Possibilidade de vitória de Tsipras assusta a Europa

Aos 37 anos, engenheiro faz os 27 países da UE prenderem a respiração à espera do resultado das urnas

ATENAS, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h07

Antonis Samaras, um político tradicional e líder de um dos dois partidos que se perpetuam no poder, o Nova Democracia, tem um tênue favoritismo, mas a estrela da segunda eleição na Grécia em 2012 é mais uma vez a sua antítese, o "enfant terrible" Alexis Tsipras. Aos 37 anos, o jovem engenheiro civil originário da classe média de Atenas se tornou capaz de obrigar os 27 países da União Europeia a mudar de planos e a prender a respiração à espera do resultado das urnas.

Tsipras é uma espécie de prodígio político. Formou-se em Engenharia Civil pela Universidade Técnica Nacional de Atenas, mas trabalhou pouco na área. Logo assumiu atividades políticas em tempo integral, primeiro no Partido Comunista, stalinista, e depois no Synaspismós - que hoje lidera a coalizão Syriza.

Em 2006, em sua primeira eleição de porte, concorreu à prefeito de Atenas e obteve 11% dos votos. Dois anos depois, assumiu as rédeas de sua agremiação e tornou-se aos 33 anos o mais jovem presidente de partido da história da Grécia.

Desde então, sua voz não para de ganhar volume e eco no país. Em 6 de maio, conquistou o segundo lugar na eleição parlamentar, com 16,8% dos votos. Dois dias depois, foi encarregado pelo presidente, Karolos Papoulias, de formar um governo de coalizão, o que não conseguiu fazer, por causa do radicalismo de sua proposta política.

Aos olhos de muitos eleitores gregos, o fracasso das negociações expôs outro de seus defeitos políticos: a inexperiência. É uma desvantagem para quem pretende sentar-se à mesa com líderes como Angela Merkel, François Hollande ou David Cameron, acusam seus adversários. Para cobrir essa lacuna, o partido tem um discurso pronto: "Não temos experiência de governo, é verdade, mas nosso partido existe desde 1974, desde o fim da ditadura. Temos história", argumentou ao Estado o deputado Nikos Voutsis, do Syriza.

Tsipras, um populista de esquerda, é a encarnação desse partido, que no Brasil seria uma mistura de PSOL e PV. Sua ascensão, segundo analistas políticos, se deve mais à desilusão em relação aos líderes dos dois partidos tradicionais do que a seus méritos. Mas se engana quem vê em sua liderança o radicalismo à Hugo Chávez, por exemplo.

"A Grécia não é um lugar em que um político dessa natureza poderia evoluir e disputar o cargo de premiê", diz Dimitris Tsoukalas, ex-líder sindical e um dos coordenadores do programa de governo da coalizão. "Tsipras é um líder pró-europeu, democrata e de esquerda."

Como primeiro-ministro, Tsipras terá de moderar o discurso e adaptar sua prática à "realpolitik" europeia, reconhecem correligionários. Também terá de lidar com os mesmos os líderes que ofendia, como Angela Merkel, a quem chamou de "ultrapassada" na semana que passou. Sua vantagem é que, pelo menos até aqui, a falta de experiência lhe transforma na antítese de Samaras e lhe dá uma legitimidade que a Europa está se forçando a reconhecer: a de porta-voz dos desesperados da Grécia. / A. N.

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