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Pós-pandemia

Mudança climática e segurança nacional deverão ser as pautas mais importantes do Brasil e Estados Unidos depois de terminada a crise sanitária mundial

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

Como o mundo mudou. Em quase toda parte, com exceção da Alemanha, os governantes incumbentes reaparecem como força dominante. Com isso vem uma maior disposição de deixar de lado as demandas do direito privado em nome de supostos benefícios coletivos.

Não se trata de uma liderança atual tão habilidosa a ponto de não ser contestada. Em vez disso, em muitos lugares, as forças domésticas alternativas e substanciais são incapazes de buscar uma concessão mútua. O nacionalismo patriótico é usado como justificativa para muitas decisões ligadas às políticas públicas. O comércio internacional não é considerado componente necessário da liderança. A globalização e os benefícios compartilhados voltam a dar lugar a crescentes proteções. A imigração enfrenta muito mais resistência em toda parte.

Os poderes do executivo aumentaram perceptivelmente. Os ramos legislativos são pressionados a acompanhar, às vezes em troca de benefícios individuais. Os tribunais estão configurados para se conformar aos interesses do executivo. O gasto militar aumenta, e muitos oficiais, da ativa e da reserva, são procurados para cargos no governo.

Essa mudança de direção está em curso já há duas décadas. Mas o efeito da pandemia da covid-19 desempenhou um papel internacional maior no ano passado do que o calculado inicialmente. A situação testou a qualidade do atendimento médico e, especialmente, a capacidade dos sistemas nacionais de saúde pública. Provocou restrições às forças de mercado, produzindo um sombrio silêncio em lugar do ritmo da atividade econômica regular. Limitou as viagens internacionais, trocando as reuniões individuais e de negócios por sessões no Zoom. Muitas dessas características sobreviverão no futuro.

Por toda parte, as características nacionais determinaram o conjunto particular de políticas seguidas na tentativa de preservar a capacidade produtiva e a saúde da população. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, as circunstâncias levaram a um maior grau de similaridade do que o habitual. Agora isso foi convertido em uma clara diferença.

A campanha eleitoral de 2022 acaba de começar no Brasil e nos EUA. Os dois candidatos já na corrida presidencial no Brasil são Bolsonaro e Lula. Haverá outros. Nos EUA, a disputa ainda é entre democratas e republicanos pela câmara e pelo senado, mas Biden já está agindo rapidamente por conta própria para capturar a autoridade necessária para cancelar os recursos de Trump e seus amigos.

Quais políticas dominarão a pauta dos EUA quando a pandemia começar a ficar na história? E no Brasil? Destaco aqui duas: mudança climática e segurança nacional.

A mudança climática é um assunto compartilhado com todos os países do Acordo de Paris, que Trump não pôde tolerar. Rapidamente, essa questão está se tornando menos futurista e mais imediata. As temperaturas seguem aumentando mais rápido do que os cientistas previram há uma década. Fica cada vez mais caro remediar as consequências, mesmo que temporariamente.

Aqui, Bolsonaro e até Lula afirmam uma visão mais negativa na defesa da Amazônia para o futuro do Brasil, e não para o planeta inteiro. Os resultados nos anos mais recentes mostram uma maior redução da sua área original em decorrência de incêndios para ganho pessoal. Bolsonaro reagiu com beligerância em reuniões anteriores da ONU.

Essa questão não virá para o primeiro plano logo no início. Noruega e Alemanha reagiram negativamente em 2019. Biden se mostra claramente comprometido, oferecendo-se para liderar uma coalizão com um fundo de US$ 20 bilhões durante sua campanha presidencial. Isso foi denunciado publicamente por Bolsonaro. No próximo mês, no Dia da Terra, Biden retomará o assunto. O Brasil ainda quer contar duas vezes as deduções de carbono acrescentando as contribuições estrangeiras ao seu total.

A Economist acaba de abordar o tema da Amazônia em sua edição mais recente. Se o Brasil realmente quiser uma reversão para a política ambiental de períodos anteriores, agora é o momento ideal de fazê-lo.

A segunda questão é a segurança nacional. Biden deixou clara sua disposição de enfrentar Putin, Xi Jinping, Erdogan, Ali Khamenei (Irã), o general Hlang (Mianmar) e muitos outros. Ele e seu secretário de estado, Anthony Blinken, inauguraram uma política de honestidade para substituir a arrogância e a vaidade de Trump. Isso vai ajudar muito.

Bolsonaro mal pode visitar um país vizinho, que dirá definir ou debater uma estratégia brasileira eficaz. O eleitor brasileiro não está muito preocupado com a política externa nesse momento de desespero na saúde e desemprego avassalador. Mas o Itamaraty e a política externa foram uma peça central no passado, e podem voltar a brilhar.

Tanto os EUA como o Brasil podem prosperar em um período de crescimento global coerente. As políticas seguidas por ambos os países serão importantes nesse sentido. Se os EUA sobreviveram aos excessos de Trump, talvez o Brasil também possa encontrar um sucessor produtivo após Bolsonaro. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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