Possibilidade de mudança preocupa trabalhadores rurais

Possibilidade de mudança preocupa trabalhadores rurais

‘Sabemos que tem muita gente na cidade que recebe aposentaria rural, mas não podemos sofrer por isso’, diz aposentada

João Villaverde, André Dusek, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2015 | 21h49

ENVIADOS A ALEXÂNIA (GO) - O pequeno agricultor José Pereira da Silva acorda todos os dias às 5 horas para o serviço em sua pequena roça: corte e preparo da cana, a criação das galinhas, dos seis porcos e das cinco vacas. Ele mantém essa rotina no mesmo local em que nasceu, 64 anos atrás, em um pequeno terreno na zona rural do município de Alexânia, em Goiás. Vive com a mulher, Geralda Alves da Silva, de 56 anos. Ambos sobrevivem, basicamente, com a aposentadoria que recebem do governo: cada um obtém um salário mínimo do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS).

Ele e os 21 irmãos do interior de Goiás representam, segundo suas próprias palavras, a “vida como ela é em Alexânia”: pouca educação formal e uma tentativa, malsucedida, na juventude, de viver e trabalhar na cidade.

José chegou a abrir um bar na cidade, mas desistiu depois de seis meses, por conta do excesso de burocracia.

Trabalhou 16 anos vendendo pastel e outros oito consertando sofás em Alexânia, posto que o faz ser conhecido na cidade, até hoje – 11 anos depois de voltar, em definitivo, para a roça onde nasceu –, como “Zezinho do sofá” e “Zezinho do pastel”.

Apesar de problemas cardíacos, José mantém a vida de pequeno agricultor, que ganhou força desde 2012, quando passou a receber aposentadoria ao ter atingido 60 anos de idade. Sua esposa recebe desde o ano passado, quando completou 55 anos.

“A gente morre de medo dessas notícias”, respondeu Geralda ao ser questionada pelo Estado sobre eventuais mudanças do governo na política previdenciária. “Tem um monte de gente lá na cidade que nunca viveu na roça e tem aposentadoria. A gente sabe disso. Mas a gente não pode sofrer”, disse José.

Longo prazo. Mudanças em estudo pelo governo, no entanto, mesmo que efetivamente se transformem em projetos, só devem alterar benefícios para o futuro, segundo informações de fontes ligadas ao Ministério da Previdência. O governo seguirá a regra do chamado “direito adquirido”. No caso de José, que nunca teve a carteira de trabalho assinada, esse problema sequer existe.

A situação de Valdevino Pereira de Souza é diferente. Ele vai completar 63 anos no mês que vem, mas recebe aposentadoria há apenas um. A demora se deu por conta, justamente, de uma rápida incursão do pequeno agricultor na cidade grande. Por três meses, em 2009, Valdevino trabalhou como pedreiro em Brasília. Naqueles 90 dias teve carteira assinada, mas pediu demissão por conta de um início de depressão. Voltou para a zona rural de Alexânia, onde passou a maior parte da vida, depois de ter nascido em Silvânia, também em Goiás. 

Com a aposentadoria, concedida após intervenção judicial do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alexânia, Valdevino passou a ter mais qualidade de vida, diz ele. Até então, ele e a mulher, Sílvia de Souza, viviam de subsistência, com plantação de milho e mandioca, além da criação de galinhas e porcos. “Ganho menos dinheiro aqui, eu sei. Mas não sei viver de outra forma”, disse ele, que estava no sindicato quando foi abordado pela reportagem.


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