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E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

'Possibilidade de um racionamento é cada vez maior'

Para consultor, com a falta de chuvas e os reservatórios das usinas baixos, pode haver falta de energia no 2º semestre

Entrevista com

Mário Veiga

JOSETTE GOULART, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2015 | 02h02

Um dos mais respeitados consultores da área de energia do Brasil diz que a decisão de se fazer os cortes de energia elétrica nesta segunda-feira, 19, em vários Estados foi tecnicamente correta, já que não havia reserva suficiente para manter todos os aparelhos de ar-condicionado ligados. É melhor um blecaute preventivo e organizado, segundo Mário Veiga, da PSR Consultoria, do que deixar o sistema elétrico de todo País entrar em colapso, o que poderia ter acontecido se o Operador Nacional do Sistema (ONS) não tivesse ordenado os cortes.

Mas Veiga diz que isso está acontecendo agora porque o governo federal tomou a decisão de não fazer uma poupança no ano passado, ou seja, preservar água nas hidrelétricas. O mês de janeiro tem sido o pior da história em termos de chuva e de nível de reservatórios, e a situação se encaminha para um sério risco de racionamento no segundo semestre. "Já tivemos o realismo fiscal, o realismo tarifário da energia elétrica, falta agora o realismo de suprimento", disse. Ele defende uma ampla campanha de racionalização de energia e explica, a seguir, os motivos de o Operador Nacional do Sistema ter determinado os cortes de energia ontem.

O que aconteceu para ter havido corte de energia ontem?

A cada segundo, o total de energia que é produzida tem de ser igual ao total de energia consumida. Se você ligasse seu ar-condicionado agora, um gerador a centenas de quilômetros de distância ia se mexer para gerar mais energia. Como o gerador sabe que você ligou seu ar-condicionado? Imagina que você está andando de bicicleta e pedalando a 60 vezes por segundo, que é justamente a velocidade com que os geradores giram no Brasil. Se você começar a subir uma ladeirinha, passa a 59, porque é mais difícil subir. E se fosse descer, passaria para 61. No aparelhinho que mede a frequência do sistema elétrico, a lógica é: se a frequência fica abaixo de 60, bota mais energia. Se ficou acima, diminui a energia. Só que isso é feito em frações de segundos, automaticamente. Logo, preciso ter uma geração extra de 5% da carga já pronta para atuar em frações de segundo. Essa geração é conhecida como reserva girante.

Não havia reserva ontem?

Se o consumo foi de 86 mil MW, eu precisaria de 4.300 MW (5%) a mais. Isso dá 90 mil. A grande fonte que temos é hidrelétrica, que nominalmente já são 90 mil MW. Mas como as hidrelétricas estão no pior nível de armazenamento da história, a capacidade hoje é 70 mil. Temos então as termoelétricas, de 18 mil, e a as renováveis, de 5 mil MW, porque nesta época os ventos não sopram e a safra da cana acabou. Somando, dá 93 mil. Isso, na hipótese completamente otimista de que eu não tenho nenhuma restrição de transmissão, nem nos sistemas operativos, e sabemos que o sistema está com muitos problemas operativos. Todos os técnicos do setor sabiam que ia dar problema de reserva este ano entre janeiro e março, porque já ocorreu no ano passado, em fevereiro. E não é surpreendente que tenhamos demanda alta por energia, pois há vários anos sabemos que a demanda máxima do sistema não é mais à noite, e sim às três da tarde, por causa do ar-condicionado.

Por que fazer um apagão?

Imagina que eu não tenha reserva nenhuma. A demanda é 86 mil MW e a geração, exatamente 86 mil. Agora imagina que quebrou um gerador de 1 mil MW. Então a geração ficou 85 mil e a demanda continuou 86 mil. Nesse caso, a frequência cai e aquele aparelhinho que mede a frequência vai ver que não tem mais geração para colocar no lugar. Só que os equipamentos não podem funcionar com 59 de frequência. Quebram. Danificam. Então, outros equipamentos da geração caem, e vamos a 83 mil. A frequência abaixa mais ainda. Tiro mais geradores. Aí tenho um colapso total do sistema. Como se fosse um blecaute do País inteiro. Então o ONS fez certo, É melhor ter um blecaute preventivo do que ter um colapso do País inteiro. Agora, é normal ter chegado nesta situação? Não. Nós chegamos a esta situação porque o nível dos reservatórios está extremamente baixo, porque o governo decidiu, no ano passado, não fazer qualquer campanha de racionalização, para reduzir o consumo e chegar com os reservatórios neste ano em níveis mais altos. A situação é absolutamente análoga ao problema de água em São Paulo, na medida em que você decide não tomar medidas de contenção do consumo.

Significa que teremos outros cortes como os de ontem?

Isso já estava absolutamente previsto. Janeiro, fevereiro e março, toda vez que for quente teríamos risco de blecautes.

Mas tivemos dias bem quentes no ano sem cortes...

Você tem 10% de probabilidade de um avião cair. Na primeira vez que você toma um avião, não cai, a segunda, não cai, mas todo o dia você tá jogando o dado. Basta num dia você ter um gerador que não funciona ou um problema de transmissão. Como estamos no limite da navalha e sem reserva, os cortes acabam acontecendo. Mas, a partir do segundo semestre, o risco passa a ser de racionamento, já que os reservatórios estão muito baixos e a aposta do governo de que a hidrologia ia ser boa não está acontecendo. Janeiro já registra a pior vazão da história. E, por isso, existe uma probabilidade cada vez mais alta que a partir do segundo semestre tenhamos racionamento. É importante separar blecaute - interrupção de algumas horas e de repente - de racionamento.

Esse blecaute de ontem não é racionamento, então?

O que tivemos ontem foi um blecaute organizado. Isso significa que estamos com problema de abastecimento quando há um consumo máximo de energia. Quando começarem os meses mais frios, desaparece esse problema. Em compensação, vai começar o problema de risco de falta de energia. No momento, é falta de capacidade de atender o consumo máximo. Esse problema está associado ao fato de os reservatórios estarem baixos e a demanda estar alta. Esta época do ano é de cheias, onde reservatórios enchem. Na segunda metade do ano, como é mais frio, o consumo máximo diminui, mas é quando os reservatórios começam a esvaziar. Nós começamos o ano com reservatórios muito baixos, o pior nível da história, porque o governo em 2014 decidiu apostar que ia chover. E talvez cheguemos em maio sem que os reservatórios tenham enchido. Imagina a Cantareira começando o período seco com os reservatórios lá embaixo e sem reserva nenhuma? E não se pode culpar São Pedro, como não se pode culpar o consumidor. O governo é que decidiu não fazer a caderneta de poupança.

Há algo que se possa fazer?

No curtíssimo prazo, não, à exceção de um apelo para racionalização de consumo. Da mesma maneira que na parte do Tesouro você passou a ter realismo fiscal e recentemente o diretor geral da Aneel, Romeu Rufino, disse que vamos ter realismo tarifário, com aumento de 30 e poucos por cento na tarifa, eu acho que falta complementar com "realismo de suprimento".

Não seria recomendável fazer agora racionamento?

Isso só deve ser decidido após o período chuvoso, que é início de maio. Porque sempre é possível que chova. Mas é claro que o governo federal já devia estar fazendo apelo à população para racionalização, até porque muita gente não sabe que vai ter aumentos muito expressivos na conta de luz neste ano. Seria um ganha-ganha. Porque o que é bom para o bolso, é bom para o suprimento de energia. Já o racionamento é impositivo. Só se toma essa decisão se o efeito dos apelos de racionalização não funcionarem e, mesmo assim, só depois do período chuvoso.

Seria um racionamento nos mesmos moldes do que aconteceu em 2001?

Sim, só que muito mais suave.

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