CDP/Divulgação
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'Posto de líder global na resposta às mudanças climáticas está vago'

Para fundador do CDP, maior banco de dados ambientais divulgados do mundo, momento atual é "empolgante para o Brasil e para a América Latina terem uma liderança"

Entrevista com

Paul Dickinson e Lauro Marins, fundador e diretor-executivo do CDP na América Latina , respectivamente

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2020 | 05h00
Atualizado 24 de agosto de 2020 | 15h37

WASHINGTON-  O Brasil poderia ser o líder na articulação de uma resposta global às mudanças climáticas, mas o cargo está vago. A avaliação é de Paul Dickinson, que em 2000 fundou uma organização para reunir e analisar dados do setor privado e público sobre emissões de CO2 e performance ambiental. O CDP, inicialmente criado com nome Carbon Disclosure Project, tornou-se o maior banco de dados ambientais divulgados no mundo. "A China estava fazendo o movimento de descarbonização da economia um pouco mais lento. O presidente Donald Trump colocou os Estados Unidos em marcha à ré. Quem vai liderar?", questiona Dickinson, em entrevista ao Estadão. 

Empresas, cidades, Estados e regiões fornecem dados sobre sua performance ambiental ao CDP e os relatórios da organização não governamental norteiam investidores e outras empresas, parte da cadeia de produção. Cerca de 8 mil empresas reportam dados em 134 países. No mundo todo, há mais de 510 investidores que representam mais de US$ 100 trilhões em compra de ativos que buscam as informações analisadas pelo CDP.

"O mundo vai se descarbonizar. Governos querem ter liderança nas tecnologias do futuro? Ou ficar com o passado? A mudança climática, como a internet, fica maior a cada ano e nunca vai embora. E você tem de aprender a ganhar dinheiro com isso ou será um desastre", afirma em entrevista ao Estadão junto com o diretor-executivo do CDP na América Latina, Lauro Marins.

A pandemia, segundo eles, tem gerado uma preocupação por parte de investidores e empresas ainda maior com uma forma sustentável de crescimento. "A lição útil da pandemia é que somos mais vulneráveis do que imaginávamos. Isso é importante porque o maior perigo da mudança climática é não pensar que ela é importante", afirmou Dickinson.  "Os investidores globais estão procurando a América Latina e o Brasil. Se for preservar a Amazônia, o dinheiro estará lá. Se empresas não buscarem o desenvolvimento sustentável como um todo, o dinheiro não estará lá", afirma Marins. 

Quais mudanças o sr. notou nas discussões feitas pelo setor privado desde que fundou o CDP? 

Dickinson: Já tem 20 anos, muito tempo. A mudança mais óbvia é que você veria artigos de jornal que diriam algo sobre emissões de CO2 com a ideia de "o que algumas pessoas acreditam estar ligado à ideia de mudança climática". Há um vídeo incrível no YouTube, da Shell em 1991, portanto há 29 anos. Eles estavam fazendo algumas previsões muito claras sobre as mudanças climáticas. Portanto, não é como se muitas pessoas não soubessem sobre a mudança climática, mas ainda não era considerado tão importante.  Eu estava lendo sobre a campanha de Joe Biden para a eleição dos Estados Unidos, e ele tem um plano de investimento verde de US$ 2 trilhões  e assim por diante. É uma possível questão central do governo moderno. É uma grande mudança na aceitação global. De novo, há 20 anos, você tinha a mídia dizendo que havia esse conceito.  Em 2019, você tem 4 milhões de alunos em greve, porque eles estão dizendo aos adultos que há recursos sendo retirados deles. É uma grande jornada.

O ritmo de engajamento têm sido suficiente? Qual o papel das empresas na cobrança por compromissos públicos dos governos à crise climática? 

Dickinson: Mesmo pensando em algo como o Acordo de Paris, que foi um grande sucesso, um grande acordo global entre todos os países, as deliberações no primeiro período de compromisso eram com algo próximo a 3,5ºC (de limite de) aumento de temperatura, e temos de diminuir para 1,5ºC. Portanto, os governos assumiram compromissos, mas não são bons o suficiente. E as ações que estão sendo tomadas pelos países não são boas o suficiente. Sobre as empresas, essas enormes empresas globais estão, penso, nas 100 maiores economias do mundo. Se você medir as economias pela receita do governo, então apenas cerca de 30 são países e as outras 70 economias da lista são empresas. As maiores economias do mundo atualmente são empresas. Portanto, é extremamente importante que elas mudem e façam parcerias com os governos para construir o futuro melhor após a pandemia.

Marins: Também acredito que as empresas têm um grande papel a desempenhar. O que estamos vendo aqui na América Latina, e especificamente para o Brasil, é que empresas estão acordando sobre o que precisam fazer nos próximos 20 anos. E que a agenda climática precisa ser a agenda-have que elas têm de cumprir. Elas estão entendendo que a agenda ambiental é a agenda social, que é a agenda de governança. Esse movimento sobre a Amazônia é superinteressante, as empresas sinalizando que é preciso reconstruir (a economia) de uma maneira melhor e trabalhar por essa agenda. Ainda há muito a fazer, não é suficiente o que as empresas estão fazendo e o que os governos estão fazendo, mas é bom ver que algo está acontecendo, finalmente.

Dickinson, o sr. costuma falar sobre as revoluções necessárias para as mudanças climáticas. Pode explicar um pouco, especialmente o conceito de "desmaterializar o crescimento econômico"? O sr. acredita que o mundo pós-covid vai estar mais preparado para isso?

Dickinson: Na verdade, vejo quatro grandes revoluções industriais nas mudanças climáticas. A primeiro é energia renovável. A segunda são provavelmente veículos elétricos e os próximos dois são agricultura e desmaterialização. A agricultura é superinteressante para o Brasil e grande parte da América Latina. Estou surpreso com a extensão em que a tecnologia de alimentos está acontecendo e isso pode ter um impacto muito substancial no mercado de carne, francamente. Eu entrevistei o presidente-executivo da Beyond Meat e ele disse que realmente acredita que 93% das terras agrícolas poderiam ser liberadas, potencialmente, se usarmos a ciência dos alimentos. A propósito, a ciência dos alimentos é muito nova. É o contrário de cozinhar. Cozinhar é fazer as mesmas coisas terem um gosto diferente. A ciência dos alimentos está fazendo coisas diferentes terem o mesmo gosto. Temos milhares de anos cozinhando, mas só alguns anos de ciência do alimento. Potencialmente, haveria muito menos uso de terras agrícolas por carnes, mas potencialmente muito terra para combustíveis. Sobre desmaterialização, eu me interesso há 24 anos por vídeo comunicação, como estamos fazendo essa entrevista agora. (Para a entrevista, a reportagem do Estadão estava nos EUA, Dickinson no Reino Unido e Marins no Brasil.) Para encurtar a história, uma das razões pelas quais não estava funcionando realmente era porque as pessoas não queriam perder tempo para acertar e fazer direito. Mas a pandemia não deu alternativa e todos nós tivemos de começar a usar. Estou lendo sobre mudanças potenciais extraordinárias no uso de escritórios, valores imobiliários, localização. Portanto, acho que poderíamos ver mudanças muito significativas no deslocamento para os escritórios.  (Lauro Marins perde a conexão na entrevista por Zoom por alguns minutos). Nós perdermos o Lauro porque gastamos muito dinheiro com carros e combustível e não gastamos suficiente com banda larga. Foi uma demonstração perfeita.

Marins: Ainda temos um desafio aqui na América Latina, porque somos pessoas que gostam de encontrar cara a cara. Mas vemos muitas empresas falando que só voltam (ao trabalho presencial), se voltarem, em 2021. Muitas empresas na região estão fechando seus escritórios ou abrindo o escritório no interior. 

Quais serão as consequências da pandemia para a agenda climática? 

Dickinson: A pandemia é um desastre, não é possível dizer que há nada de positivo nisso, mas acredito que a lição útil da pandemia é que somos mais vulneráveis do que imaginávamos. Isso é importante porque o maior perigo da mudança climática é não pensar que é importante. Com a pandemia passamos a entender que nossas sociedades podem enfrentar sérios riscos e que temos de pensar sobre risco e segurança das pessoas. Essa lição será valiosa. Uma estatística de nosso programa de metas com base científica: nós temos mais de 950 empresas comprometidas em estabelecer metas baseadas na ciência. E isso não está diminuindo durante a pandemia. Está aumentando. Temos mais uma razão para considerar a importância do risco e a necessidade de nos proteger.

Marins: Esperávamos que as empresas na América Latina com quem falamos não fossem responder ao CDP este ano, por tudo o que está acontecendo, com o foco em outras agendas internas e até mesmo de estabilidade no mercado. E o que estamos vendo é que as empresas estão investindo nessa agenda de sustentabilidade, porque entendem que precisam identificar riscos e vulnerabilidades. Muitas empresas estão entendendo que têm de ser mais do que apenas lucro, é muito importante para a empresa o propósito. Falamos com muitas empresas que estão se tornando empresas do Sistema B e que dizem que precisam ter um impacto na sociedade. Temos Natura Amazon e os grandes players que apóiam sua cadeia de suprimentos a fazer o mesmo.

Dicknson, o sr. mencionou a plataforma do Joe Biden. O governo Trump anunciou a retirada dos EUA do Acordo de Paris.  O sr. vê as eleições americanas como um ponto de inflexão nesse debate, no palco global?

Dickinson: Não acho muito complicado. O mundo vai se descarbonizar. Tenho certeza. Então, os governos têm duas opções: voltar para trás ou avançar. A vantagem de voltar para trás é que talvez você precise de um pouco menos de investimento de capital agora, talvez. Mas a vantagem de avançar é que você ganha. Eu moro no sul da Inglaterra, estou olhando pela minha janela para um parque eólico de 1,3 bilhão de libras no mar, no oceano, e sim, custa 1,3 bilhão, é meio caro, certo? Mas eu moro em uma cidade de um quarto de milhão de habitantes e ela abastece toda a cidade pelos próximos 20 ou 30 anos. Você sabe? De graça, o vento não envia fatura. Quando sabemos que temos de descarbonizar os governos, temos uma escolha simples. Eles querem ter uma liderança nas tecnologias do futuro? Ou ficar com o passado? A mudança climática, como a internet, fica maior a cada ano e nunca vai embora. E você tem de aprender a ganhar dinheiro com isso ou é um desastre.

Mas o sr. acredita que o resultado da eleição americana, retirar de fato ou recolocar os EUA no Acordo de Paris, pode ter efeito relevante nessa agenda de uma maneira global?

Dickinson: Poderíamos dizer que o mundo vai descarbonizar, talvez, algo como 1% ao ano, se Trump ganhar, e 2% ao ano, se Biden ganhar. É uma grande diferença. Os EUA são a maior economia do mundo. O que eu acho interessante é que a massa crítica é maior em um mundo com Biden do que em um mundo com Trump, com certeza. E isso muda, sim, a velocidade. Mas acho que a direção está fora de questão.

Nesse contexto, os srs. diriam que os governos da América Latina, especialmente o do Brasil, estão avançando ou ficando no passado?

Marins: Temos muitos cenários nos quais alguns dos governos já estão pensando no futuro. Posso dar o exemplo do Chile, está fazendo muito em descarbonização e a eletricidade, que antes era baseada no carvão. Temos alguns bons exemplos também na Colômbia, que estão puxando essa agenda e olhando para os ODS, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. E aí temos algumas agendas que estão nisso: vou seguir em frente ou vou dar um passo atrás? Isso é bom ou ruim? Os governos precisam decidir se querem desempenhar um papel no acesso a esse capital, que entendemos que existe para investir nessa agenda, ou olhar para o outro lado. Os investidores globais estão procurando a América Latina e o Brasil e colocando seu dinheiro na agenda que avança. Então, se for preservar a Amazônia, o dinheiro estará lá. Se você for investir em energia sustentável e renovável, o dinheiro estará lá. Se vamos investir em empresas da América Latina, elas precisam buscar o desenvolvimento sustentável como um todo, senão o dinheiro não estará lá. É uma mudança muito grande no que investidores que estão procurando. Você vê grandes ativos aqui no Brasil dizendo "nossos investimentos serão focados em ESG". 

Dickinson: Há algumas empresas realmente grandes e progressistas todos nós sabemos o quão enorme tem sido a revolução digital, mas é uma espécie de revolução invisível, baseada no Vale do Silício, é um pouco distante. Mas a descarbonização é uma revolução industrial e agrícola. É um momento tão empolgante para o Brasil e  para América Latina terem uma liderança. Ainda está vaga a liderança na resposta global às mudanças climáticas. A China estava fazendo o movimento um pouco mais lento. O presidente Trump colocou os EUA em marcha à ré. Quem vai liderar? 

E o sr. não está vendo o Brasil nessa liderança?

Dickinson: É uma possibilidade. Eu amo essa frase: "Se você acha que terá sucesso ou que vai fracassar, você provavelmente está certo".

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