Noel Celis/AFP
Com a aproximação da China do posto de maior economia do mundo, o clima de confronto com os EUA – que começou com uma guerra comercial – tende a continuar Noel Celis/AFP

Pós-covid deve fortalecer poder da China na economia global

País lidera recuperação do PIB no mundo e pode ultrapassar os EUA já em 2028

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2020 | 22h00

RIO - A recessão global causada pela covid-19 tende a acelerar o deslocamento do dinamismo da economia mundial para a Ásia, onde, com a China à frente, um melhor controle da pandemia já começa a resultar numa retomada mais rápida e vigorosa do que em outras regiões. Além da China, Vietnã, Taiwan e Coreia do Sul são exemplos de países que terão desempenho econômico acima da média mundial, pelas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Esse movimento aponta para a continuidade das tensões comerciais entre China e Estados Unidos e para a manutenção da alta demanda chinesa por matérias-primas produzidas pelo Brasil, como soja, minério de ferro, celulose e carne. O crescimento de 4,9% do Produto Interno Bruto (PIB) chinês no terceiro trimestre, na comparação com igual período de 2019, reforçou esse cenário. A recuperação da China é marcada por medidas concentradas no crédito e no apoio às empresas, ao passo que a pandemia, segundo especialistas, parece contida.

Com isso, o FMI espera avanço de 1,9% na economia do país este ano, ante retração de 4,4% no PIB global. Como os EUA deverão registrar retração de 4,3%, a chegada da China ao posto de maior economia do mundo, ultrapassando a americana, poderá ocorrer em 2028, segundo estudo da agência de classificação de risco Austin Rating, feito a pedido do Broadcast/Estadão. A agência extrapolou as estimativas do Fundo até 2031.

Pelo estudo, a economia dos EUA, que em 1990 era 15 vezes maior que a chinesa, hoje equivale a apenas 1,4 vez o PIB da China. Quando se considera o câmbio por paridade do poder de compra (PPC), cálculo que leva em conta níveis de preços e o poder de compra na conversão de moedas, o PIB chinês já está acima do americano desde 2017.

E tudo indica que a retomada chinesa veio para ficar. Segundo Fabiana D’Atri, economista do Bradesco e diretora econômica do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), diversos dados da economia chinesa vêm surpreendendo de forma positiva nos últimos meses.

Em setembro, o destaque foi o início da recuperação do consumo, trajetória que parece ter se mantido este mês – na Golden Week, semana completa de feriados que ocorre todo ano em outubro no país, em torno de 600 milhões de chineses viajaram, conforme a agência de notícias oficial Xinhua.

Incentivos

O fato de a recuperação do consumo chinês só ter começado em setembro chama a atenção. No Ocidente, incluindo Brasil e EUA, o consumo e as vendas do varejo puxam a retomada. Na China, porém, a produção industrial, as exportações e os investimentos em infraestrutura e no mercado imobiliário vieram na frente. Para Fabiana, a opção do governo local por não adotar transferências de renda para mitigar a crise segue a tradição de sempre concentrar as medidas de estímulo no lado da oferta.

Além de seguir a tradição, essa opção tende a dar maior sustentabilidade à retomada da economia na China, lembra a economista do Bradesco. Isso porque os investimentos em infraestrutura tendem a manter a roda girando enquanto as obras são executadas. Já a recuperação do consumo será puxada por maior segurança das famílias em relação ao controle da pandemia e ao mercado de trabalho – no Ocidente, a retirada das transferências diretas poderá provocar um “soluço” no consumo.

Conforme as projeções do FMI e a análise de economistas, a recuperação de diversos países seguirá por 2021. De 2022 em diante, Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, prevê que a China retomará o ritmo de crescimento entre 5% e 6% ao ano, enquanto os EUA devem voltar ao patamar anual de crescimento em torno de 2%.

Com a aproximação da China do posto de maior economia do mundo, o clima de confronto com os EUA – que começou com uma guerra comercial – tende a continuar, pois o governo americano vê a ascensão chinesa como uma perda histórica de protagonismo, diz Agostini.

Eleições

Para Lia Vals, pesquisadora do Ibre/FGV, as tensões tendem a continuar mesmo se o presidente Donald Trump perder a eleição em novembro. “Os EUA, com a antiga hegemonia, veem a China como potência em ascensão que vai disputar espaço com eles, especialmente na questão da tecnologia, que é o grande ponto.” Na visão do ex-embaixador do Brasil em Pequim, Marcos Caramuru, membro do Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), mesmo com o maior dinamismo econômico, por enquanto o aumento da influência geopolítica da China se dá em âmbito regional, na Ásia.

A força da indústria chinesa, mesmo na crise, para fornecer a vários países medicamentos, testes e equipamentos de proteção, inaugurou uma “diplomacia da covid-19”, mas o resultado da estratégia no Ocidente é duvidoso. Para Caramuru, a imagem internacional do país está desgastada, com “fake news” sobre a covid-19 e certa “inveja” ocidental da retomada chinesa.

Goste-se ou não da China, o país é o maior parceiro comercial de cerca de 100 países, disse Caramuru. Assim, “racionalmente”, não há saída além de tentar negociar um bom relacionamento com os chineses. Para o Brasil, é importante ficar de fora dessa disputa, afirmou Lia. “Não somos nada nessa briga. Não temos nada a ganhar de um lado nem do outro.”

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'EUA e China têm de ser parceiros na rivalidade', diz Graham Allison

Sociólogo americano afirma que as duas potências caminham para um confronto inevitável

Entrevista com

Graham Allison, cientista político de Harvard e autor do livro 'A caminho da guerra'

Rodrigo Turrer, SÃO PAULO

24 de outubro de 2020 | 22h00

Sempre que uma potência hegemônica em determinada época percebe a ascensão de outra potência, pode provocar uma guerra que seria inevitável. Essa dinâmica é chamada de “a armadilha de Tucídides” pelo cientista político americano Graham Allison, e estaria acontecendo neste momento entre China e Estados Unidos

Allison usa as ideias do historiador grego, que há dois mil anos narrou o conflito entre Atenas e Esparta, para demonstrar como um conflito crescente entre as duas superpotências atuais é inevitável. 

Em A Caminho da Guerra, lançado pela editora Intrínseca, o professor de Harvard analisa o impacto do crescimento da potência asiática sobre os EUA e sobre a ordem mundial. Em entrevista ao Estadão, Allison, que foi consultor de Ronald Reagan, Bill Clinton e Barack Obama, diz que os países seguem em rota de colisão.

A era de domínio dos EUA pode estar chegando ao fim?

Para os americanos que cresceram em um mundo em que os EUA eram o número um – e isso seria todo cidadão desde aproximadamente 1870 – a ideia de que a China poderia derrubar os EUA como a maior economia do mundo é impensável. Muitos americanos imaginam que a primazia econômica é um direito inalienável, a ponto de se tornar parte de sua identidade nacional. A menos que os EUA se redefinam para se contentar com algo menos do que ser o “número 1”, os americanos cada vez mais acharão que a ascensão da China é perturbadora e intimidadora. Este não é apenas mais um caso de “competição entre as grandes potências”, mas uma rivalidade clássica da ‘armadilha de Tucídides”, em que cada um vê o outro como uma ameaça à sua identidade.

O sr. acha que os EUA perderam influência? 

Estamos vendo uma mudança tectônica do poder internacional. O PIB nacional cria a subestrutura do poder internacional. A participação dos EUA no PIB global diminuiu de metade em 1950 para um quarto no final da Guerra Fria em 1991; é um sétimo hoje e está em trajetória para ser um décimo em meados do século. Em 1991, a China mal aparecia em qualquer tabela de participação. Desde então, disparou para ultrapassar os EUA em PIB em paridade de poder de compra, ou PIB (PPP), uma medida que a Agência Central de Inteligência (CIA) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) consideram como o melhor parâmetro de comparar economias nacionais. O impacto dessa mudança é sentido em todas as dimensões, não apenas entre EUA e China, mas entre cada um deles e seus vizinhos. Quando a China entrou na Organização  Mundial do Comércio (OMC) em 2001, o principal parceiro comercial de cada grande nação asiática eram os EUA. Hoje, o parceiro comercial predominante de cada um é quem? China. Dito isso, seria prematuro excluir os EUA. Como o investidor mais bem-sucedido do mundo, Warren Buffet lembra repetidamente aos investidores: ninguém nunca ganhou dinheiro no longo prazo vendendo a descoberto os EUA.

Como evitar a armadilha?

Ao longo dos quatro anos desde que meu livro foi publicado tenho procurado maneiras de dar uma resposta positiva a essa pergunta – na verdade, para escapar da armadilha de Tucídides. Até o momento, identifiquei nove possíveis “vias de escape”. Aquela que estou agora explorando mais ativamente com acadêmicos chineses e americanos combina um antigo conceito chinês de “parceiros na rivalidade”, uma abordagem que o presidente John Kennedy adotou depois de ter sobrevivido à crise dos mísseis cubanos – ele pediu para que EUA e União Soviética coexistam em um “mundo seguro para a diversidade”. Parceiros na rivalidade descreve a relação que o imperador Song da China concordou em estabelecer com Liao, uma dinastia da Manchúria na fronteira norte da China, após concluir que seus exércitos não seriam capazes de derrotá-los. No Tratado de Chanyuan, de 1005, Song e Liao concordaram em competir agressivamente em algumas arenas e, simultaneamente, cooperar  em outras. O Tratado exigia que Song prestasse homenagem a Liao, que concordou em investir esses tributos no desenvolvimento econômico, científico e técnico da China. A questão hoje é se os estadistas americanos e chineses poderiam encontrar seu caminho para um análogo do século XXI da invenção de Song, que lhes permitiria competir e cooperar simultaneamente. A possibilidade de que as nações possam competir implacavelmente e cooperar intensamente, ao mesmo tempo, soa para os diplomatas como contradição. No mundo dos negócios, porém, é chamado de vida. Apple e Samsung oferecem um exemplo poderoso. Os dois são rivais implacáveis no mercado global de smartphones. Mas quem é o maior fornecedor de componentes da Apple para smartphones? Samsung.

O sr. acredita que China e EUA entraram numa nova guerra fria?

As relações entre  EUA e  China estão destinadas a piorar antes de piorar muito. A razão subjacente é a armadilha de Tucídides. Quando um poder crescente ameaça substituir um poder governante, alarmes soam: perigo extremo à frente. Tucídides explicou essa dinâmica no caso da ascensão de Atenas para rivalizar com Esparta na Grécia antiga. Nos séculos desde então, essa história se repetiu indefinidamente. Os últimos 500 anos viram 16 casos em que uma potência em ascensão ameaçou deslocar um grande poder governante e 12 terminaram em guerra. França contra os Habsburgos, França contra Reino Unido, China e Rússia contra Japão, Reino Unido contra Alemanha. Enquanto os americanos estão começando a descobrir que a China é um rival sério em todas as frentes, a analogia para este embate é cada vez mais a “Guerra Fria”. Mas as diferenças entre as rivalidades EUAe China e EUA e União Soviética são mais significativas do que as semelhanças. Compreender como essas grandes rivalidades são diferentes será fundamental na elaboração de uma estratégia dos EUA para o desafio da China. A possibilidade de uma guerra real entre os EUA e a China, por incrível que pareça, é maior do que a maioria das pessoas avalia.

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'A China é a locomotiva da recuperação global', diz Barry Eichengreen

Ao conseguir controlar a pandemia do novo coronavírus, a potência asiática vai se fortalecer ainda mais, ao contrário de EUA e Europa, diz Eichengreen

Entrevista com

Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia

Vinicius Neder, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2020 | 22h00

RIO - A forte retomada da economia da China, sinalizada nos dados do terceiro trimestre do Produto Interno Bruto (PIB) chinês, mostra que colocar o novo coronavírus sob controle, e mantê-lo assim, é o melhor para o crescimento econômico, segundo o economista americano Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley. “Puro e simples”, disse Eichengreen, em entrevista, por e-mail, ao Estadão

Para o economista, a constatação fica clara quando se compara o desempenho dos Estados Unidos com o da China. Nos EUA, assim como na maioria dos países ocidentais, foram adotados estímulos fiscais e monetários “massivos”, enquanto o controle da pandemia está entre os piores do mundo, com o maior número de casos e mortes. Na China, os estímulos foram mais “moderados”, mas o “controle da pandemia foi muito superior”, afirmou Eichengreen.

Com uma retomada rápida após o pior da crise da covid-19, a China amplia seu papel como motor do crescimento global?

A minha visão, desde o início, é de que o sucesso na recuperação do choque e do fechamento de atividades por causa da covid-19 dependerá, primeiro e mais do que tudo, de um controle efetivo do vírus. A China está entre os países que têm sido mais efetivos no “achatamento da curva” (de números de casos e mortes). E agora está adotando medidas focadas contra surtos localizados. Isso significa que a recuperação pode continuar de forma ininterrupta. Os EUA e a Europa, em contraste, estão experimentando segunda e terceira ondas, com novos fechamentos e renovada hesitação dos trabalhadores de voltarem para as fábricas e para os escritórios. Então, o papel da China como atual motor do crescimento mundial só vai se fortalecer.

O que o desempenho da China mostra sobre o impacto econômico da pandemia?

A comparação da China com os EUA deixa a resposta clara. Os EUA aplicaram estímulos fiscais e monetários massivos, mas se saíram mal no controle da pandemia, enquanto os estímulos fiscal e monetário da China foram mais moderados, mas o seu controle da pandemia foi muito superior. A comparação deixa claro o que importa mais.

A China vai chegar ao posto de maior economia do mundo mais rapidamente por causa da pandemia?

Esse processo da China ultrapassar os EUA como maior economia do mundo estava a caminho muito antes da pandemia. A população da China é mais de três vezes maior (do que a dos EUA). À medida que a China se aproxima em termos de renda per capita, ainda que de forma incompleta, sua economia fica maior no agregado. Esperaria que a China crescesse duas vezes mais rapidamente do que os EUA em termos per capita no futuro possível de prever, e isso já era esperado antes da pandemia. Isso é o fundamental por trás dessa “troca de posições” (entre China e EUA). A covid-19 apenas acelera uma tendência que já estava a caminho.

O crescimento mais rápido da China é bom para a economia mundial?

Economistas falam do “efeito locomotiva”, e a China é claramente a locomotiva da atual recuperação. À medida que ela se recupera, vai sugar mais importações de matérias-primas do resto do mundo, incluindo a soja do Brasil. Um crescimento chinês mais rápido tem certamente um saldo positivo para a economia mundial.

O Brasil pode se beneficiar mais do que a média do avanço da “locomotiva”?

Não estou certo sobre isso. Um crescimento chinês mais rápido é bom para as exportações de soja do Brasil, mas é bom também para as exportações de maquinário da Alemanha.

Para enfrentar a crise, o governo chinês focou em medidas para as empresas e para os investimentos em infraestrutura, com expansão do crédito, e deixou de lado as transferências de renda para os mais pobres. Foi o caminho correto?

É surpreendente que (a China) não tenha feito mais para as famílias. Em parte, isso reflete a ausência de elevado desemprego, como experimentado por todo o lado. As estatais chinesas podem simplesmente ter sido instruídas a manter seus trabalhadores na folha de salários, mas a China está tentando, ao longo da maior parte da década, reequilibrar (a economia) do investimento para o consumo. Essa crise poderia ser uma oportunidade para reequilibrar mais, mas a oportunidade foi perdida. Enfatizar o investimento em vez do consumo na reposta à crise foi, em parte, uma “reação instintiva” (isso funcionou no passado, então é a solução testada) e em parte a alavanca mais fácil de puxar. Entregar cheques a cada domicílio é complicado, enquanto determinar bancos estatais a emprestar e empresas estatais a investir é mais direto.

Quais as consequências da rápida retomada da China para a guerra comercial com os EUA?

Depende da forma que a retomada tomar. Uma demanda mais forte dos consumidores na China significa que o crescimento da produção chinesa será consumido domesticamente, em vez de ser exportado, enquanto exportações adicionais (pela China) inflariam as tensões comerciais. Até agora, a contribuição do consumo para a retomada chinesa tem sido relativamente controlada. Isso leva a preocupações de que tensões comerciais renovadas estão a caminho, mas muito mais importante do que isso para o cenário comercial é quem ganhará a eleição presidencial dos EUA.

Como o resultado da eleição de novembro influenciará o cenário de médio prazo para a economia mundial?

No médio prazo, bancos de investimento dos EUA são unânimes na avaliação de que a economia americana crescerá mais rapidamente com (o candidato do Partido Democrata, Joe) Biden do que com (o presidente Donald) Trump. E, para a economia mundial, ter uma segunda locomotiva (americana) é melhor do que ter apenas uma (a China). Acrescente a isso o fato de que medidas para conter a covid-19 funcionariam melhor com Biden, o que será bom, mais tarde, para o crescimento. Também para a economia mundial, políticas mais previsíveis e menos tensão comercial saindo da Casa Branca com Biden seriam outro fator positivo.

O que outros países podem aprender com a retomada chinesa?

Coloque o vírus sob controle e o mantenha assim. Puro e simples.

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