PÓS-CRISE?-Trabalhadores já pensam em greve por salário maior

Após lutarem pela manutenção de empregos e aceitarem cortes temporários de salários nos primeiros meses do ano, trabalhadores de alguns setores ameaçam greve enquanto negociam aumento dos salários, à medida que a economia melhora e o fantasma do desemprego em massa vai ficando para trás.

ALBERTO ALERIGI JR., REUTERS

13 de setembro de 2009 | 09h48

Categorias como a dos metalúrgicos já promovem as primeiras greves desde o agravamento da crise global, há um ano, em um momento em que as vendas de carros no Brasil estão acima dos níveis de 2008 e em que siderúrgicas religam auto-fornos incentivadas por aumento da demanda por aço.

"O cenário está melhor para nós agora. O clima está mais positivo. No primeiro semestre, os acordos (trabalhistas) que foram feitos duraram três, quatro meses", afirmou à Reuters o secretário-geral da central Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna.

"Naquele momento, a lógica era evitar a demissão que poderia permitir a empresa recontratar os funcionários após a crise com um salário menor", disse. "A tendência agora nas negociações salariais é aproveitar a melhora da economia."

A Força Sindical defendeu no primeiro semestre acordos de manutenção de emprego mediante redução de jornada e salários, mas a pauta agora é cobrar do empresariado e do Congresso Nacional diminuição na jornada semanal de 44 para 40 horas sem que se altere a remuneração dos trabalhadores.

Entre o final de 2008 e início deste ano, grandes exportadoras anunciaram redução de pessoal --como a demissão de cerca de 2 mil funcionários da Vale e o corte de 4,2 mil empregados na Embraer.

Cerca de 7 mil funcionários de fábricas de motores da Weg em Jaraguá do Sul e Guaramirim, em Santa Catarina, aceitaram no final de março redução da jornada em 25 por cento e dos salários em 20 por cento.

Em 21 de maio, contudo, o acordo entre Weg e funcionários foi cancelado em virtude da melhora das condições econômicas, diante de medidas de incentivo do governo, como a redução do IPI sobre eletrodomésticos.

Mesmo nesse cenário, segundo dados Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a maioria dos trabalhadores conseguiu reajuste salarial acima da inflação no primeiro semestre, ainda que em percentual inferior ao do mesmo período de 2008.

PIB REFORÇA ARGUMENTOS

A expectativa, a partir de agora, é ainda mais positiva.

"O segundo semestre concentra categorias mais expressivas dos trabalhadores do país, como bancários, metalurgicos, petroleiros e químicos", afirmou o coordenador de Relações Sindicais do Dieese, José Silvestre Prado de Oliveira.

Para reforçar os argumentos dos trabalhadores, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou nesta sexta-feira que o país saiu da recessão técnica no segundo trimestre, com crescimento da economia de 1,9 por cento ante os três primeiros meses de 2009.

A professora de planejamento e análise econômica da FGV-SP, Celina Ramalho, alerta que os trabalhadores estão mirando num horizonte muito curto ao exigir reajustes e redução da jornada, em um ambiente de intensa competição internacional e de recessão global.

"O importante é se ter uma política clara para o crescimento industrial do país. Não adianta os trabalhadores saírem reivindicando salários maiores se o país não chegou a um padrão de crescimento para comportar salários maiores."

REAJUSTES MAIS FREQUENTES

O Dieese apurou em relatório recente que no primeiro semestre cerca de 77 por cento dos reajustes salariais ficaram acima da inflação medida pelo INPC, ante 72 por cento no mesmo período de 2008.

"Apesar das incertezas existentes acerca do futuro da economia, o mercado de trabalho parece reagir (...) Mantido esse quadro, é de se esperar resultados ainda mais positivos para o comportamento dos reajustes salariais para o segundo semestre de 2009", segundo a entidade.

Para a doutora em ciências sociais pela Unicamp e professora da pós-gradução da PUC-SP, Noêmia Lazzareschi, "não há dúvida de que os metalúrgicos estão com a faca e o queijo na mão" neste momento, por conta da alta nas vendas de automóveis pela redução temporária do IPI sobre carros.

Funcionários da Renault e Volkswagen no Paraná estão de braços cruzados há uma semana. No interior de São Paulo, trabalhadores da Volks, da Ford e da GM aprovaram estado de greve. No ABC paulista, metalúrgicos aprovaram no sábado proposta de montadoras para reajuste salarial de 6,53 por cento, após sinalizarem com greve por tempo indeterminado na semana passada.

Na visão de Noêmia, porém, trata-se de um caso praticamente isolado, já que a indústria, de maneira geral, ainda enfrenta dificuldades. "Em outros setores não houve ainda nenhuma paralisação."

Apesar de criação de vagas na indústria nacional nos últimos meses, os dados mais recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), referentes a julho, mostram que o setor ainda contabiliza fechamento de 127.123 vagas no acumulado dos sete primeiros meses de 2009.

(Edição de Cesar Bianconi)

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