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Pós-trepidação

A volatilidade do mercado financeiro nessa quinta-feira foi alucinante; Entre a cotação máxima e a mínima do dólar, por exemplo, a oscilação foi de 4,85%

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2015 | 21h00

A volatilidade do mercado financeiro nessa quinta-feira foi alucinante. Entre a cotação máxima e a mínima do dólar, por exemplo, a oscilação foi de 4,85% (veja o gráfico).

As declarações firmes do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e do diretor de Política Econômica, Luiz Awazu Pereira, de que os juros básicos (Selic) não subirão, mesmo com a deterioração das contas públicas e com a escalada do dólar, foram, por um momento, suficientes para conter a trepidação.

Essa súbita eficácia verbal, que partiu de autoridades cuja credibilidade vinha perdendo pontos, mostrou duas coisas. Primeira, que o déficit de confiança na praça é tão grande que os agentes econômicos estão dispostos a aceitar a intercessão até de santos que vêm decepcionando seus devotos. Mostra, também, que a alta do dólar e dos juros no mercado foi tão exagerada, que um ajuste iminente ficou inevitável e estava apenas à espera de bom motivo. Mas parece improvável que apenas essa munição verbal seja suficiente para trazer a confiança de volta.

A encalacrada fiscal é o fator que mais pesa no momento e mais contamina as outras políticas do governo, inclusive a monetária, do Banco Central.

Não reflete apenas a bagunça das contas públicas, mas, também, o alto nível de leviandade demonstrado pelo governo que há alguns meses anunciou um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) de R$ 34,4 bilhões, mas depois apresentou ao Congresso um projeto de Orçamento da União para 2016 com um rombo de R$ 30,5 bilhões. Em seguida, para juntar os cacos, veio com um balaio fiscal feito de cortes de vento, uma proposta de derrama de R$ 45,6 bilhões e, para viabilizar sua aprovação no Congresso, acaba por entregar cinco ministérios para o baixo clero do PMDB. 

No Relatório de Inflação, divulgado nesta quinta-feira, o Banco Central admite que algumas das macrometas por ele defendidas até outro dia não deverão cumprir-se. O desempenho do PIB, por exemplo, crucial para medir o resultado da arrecadação e a saúde das contas públicas, não vai mais cair apenas 1,1%, como anunciado no Relatório de junho, mas 2,7%.

O Banco Central reconhece que ficou difícil cumprir a meta de inflação de 4,5% no final de 2016. Agora acena com 5,3%, o novo “cenário de referência”. Se não vai mais mexer nos juros básicos, como garantiram ontem os dirigentes, e já não espera mais uma inflação inferior a 5,3%, segue-se que o Banco Central jogou a toalha.

A inconsistência desse Relatório está na afirmação (final do item 6.2) de que a política monetária se manterá “vigilante”, eufemismo para novo recurso à alta dos juros, caso o comportamento dos preços apresente “desvios significativos” da meta de inflação. Ao mesmo tempo, o Banco Central assegura que não vai mais puxar pelos juros. De duas, uma: ou o Banco Central voltará, sim, a aumentar os juros; ou já não considera significativo um desvio de quase um ponto porcentual da meta de inflação. Parece enrolação.

CONFIRA:

Nas atuais circunstâncias, é de se admirar que o desemprego não tenha aumentado mais. Já é 2,6 pontos porcentuais mais alto do que estava em agosto de 2014, quando a situação ainda era de pleno-emprego. 

Contra a corrupção

A adesão popular para a proposta de criação de 10 medidas destinadas a dar mais eficácia à luta contra a corrupção ultrapassou ontem 275 mil assinaturas. A explicação do movimento e o formulário para preenchimento podem ser encontrados no site: www.combateacorrupcao.mpf.mp.br/10-medidas

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