Possível acordo com FMI envolve prorrogação do atual e mais dinheiro

O Fundo Monetário Internacional (FMI) aplaudiu nesta segunda-feira "a decisão das autoridades brasileiras de de enviar uma equipe a Washington" e manifestou-se pronto a iniciar "discussões produtivas" com o Brasil.O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, por sua vez, procurou consertar mais uma declaração desastrada do secretário Paul O´Neill, que provocou protestos em Brasília, reiterando sua aprovação às políticas econômicas que o País vem seguindo."O Brasil está implementando as políticas corretas", disse a porta-voz de O´Neill, Michele Davis. "Nós estamos esperançosos quanto a seu sucesso continuado", acrescentou ela, respondendo aos jornalistas sobre a posição que o secretário Paul O´Neill adotará em relação ao Brasil durante a viagem que fará ao País, e também ao Uruguai e à Argentina, na semana que vem.No domingo, O´Neill disse, num programa de televisão, que não ofereceria ajuda a nenhum desses países durante a viagem sem receber garantias de que o dinheiro "trará benefícios e não simplesmente sairá do país para contas bancárias na Suíça".Ao ser informado sobre as declarações de seu colega norte-americano, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse não ter dúvidas de que o Brasil obterá que precisa do FMI, o que pressupõe o apoio norte-americano, pois os EUA têm poder de veto sobre decisões da organização.De acordo com fonte familiarizada com as conversas que precederam o anúncio da missão negociadora, sob o comando do secretário-executivo do ministério da Fazenda, Amaury Bier, o acordo possível com o FMI envolveria uma prorrogação do empréstimos de US$ 15,58 bilhões aprovado em setembro no ano passado, com um aumento de recursos.O período da prorrogração, que não deve ser de menos de seis meses, e montante de um novo empréstimo serão determinados nas negociações, que começam amanhã e devem se estender pela próxima semana. O Brasil tem ainda a sacar cerca de US$ 1 bilhão do acordo anterior, que termina em meados de dezembro.Diante da rápida deterioração do quadro financeiro do País, o objetivo do governo é tentar chegar a um acordo com o FMI o quanto antes e vê-lo aprovado antes do primeiro turno das eleições presidenciais, de forma a preservar a estabilidade durante a fase decisiva da campanha presidencial e os dois meses de transição até a posse do sucessor do presidente Fernando Henrique Cardoso.As conversas que Bier conduzirá em Washington deverão seguir um roteiro que o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, acertou com o FMI há duas semanas, em viagem a Washington. Na ocasião, Fraga disse que um acordo era "uma possibilidade real". Na semana passada, depois de novas conversas com a vice-diretora gerente do FMI, Anne Kruger, no Brasil, o presidente do BC disse que "o acordo depende apenas de nós".A premissa política por trás das discussões que Bier terá em Washington são declarações que os candidatos da oposição ao Planalto, Luiz Inácio Lula da Sila, do PT, e Ciro Gomes, da Frente Trabalhista, que atualmente lideram as pesquisas de opinião, fizeram nos últimos dias.Embora eles e seus assessores não percam oportunidade para defender uma mudança do modelo econômico, um alto funcionário brasileiro resumiu as declarações de Lula e Ciro que são relevantes para a busca de um acordo com o FMI. "Eles disseram que, até o dia 31 de dezembro, cabe a Fernando Henrique Cardoso tomar as decisões que julgar necessárias para manter a estabilidade econômica", afirmou. "Eles também disseram que honrarão os contratos internacionais firmados pelo atual governo. Nenhum candidato disse que não quer um acordo. Mas é claro que teremos que ter juízo para não fazer uma coisa que seja muito complicada para o próximo governo".Independente dos compromissos que o governo venha a assumir, a negociação com o FMI criará uma situação complicada para os candidatos da oposição na fase decisiva da campanha eleitoral: eles terão que medir as palavras, moderar os discursos, e esclarecer as posições de política econômica, sob pena de serem responsabilizados pelo fracasso dos entendimento com o Fundo e o agravamente da crise que o País já vive.Apesar da boa disposição que existe no FMI de explorar alternativas para o relacionamento futuro entre o Brasil e a instituição, as conversas de Amaury Bier em Washington começarão sem um desfecho pre-determinado. "Só vamos saber o que é factível durante as negociações", disse uma fonte oficial. O funcionário acrescentou que os entendimentos não incluirão a prorrogação de pagamentos ao FMI "porque eles só vencem no ano que vem e isso será pelo próximo governo".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.