, a crise provocou uma transformação na economia. "Houve uma seleção natural", diz Gonçalves . "Havia muito especulador. Agora, ficaram apenas aqueles que têm projetos reais e com chances de serem rentáveis."

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