Portugal Telecom fecha acordo para comprar participação na Oi

Grupo português deve pagar cerca de 3,7 bilhões por uma fatia de 23% da empresa brasileira; negócio deve ser oficializado hoje

Renato Cruz, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2010 | 00h00

A "supertele nacional" está prestes a se tornar luso-brasileira. A Portugal Telecom fechou um acordo para comprar uma participação de 23% na brasileira Oi por aproximadamente 3,75 bilhões. Segundo fontes de mercado, o negócio, que tem o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deve ser oficializado hoje, se tudo correr bem.

A venda ocorre depois de o governo ter adotado um discurso nacionalista para mudar a legislação e permitir que a Oi comprasse a Brasil Telecom, em 2008. Os bancos estatais chegaram a colocar R$ 6,9 bilhões na operação, para proteger a operadora da concorrência dos espanhóis da Telefónica e dos mexicanos da América Móvil, dona da Embratel e da Claro. Menos de dois anos depois, a empresa já começa a se desnacionalizar.  

 

Injeção de recursos. Investimento na Oi chega num momento em que a empresa enfrenta uma situação delicada, com queda de 42% no valor de mercado      

 

O presidente do Banco Espírito Santo (BES), Ricardo Salgado, estava ontem no Rio de Janeiro para finalizar o acordo. O BES é o maior acionista individual da PT, com 7,99%. O conselho de administração da PT se reúne hoje em Lisboa, e deve avaliar a compra da participação na Oi e a venda dos 30% que a empresa tem na Vivo para a Telefónica. Os dois movimentos devem ser simultâneos. A expectativa é que o acordo seja anunciado depois dessa reunião.

A Oi e a PT preferiram não comentar o assunto. A Telefónica chegou a oferecer 7,15 bilhões pelos 30% da PT na Vivo. Apesar de a oferta ter sido aprovada pela maioria dos acionistas da empresa, o governo português vetou a venda, usando sua golden share (ação com direitos especiais).

O primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, justificou que a presença no Brasil era estratégica para a PT e para o seu país. Depois disso, procurou articular com o governo brasileiro uma saída para a situação. O acordo com a Oi foi resultado dessa articulação política. Lula chegou a defender publicamente a permanência da operadora portuguesa no Brasil, em visita a Portugal em maio.

Ágio. O valor de mercado da Oi atingiu ontem R$ 13,47 bilhões, o que equivale a 5,86 bilhões. Dessa forma, a PT estaria pagando um ágio de 178% pela sua participação na Oi.

O investimento da PT chega num momento em que a Oi enfrenta uma situação difícil. Seu valor de mercado caiu 42% desde 24 de abril de 2008, um dia antes do anúncio da compra da Brasil Telecom, quando a empresa valia R$ 23,3 bilhões.

Com uma dívida líquida de R$ 21,3 bilhões no primeiro trimestre, a Oi foi obrigada a pisar no freio no que diz respeito aos seus investimentos. A companhia planeja investir de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões neste ano, comparados a uma estimativa de R$ 5 bilhões a R$ 6 bilhões em 2009.

A princípio, os controladores da Oi - Andrade Gutierrez e La Fonte (do empresário Carlos Jereissati) - ficaram receosos de ter de compartilhar o controle da companhia com novos sócios. Juntos, Andrade Gutierrez e La Fonte têm somente 38,65% do capital da Telemar Participações, dona da Oi, e só conseguem ter o controle da empresa porque sua fatia se soma aos 11,49% do Fundo Atlântico, dos funcionários da Oi. Os 49,86% restantes pertencem ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a fundos de pensão de estatais.

Com a intervenção do governo, conseguiram acertar uma maneira coordenada para que a PT entrasse no capital da empresa, sem colocar em risco a sua posição de controle.

A posição da Portugal Telecom, durante as negociações, era de que não se contentaria em ser um simples investidor. Mesmo minoritária, a empresa queria ter alguma influência na administração. O Brasil é essencial para a companhia, já que mais da metade de seu faturamento vem do País.

PARA ENTENDER

Telefónica quer integrar operações

A Telefónica uniu suas operações móveis brasileiras com as da PT no fim de 2002, para formar a maior operadora celular do País. Foi criada a Brasilcel, em que as empresas têm participações iguais, para controlar 60% da Vivo.

Os conflitos surgidos desse comando compartilhado surgiram logo em seguida, o que fez com que a Telefónica buscasse a compra da participação dos portugueses. Em maio deste ano, a empresa espanhola ofereceu 5,7 bilhões pela fatia dos portugueses na Vivo.

Uma campanha dos executivos portugueses com investidores internacionais levou os espanhóis a elevar a oferta por duas vezes, chegando a ? 7,15 bilhões. Segundo fontes do mercado, durante as negociações, que acabaram sem resultado, essa proposta chegou a 7,5 bilhões.

A Telefónica quer integrar a Vivo à Telesp, concessionária de telefonia fixa de São Paulo. Com isso, conseguiria se beneficiar de sinergias de 2,8 bilhões, conforme cálculos da própria empresa.

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