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Coluna Leandro Miranda: como se moldar à nova economia após a covid-19?

Possível legado das famílias empresárias brasileiras na crise da covid-19

Feitas de sonhos e valores peculiares, elas são parte extremamente relevante da sociedade e da economia do Brasil

Fernando Crissiuma Mesquita*, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2020 | 04h00

Mais de 90% das empresas no Brasil são empresas de controle familiar, empresas estas muito peculiares na qual os seus sócios, membros da família, não escolhem uns aos outros, pois herdam um legado de seus ancestrais empreendedores.

Pesquisas mostram que apenas 3% das empresas familiares chegam à quarta geração da família e, também, que essas empresas são, via de regra, mais rentáveis do que as empresas de controle não familiar.

A complexidade de uma empresa controlada por uma família passa pelo desafio de navegar por três sistemas: os sistemas de governança familiar, societário e corporativo. São sistemas interdependentes e, muitas vezes, antagônicos, nos quais as pessoas têm papéis, ambições e expectativas nem sempre alinhados.

Apenas como exemplo rápido, enquanto do sistema familiar se espera buscar a harmonia da família, a realização pessoal de seus membros e a construção de um legado de valores, do sistema corporativo, ligado ao negócio, se espera a máxima geração de riqueza para seus públicos envolvidos e, cada vez mais, metas sociais e ambientais que contribuam para um mundo melhor.

Cada sistema, por ter propósitos distintos, exige elementos distintos para bem desempenhar os seus papéis: estruturas, processos, regras, pessoas, cultura, comportamentos e capacitações específicas são necessários. Um dos maiores desafios? Muitas vezes, as mesmas pessoas atuam nos três sistemas, exigindo flexibilidade de capacitações e comportamentos adequados a cada sistema. Primos que são também sócios e colegas na gestão; pais e filhos desempenhando também vários papéis. Cada vez mais, até três gerações de membros da família atuando no sistema. Bem-vindo à realidade da família empresária!

Uma vez que a família e o negócio têm suas necessidades específicas, o antagonismo dos sistemas pode se exacerbar de forma crítica nos tempos de crise, podendo pôr em risco ambos os sistemas.

Qual a prioridade neste momento de crise? A família e seus acionistas ou a empresa e todo o seu ecossistema? Devemos priorizar a total harmonia familiar ou a decisão, mesmo que por maioria, dos sócios do negócio?

Independentemente da decisão tomada, um processo decisório colegiado tende a ser mais legítimo e gerar confiança e união das pessoas.

Também cuidado com as não decisões. Em momentos de crise, não decidir pode ser potencialmente mais perigoso do que decidir e correr os riscos ou colher os benefícios de uma determinada decisão.

A única questão que tenho ouvido de forma unânime é que a crise um dia vai passar. Cabe a nós sabermos atravessá-la e, principalmente, aproveitá-la para fortalecer a nossa família e o nosso negócio familiar (ou não).

Evoluir na crise é muito mais complexo do que evoluir fora dela, por outro lado, nada como uma necessidade latente para mobilizar as pessoas a saírem de sua zona de conforto e tomar decisões que há pouco tempo pareciam ser inviáveis.

Conceitualmente, estamos falando em ajustar alguns elementos dos sistemas de decisão da família, da sua sociedade e de seus negócios. Podemos fazer ajustes nas estruturas da governança (conselhos e comitês), nos seus processos (reuniões), nas suas pessoas, nas suas crenças e comportamentos e, principalmente, na agenda da governança (o que é importante e crítico agora).

Seria um exemplo claro de um sistema evolutivo funcional, flexível e aberto, ajustando-se às mudanças do ambiente externo e se adaptando para sobreviver em novos tempos. O que acredito que costuma funcionar mais do que nunca neste momento de crise? Muito diálogo, confiança mútua, união e otimismo.

Cada família e empresa familiar tem a sua realidade e seus desafios, mas todas têm algumas características em comum: nasceram de um sonho de um empreendedor, possuem valores familiares fortes e peculiares, são parte extremamente relevante da sociedade e da economia do Brasil.

Nesse sentido, cabe às famílias empresárias deixarem um legado para o Brasil neste momento tão desafiador, dando um exemplo de coragem, de empatia, de solidariedade e de superação, atributos que sempre estiveram presentes no DNA empreendedor das famílias empresárias brasileiras.

*CONSELHEIRO PROFISSIONAL, CONSULTOR DE GOVERNANÇA E MENTOR. E-MAIL: FERNANDO.MESQUITA@FCMASSESSORIA.COM.BR

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