Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

‘Portugal pode ajudar na venda do C-390'

Ministro da Defesa português diz que país está disposto a fazer a ponte entre a Embraer e países da Otan

Entrevista com

João Gomes Cravinho

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2020 | 05h00

Após ser o primeiro país a comprar o cargueiro militar C-390 Millenium, o maior avião já produzido pela Embraer, em um contrato de ¤ 827 milhões, Portugal deve fazer uma espécie de meio de campo para a venda da aeronave para os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). “Estamos disponíveis para contar a nossa experiência (com o C-390) para parceiros da Otan”, disse o ministro da Defesa português, João Gomes Cravinho, que esteve no Brasil na semana passada. 

Com a medida, umas das intenções do país é beneficiar a indústria local. O governo de Portugal é sócio da Embraer na OGMA, de manutenção de aeronaves, com 35% de fatia. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O governo português comprou cinco C-390 Millenium. Hoje o país tem quatro Hércules C-130, que estão com 40 anos de uso. Os cinco C-390 são suficientes para renovar a frota da Força Aérea Portuguesa?

Sim. Nesses assuntos, temos de encontrar um equilíbrio entre o que é nosso desejo e o que é razoável. Portugal está fazendo o maior investimento em defesa desde a volta da democracia. A lei de programação militar de 2019, que prevê a compra de equipamentos em 12 anos, nos dá cerca de ¤ 4,5 bilhões. O C-390 representa ¤ 827 milhões.

Portugal vem se recuperando, desde 2014, de uma crise profunda. Qual era a situação dos equipamentos militares após a crise?

Houve alguma degradação na medida em que foi necessário reduzir o investimento na área militar, como em outras áreas. Estamos com a economia crescendo há cinco anos e desemprego baixo. Há também um contexto internacional que nos impele a fazer investimentos em defesa. Uma volatilidade internacional e um alto nível de insegurança: Portugal está próximo do Oriente Médio, também temos militares no Afeganistão e em vários países africanos. Olhando para o contexto geoestratégico e para a natureza dos nossos equipamentos, estávamos em uma fase em que precisávamos fazer este investimento.

Em visita à fábrica da Embraer, o sr. falou da necessidade de Portugal de treinar pilotos militares. Isso pode significar também uma necessidade de adquirir Super Tucanos (aviões da Embraer usados em treinamentos)?

Estudamos isso. Vamos montar uma escola de pilotos internacional com parceiros privados e com a Força Aérea Portuguesa. Portanto, serão os parceiros privados que decidirão o investimento. O Super Tucano é conhecido pelas suas qualidades como avião de formação e estamos a olhar para ele.

Quantos aviões de treinamento vocês precisariam?

Há uma necessidade sentida por vários países europeus. Individualmente, um país como Portugal, Bélgica, Dinamarca ou Holanda não tem escala para fazer uma escola de formação de pilotos para sua força aérea. Nossa ideia é nos unirmos e evitar que pilotos tenham de atravessar o Atlântico e fazer a formação nos EUA. Esse projeto está adiantado e seria baseado em Beja, uma cidade no sul de Portugal onde o céu é azul 300 dias por ano, o que é muito importante para a formação, e o espaço aéreo é descongestionado.

Portugal se beneficia da venda do C-390 porque produz peças usadas na fabricação do avião. O país pode promover o modelo entre os países da União Europeia e da Otan?

O C-390 é uma história de sucesso e de parceria luso-brasileira. Ele foi desenvolvido pela Embraer, mas com uma contribuição significativa da engenharia portuguesa e de produção em dois locais de Portugal. Seremos também o centro para qualquer venda para países da OTAN. Portanto, qualquer venda para países terceiros vai beneficiar o país. Primeiro porque as peças serão fabricadas em Portugal e a engenharia portuguesa continuará ativa. E quando as vendas forem para países da OTAN, as configurações específicas da OTAN serão feitas em Portugal.

O país trabalhará na venda desses aviões para países da Otan?

Sim. Não temos isso formalizado, mas é natural. Estamos disponíveis par contar a nossa experiência (com o C-390) para parceiros da OTAN. Contar qual tem sido a experiência da nossa força aérea no trabalho com a Embraer. Fazemos isso com gosto e interesse próprio, porque a Embraer também tem uma bandeirinha portuguesa no C-390.

Sendo Portugal parceiro da Embraer, como o governo viu a venda de 80% da divisão comercial da empresa para a Boeing?

Estamos falando com a Boeing agora pela primeira vez. Para nós, é uma oportunidade nova e interessante. Digamos que Portugal não estava no radar da Boeing. A Boeing não tem plantas na Europa. E, de repente a Boeing passa a ser dona de 80% de duas fábricas em Évora. Isso para nós é uma oportunidade interessante. 

O Estado português é dono de 35% da OGMA, empresa de manutenção de aeronaves em que a Embraer tem 65% de participação. O governo português anterior falava da possibilidade de a companhia também fabricar aeronaves. Esse projeto pode ser retomado?

Há um consenso que a OGMA pode e deve aumentar significativamente seu trabalho e seu faturamento. Hoje a OGMA fatura algo como ¤ 200 milhões (R$ 945 milhões) por ano. Estamos satisfeitos porque todos os anos dá lucro, mas pode e deve ser uma empresa bem maior. Não é esse o momento de desvendar novidades, mas acredito que em 2020 a OGMA vai dar um salto grande.

Como ela poderia incrementar esse faturamento?

Com novas linhas de trabalho.

Em 2010, se falava de a OTAN ter um braço no Atlântico Sul. À época, o então ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim, se posicionou contra. Houve alguma retomada nesse assunto?

Não há nenhuma conversa para o Atlântico Sul. Há conversas sobre projeção para a região do Mediterrâneo e sobre nossa preocupação comum em relação ao que acontece na margem sul do Mediterrâneo.

E o projeto para defesa do Atlântico?

Isso é um dos elementos da minha conversa com o ministro da Defesa (Fernando Azevedo e Silva). Estamos a desenvolver, e não tem nada a ver com sua pergunta anterior, um centro que provavelmente será chamado Centro Atlântico, para promover uma plataforma de cooperação entre as marinhas do Atlântico. Sobretudo tendo em vista alguma vulnerabilidade que se tem manifestado nos últimos anos. Até recentemente, a pirataria no Atlântico era uma proporção pequena da pirataria internacional. Mas, em 2019, mais de 60% da pirataria mundial foi no Golfo da Guiné. Muito do comércio dos nossos países passa pelo Golfo da Guiné e portanto há uma preocupação comum em criar condições para que haja estabilidade e controle sobre essa parte do Atlântico. O Brasil pode dar uma contribuição muito interessante nesse aspecto. Estamos a falar de um centro que é multinacional, não é vinculado à OTAN, embora possa receber inputs da Otan, da União Europeia e da União Africana.

Qual seria a participação do Brasil?

Estamos a falar de partilha de conhecimento situacional, isto é, partilha de informação. 




 

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