Joedson Alves/EFE
Jair Bolsonaro é visto como um presidente populista pelos analistas Joedson Alves/EFE

Postura frente à pandemia piora imagem do Brasil no exterior e afasta investidores

Para analistas, confronto entre governo federal e governadores, indefinição no combate ao coronavírus e dúvidas sobre a capacidade de o País continuar com reformas estruturais são focos de preocupação

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2020 | 04h00
Atualizado 25 de maio de 2020 | 20h23

WASHINGTON - "Estes são os túmulos de abril. Vejo um funeral a cada dez minutos, e este é só o começo.” A descrição de um cemitério em São Paulo com os caixões de vítimas do coronavírus feita na semana passada foi apenas uma dentre as várias vezes em que repórteres das maiores emissoras de TV dos Estados Unidos abordaram a gravidade da pandemia no Brasil. A imagem de caixões e de hospitais se tornou corriqueira na imprensa estrangeira depois que o País rompeu a marca de mais de mil mortes diárias. Segundo a Organização Mundial da Saúde, puxada por Brasil, a América do Sul é agora o novo epicentro da covid-19.

Analistas internacionais definem o Brasil como uma nação governada por um presidente populista que dá respostas contraditórias à pandemia. Os efeitos concretos da percepção no exterior de que o País ruma para um precipício – ao viver uma tempestade perfeita com crises simultâneas na saúde, na política e na economia – já aparecem nos números e na postura distante que outras nações têm preferido tomar do Brasil.

Desde o início do ano, o real foi a moeda que mais se desvalorizou no mundo, com queda de 45% ante o dólar. A despeito das intervenções diárias do Banco Central, a cotação da moeda americana encostou nos R$ 6. No mesmo período, o CDS (Credit Default Swap), indicador que sinaliza o nível de risco país, cresceu mais de 250%.

Março teve a maior fuga de capital desde 1995

Os números superlativos se repetem na debandada de investimentos estrangeiros. Segundo o último relatório do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), que reúne bancos de investimento, fundos e bancos centrais em 70 países, o Brasil registrou em março a maior fuga de capital em um mês desde 1995 e é o país que mais merece atenção, por causa da rápida deterioração do cenário. A quantia perdida só não foi maior do que a registrada pela Índia.

“Investidores gostariam de ver o governo no comando da situação. Temos visto o confronto entre o Executivo (federal) e governadores, assim como discussões com o Congresso sobre os estímulos, além de mudanças ministeriais que aumentam as dúvidas sobre a capacidade do governo de continuar com reformas estruturais”, diz Martin Castellano, chefe da seção de América Latina do IFF.

Procurado para comentar os efeitos da percepção negativa do País no exterior, o Ministério da Economia não se pronunciou.

Para o economista-chefe do IFF, Robin Brooks, o coronavírus se tornou uma “crise de confiança” para o Brasil. Colocar dinheiro no País agora deve ser uma tarefa para “especialistas, loucos, oportunistas de longo prazo e aqueles sem outras opções”, resumiu o economista Armando Castelar, do Ibre/FGV, em relatório da Gavekal Research, consultoria de investimentos internacional. De acordo com o economista, seria como “correr para um prédio em chamas”. 

EUA decidem barrar quem passou pelo Brasil 

A falta de uma estratégia do governo brasileiro para conter o avanço da pandemia do novo coronavírus faz com que vizinhos e aliados tomem medidas para isolar o País e se proteger do contágio. O governo americano anunciou ontem a proibição da entrada de viajantes estrangeiros provenientes do Brasil. Entre os vizinhos, o presidente da Argentina (terceiro maior parceiro comercial do Brasil), Alberto Fernández, disse ver o Brasil como um risco à região, enquanto o Uruguai reforçou controles sanitários na fronteira e o Paraguai tenta conter a entrada de brasileiros.

A intenção de limitar passageiros vindos do País vinha sendo mencionada pelo presidente americano, Donald Trump, desde o final de abril. Na sexta-feira, quando a Organização Mundial da Saúde classificou a América do Sul como novo epicentro do vírus, a Casa Branca e o Departamento de Estado americano concordaram em oficializar a restrição, como antecipou o Estadão.

Trump é considerado o principal aliado internacional do presidente Jair Bolsonaro e tem evitado críticas abertas ao brasileiro, mas deixou claro nas últimas semanas que não pouparia o País ao dizer que não queria pessoas “entrando e infectando” o povo americano. A medida anunciada barra estrangeiros que estiveram no Brasil nos últimos 14 dias. A restrição passa a valer a partir das 00h59, no horário de Brasília, do dia 27 de maio, e não tem prazo para terminar. Ainda podem entrar no país aqueles que possuem residência permanente nos EUA, além de cônjuges, filhos e irmãos de americanos e de residentes permanentes.

Atualmente, há apenas 13 voos semanais em operação entre os dois países, contabilizando todas as companhias aéreas. Antes da pandemia, a Latam, sozinha, tinha 49 voos semanais. Com a restrição, as empresas podem continuar a operar as rotas, mas os passageiros que se encaixem na medida não poderão ingressar nos EUA. A tendência, portanto, é que o número de voos seja ainda mais reduzido.

Na Europa, a desconfiança com o governo Bolsonaro vem desde o ano passado, depois que o presidente entrou em choque com os líderes da França e Alemanha no meio da crise de imagem causada pela alta nos incêndios na Amazônia. 

Diferença

Americanos, no setor público e privado, afirmam que Trump também não foi o melhor líder na condução da crise, ao minimizar o vírus no início do ano e postergar o início de uma resposta coordenada com os Estados. Ao traçar a comparação com o Brasil, no entanto, analistas têm apontado que ao menos Trump se mantém fiel ao corpo técnico que o orienta, enquanto Bolsonaro perdeu dois ministros da Saúde em um mês.

“As pessoas precisam estar preparadas para voltar a trabalhar porque se sentem razoavelmente seguras, não porque estão desesperadas e não têm dinheiro”, afirma Thomas Shannon, que foi o terceiro na hierarquia do Departamento de Estado até 2018 e embaixador dos EUA no Brasil de 2010 a 2013. “O que me preocupa é que temos governos federais que vão reabrir com base no desespero, e não com base na confiança.”

Acordo comercial

A medida de restrição do governo Trump acontece num momento em que os dois países negociam um novo acordo comercial, que não deve envolver mudanças de tarifas. O encarregado de negócios da Embaixada do Brasil nos EUA, Nestor Forster, diz que até o fim do ano é possível fechar um pacote de facilitação de negócios. “É um grande desafio conseguir manter a agenda funcionando com as restrições de encontro presencial, mas posso dizer que temos conseguido até de forma surpreendente.”

Para Shannon, a onda de desaceleração da globalização e o encurtamento das cadeias de produção, que devem surgir como efeito da pandemia, poderiam levar Brasil e EUA a estreitar relações comerciais. Nesse sentido, ele faz elogios ao ministro da Economia, Paulo Guedes. “Ele ainda está trabalhando para abrir a economia, isso é importante.”

O ex-embaixador reconhece, no entanto, que a perspectiva do avanço comercial pode esbarrar no protecionismo de Trump e no cenário eleitoral, que tende a ser turbulento no segundo semestre nos EUA. A crise política e econômica no governo Bolsonaro gera um outro impasse: a resistência do Congresso americano, que é crítico ao brasileiro.

“Os EUA vão passar pela crise. Acho que o Brasil vai também, mas será mais difícil, porque não está no mesmo estágio de desenvolvimento econômico e político”, diz Melvin Levistky, ex-embaixador dos EUA no Brasil e hoje professor na Universidade de Michigan. 

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'Investidor estrangeiro tem dúvida sobre avanço das reformas no Brasil'

Para chefe de Economia do Bank of America, interesse do exterior, que já estava baixo antes da pandemia, cai ainda mais com a "crise tripla" que o País atravessa

Entrevista com

David Beker, chefe de Economia e Estratégia para o País do Bank of America

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2020 | 10h42

O investidor estrangeiro está pessimista com o Brasil, afirma o chefe de Economia e Estratégia para o País do Bank of America (BofA), David Beker. Após cerca de 40 reuniões com investidores institucionais da Europa e dos Estados Unidos nas últimas duas semanas, Beker contou ao Estadão/Broadcast que o sentimento deve-se à percepção de que o Brasil está combinando três crises ao mesmo tempo: de saúde, com o coronavírus, política e fiscal.

Beker diz que, com uma sinalização mais firme sobre o compromisso com o cenário de ajuste fiscal, é possível o retorno de fluxo de capital externo de curto prazo para ativos brasileiros. Sobre o fluxo de crescimento, de capital de prazo mais longo, o mais importante para o País, Beker traça um cenário de que "algum" retorno do estrangeiro pode ocorrer na passagem do terceiro para o quarto trimestre, quando a atividade econômica deve começar a se recuperar.

O estrategista lembra, contudo, que o interesse sobre o Brasil já estava baixo antes da pandemia de coronavírus, com desconfiança do estrangeiro sobre a aceleração do crescimento, e que, agora, o desconforto aumentou. "Se estava difícil antes, agora a 'barra' está mais alta e nossos fundamentos estão piorados."

Recentemente, o BofA cortou novamente a projeção de Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, passando a prever queda de 7,7%, de contração de 3,5% anteriormente. Para 2021, a expectativa foi mantida em alta de 3,5%. Leia abaixo os principais pontos da entrevista:

Qual é a percepção que os investidores estrangeiros têm do Brasil em meio à essa crise?

Nas últimas duas semanas, fiz reuniões virtuais com investidores institucionais. Foram em torno de 40 reuniões, com, principalmente, investidores de renda fixa, metade da Europa e metade dos Estados Unidos. De forma geral, eu diria que o sentimento é negativo, principalmente pela percepção que estamos combinando três crises: de saúde, por conta do vírus, uma crise política, por conta do ruído, e fiscal. Ninguém discorda da necessidade de resposta de políticas neste momento tão delicado para todos os países, mas a percepção é de que vamos ter ao longo dos próximos anos um risco de crescimento muito grande da relação dívida/PIB. E mesmo o resultado primário neste ano vai ser um déficit muito grande, nossa projeção é de 9,3% do PIB. Quando você combina essas três incertezas, o tom dos investidores é negativo.

Mas quais são as principais preocupações?

Uma preocupação que eles manifestam é a questão do câmbio, embora nos últimos dias até tenha melhorado um pouco. Mas o posicionamento estava bem negativo e vimos uma depreciação bem importante do câmbio. E aí a pergunta é: como isso vai se refletir ao longo do tempo nas expectativas e na inflação, qual é o risco desse movimento ao longo do tempo para a inflação? Embora todo mundo concorde que, no curto prazo, a fraca atividade econômica não permite o repasse, há dúvidas do que eventualmente pode acontecer adiante. Na questão fiscal, a pergunta é, basicamente, como o País 'reancora' a questão fiscal. O que eles perguntam é se vai existir consenso político para retomar a agenda de reformas. Sabemos que a equipe econômica tem dito que isso é temporário e que as coisas vão voltar ao normal, e que eles vão voltar a perseguir todas as reformas que queriam fazer antes. Mas, diante de todo o ruído político, os investidores estrangeiros têm dúvida se efetivamente o governo vai conseguir criar uma base de sustentação para avançar nessas reformas.

E o que você diz para os investidores estrangeiros sobre esses pontos?

Estamos vendo uma deterioração fiscal neste ano, necessária porque temos que dar uma resposta para o covid-19 e os impactos disso na população. Por enquanto, estamos vendo uma sinalização por parte do governo de que vai continuar perseguindo uma responsabilidade fiscal ao longo do tempo. A nossa hipótese de trabalho é de que é algo contido neste ano e, no ano que vem, começa a se normalizar. O que eu estou monitorando é a possibilidade do Congresso retomar essa agenda mais estrutural em algum momento. As reformas estruturais se tornaram ainda mais importantes neste momento. Em relação ao câmbio, neste ano, não vemos risco de inflação. Nossa projeção é de 2,0%, com risco de baixa. Para o ano que vem, ainda é cedo para falar, mas se tivermos um câmbio depreciado por muito tempo e risco de depreciação adicional, em um ambiente em que a questão fiscal está se deteriorando, o risco para as expectativas aumenta. Para coordenar as expectativas, precisa-se de uma combinação de fatores e, neste momento, os investidores estão pressionando esses fatores. Então, embora o nosso cenário seja de que, no ano que vem, a inflação estará em linha com as metas, dependemos também desse equacionamento fiscal. Temos uma preocupação fiscal e o grau de preocupação depende muito de como essa questão será manejada pelo governo. Então é importante que possamos retomar o processo de reformas estruturais.

Como você analisa os sinais políticos, como a tentativa de aproximação do presidente Jair Bolsonaro com o Centrão, em relação à retomada da agenda fiscal?

Acho que ainda é cedo para dizer, porque, como estamos no meio da pandemia, o foco do Congresso tem sido as medidas relacionadas ao coronavírus. Temos de monitorar esses sinais de aproximação, sem dúvida, o próprio fato do Bolsonaro ter se encontrado com o presidente da Câmara, o Rodrigo Maia. Tem sinais importantes de aproximação, mas ainda é preciso monitorar como vão evoluir nas próximas semanas. O Congresso só vai poder voltar discutir questões mais estruturais quando passar essa crise.

Mas é possível pensar em expectativa de retorno do investidor estrangeiro para o Brasil ainda este ano?

Eu diria que, se tivesse uma sinalização mais concreta de arrumação de casa na questão fiscal, o fluxo [de capital de curto prazo] poderia aparecer. Mas o fluxo principal que o Brasil precisa neste momento, que é o fluxo do crescimento, como o Investimento Direto no País, fluxo para compra de ativos, IPOs e follow-on, depende da combinação de um fiscal encaminhado conjuntamente com sinais de que o fundo do poço ficou para trás e de que a economia começa a se recuperar. Esse processo de crescimento da economia, nos nossos números, começaria do terceiro para o quarto trimestre, mas ainda tem muita incerteza. Eu acho importante mencionar que, antes de tudo isso começar, não estávamos vendo grandes fluxos do estrangeiro para o Brasil. Antes, estávamos vendo um pouco de fluxo para Bolsa de estrangeiro e, na renda fixa, o estrangeiro já havia reduzido a alocação. O que temos visto agora é que a posição do estrangeiro na renda fixa continua muito baixa e, na renda variável, estamos vendo saídas. Antes de tudo isso começar, já tinham as dúvidas fiscais, mas a principal preocupação era a questão do crescimento, muita gente, antes de tudo isso, já tinha uma desconfiança com a aceleração do crescimento. Então, já havia desconfiança e vem tudo isso, então cria-se um desconforto maior para esses investidores. Agora, além do crescimento, tem outras coisas, o ponto de partida piorou. É possível argumentar que o Brasil não está sozinho na história, tem outros emergentes também. O Brasil tem sofrido um pouco mais do que a média, mas a deterioração fiscal não é só Brasil. No limite, está todo mundo no mesmo cenário, mas tem que fazer alguma diferenciação.

Então o retorno deve ficar mais para 2021?

Na verdade, acho que a foto pode mudar no terceiro ou quarto trimestre. Mas tem várias discussões não só no Brasil, mas no mundo: o risco da segunda onda, o formato da recuperação global, se vai ser 'V'. Na verdade, as pessoas têm ficado mais preocupadas com a chance de 'U' ou 'W'. É difícil precisar o timing, porque ainda tem muita incerteza. Mas é possível construir um cenário em que, no fim do terceiro e no quarto trimestre, comecemos a ver algum tipo de fluxo. Mas acho que sempre vale a pena dizer que, se estava difícil antes, agora a barra está mais alta e nossos fundamentos estão piorados.

Recentemente, o BofA piorou a expectativa de recessão este ano, de 3,5% para 7,7%, mas manteve a projeção de alta em 2021 em 3,5%. O cenário então é de recuperação mais lenta?

Ainda não temos a projeção para 2022, mas basicamente se atrasou o processo de voltar para o patamar anterior [ao coronavírus]. Há muita incerteza, se vai ter empresas quebrando, há risco para pequenas e médias empresas, aumento do desemprego, alta da inadimplência. Acho que é a combinação de fatores. Mas isso não é só no Brasil. Revisamos nossa projeção para os Estados Unidos também. Tínhamos queda de 6% passou para recuo 8% e tínhamos alta de 6,1% para 2021 e revisamos para 4%. Os economistas estão repensando o grau de crescimento que a economia pode voltar a mostrar no ano que vem.

A combinação de recessão com o câmbio depreciado pode, de alguma forma, ajudar as contas externas brasileiras?

Nossa projeção de déficit de conta corrente é de US$ 24,9 bilhões, caindo pela metade em relação ao ano passado (US$ 49,452 bilhões). Mas, quando olha-se o pano de fundo do câmbio, a conta corrente melhora bem, mas ainda é um déficit, talvez um déficit ainda menor do que estamos projetando. E também temos que olhar para a conta capital. Há dúvida do que vai ocorrer com investimentos em portfólio e com o IDP, com o fluxo de recursos em geral. Mas concordo que o câmbio depreciado combinado com uma recessão vai provocar um ajuste importante na conta corrente no Brasil. Não tenho um número zero, mas, a depender da evolução do cenário, não dá para descartar. Nos meus números, já tem uma melhora significativa. Agora, eu diria que tem que olhar com cuidado o IDP, há incerteza. O que vai se repetir é que a conta corrente no Brasil quando há episódios de recessão combinados com depreciação cambial há redução importante do déficit em conta corrente. Na crise anterior, o IDP foi bem resistente: se a participação no capital caísse, os empréstimos intercompanhias subiam. Não sabemos como vai se comportar dessa vez. Nas nossas projeções, a expectativa é de que o IDP caia para US$ 60 bilhões.

Qual é a projeção para a taxa Selic?

Hoje, o cenário base é de 2,25% no Copom de junho e ficaria nesse patamar por um bom tempo.

Não teria espaço para mais quedas?

Acredito que não teria mais espaço. Devemos ficar com os juros estáveis por um bom tempo. Eu acho que olhando para as variáveis e para os riscos que mencionamos, estamos perto do piso dos juros que podemos conviver no Brasil.

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