Hélvio Romero/Estadão
Gustavo Porto (E), mediador; Ananias, da CNA, Moretti, da Embrapa; Aline, do Rabobank, e Geroni, da Basf  Hélvio Romero/Estadão

Potência em sustentabilidade

Grande produtor e exportador mundial de alimentos, Brasil tem desafios a superar para se tornar referência ambiental agropecuária, avaliam especialistas reunidos em fórum do Estado

Tânia Rabello e Cleyton Vilarino, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2018 | 05h00

O Brasil já é uma potência em produção e exportação de alimentos e vem sendo reconhecido, cada vez mais, como referência em agropecuária tropical sustentável e produtor de energias limpas e renováveis. Ainda há, porém, desafios a serem superados, como marcos regulatórios e legislação que contribua para elevar a competitividade do setor, além de redução de desmatamento. Esses temas foram discutidos no Fórum Estadão Agronegócio Sustentável, promovido na última quarta-feira, dia 21 de novembro, em São Paulo, em parceria com a Apex Brasil. 

Em sua exposição, o presidente da Apex Brasil, Roberto Jaguaribe, reconheceu o caráter sustentável do campo brasileiro, mas alertou que “sustentabilidade depende de rentabilidade e isso tem de caminhar junto”. Sob este aspecto, sem as tecnologias já aplicadas, o Brasil precisaria de 100 milhões de hectares a mais de lavoura para obter a mesma quantidade de produção atual, destacou o coordenador de Sustentabilidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Nelson Ananias Filho. “Fizemos nosso dever de casa. Se a gente conseguiu avançar na produtividade, isso nos faz ter uma poupança ambiental”, assinalou. 

O diretor executivo de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Celso Luiz Moretti, ressaltou que o Brasil preserva 66% do seu território e que 25% das matas nativas estão nas propriedades rurais. Acrescentou, ainda, que o País produz 35 milhões de hectares de soja “sem aplicar 1 grama de adubo nitrogenado, com economia de US$ 13 bilhões na safra 2016/2017”. 

A analista sênior do Rabobank, Aline Aguiar, destacou, porém, a perda de competitividade pela falta de aprovação de marcos regulatórios importantes, como o projeto de lei dos agrotóxicos, em tramitação no Congresso, e que vai acelerar a aprovação de novas tecnologias de controle de pragas e doenças nas lavouras. “Perdemos em produtividade por causa da morosidade na aprovação”, disse.

O diretor de Inovação, Biotecnologia e Pesquisa da Basf na América Latina, Ademar De Geroni, confirmou que a demora na aprovação de defensivos contribui para custos maiores. “Com celeridade (na aprovação de defensivos), teremos mais ferramentas, competitividade e, consequentemente, benefícios para o produtor”, ressaltou.

O presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Marcelo Vieira, assinalou a eficiência do campo, mas advertiu que o País é um dos mais fechados. “Temos de abrir mais nossos mercados.” Vieira elogiou a legislação pertinente ao campo, como a trabalhista e a ambiental, “bastante exigentes”. Mesmo assim, disse, há falhas na regulamentação, que fazem com que fiscais de trabalho e ambientais tomem decisões subjetivas. “Só que eles tendem a decidir para depois não serem questionados e isso acarreta custos altíssimos para o produtor se adequar (à legislação).” Já o colunista do Estado, Celso Ming, comentou que a demanda mundial crescente por alimentos deve reduzir os efeitos da crise econômica – que não é a pior que o País já viveu – sobre o setor. “Embora possa haver alguma recessão ou desaceleração da economia, teremos certamente uma demanda grande internacional por alimentos”, disse.

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É preciso melhorar a imagem dos defensivos agrícolas

Para especialistas, risco de uso de agrotóxicos caiu muito e há dados incorretos no debate sobre o tema

Tânia Rabello e Cleyton Vilarino, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2018 | 05h00

A discussão sobre o uso de defensivos agrícolas tem disseminado muitas inverdades, segundo especialistas presentes ao Fórum Estadão Agronegócio Sustentável, esta semana, em São Paulo. “Quando a gente analisa usando ferramentas científicas criteriosas, chegamos à conclusão de que o Brasil faz uso bastante racional de defensivos”, explica o professor Caio Carbonari, da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp Botucatu.

Segundo ele, os níveis de risco de toxicidade observados nas maiores culturas do País, entre elas soja, milho e algodão, foram reduzidos em 40% de 2002 a 2015. “É totalmente injusto jogar a pecha sobre o agronegócio de que não usamos corretamente os defensivos.” 

“Os indicadores estão sendo aplicados de forma errada”, observa o professor da Esalq-USP José Otávio Menten, presidente do Conselho Científico Agro Sustentável. Para ele, “não tem sentido falar em 5 litros de agrotóxico por habitante/ano”, uma vez que ninguém aplica defensivos por pessoas, mas em área.

Carbonari lembrou que a aplicação correta de agroquímicos está intimamente ligada à sustentabilidade no agronegócio, uma vez que está relacionada ao aumento da produtividade – o que significa produzir mais na mesma unidade de área, reduzindo a necessidade de expansão. “Se quisermos continuar produzindo na escala atual, é difícil a gente abrir mão dessas tecnologias”, destaca o professor.

A postura contrária ao uso de defensivos disseminada no País, segundo Menten, tem prejudicado o agronegócio. “Existem normas claras sobre o uso seguro de defensivos. O que a gente usa aqui em termos de unidade de área e produção nos coloca numa situação muito melhor quando comparado a países com regulação forte, como Japão, Holanda e França”, ressaltou o professor da Esalq-USP.

O benefício para pequenas culturas

O registro de defensivos para pequenas culturas deve contribuir para melhorar a imagem do setor de frutas, verduras e legumes, avalia Carlos Gomes, gerente de toxicidade da Anvisa. Segundo ele, há 1.250 novas indicações de bula para produtos que não possuíam nenhum registro até 2014. “Isso vai trazer uma nova imagem para o produto que for monitorado, além de ter mais regularidade e percepção da qualidade do alimento brasileiro”, observa. 

Ele reconheceu a demora dos órgãos reguladores na aprovação de novas moléculas, o que gera defasagem das tecnologias aplicadas no campo. “A Anvisa vem trabalhando, tentando agilizar o processo de análise de produtos sem abrir mão da qualidade da nossa análise. Isso é fundamental”, explica Gomes.

De acordo com o gerente da Anvisa, o foco do órgão tem sido a segurança ocupacional do trabalhador rural diante do problema “crítico” das intoxicações durante a aplicação de químicos nas lavouras. “Por isso, precisamos buscar ferramentas adequadas e produtos menos tóxicos para que essa exposição não leve a algum problema ao trabalhador”, ressaltou, ao alertar sobre as subnotificações de casos.

Na visão de Menten, da Esalq-USP, o problema é “micro”, com apenas 9% dos casos de intoxicação registrados no País relacionados à contaminação pelo uso de agrotóxicos. “A intoxicação só ocorre se os equipamentos de proteção individual (EPI) não forem usados. É injusto generalizar como se fosse uma grande falha do agronegócio brasileiro”, observa Menten.

Com opinião semelhante, Carbonari, da Unesp Botucatu, ressalta que não há dados sólidos sobre o problema. “Afirma-se que para cada notificação (de intoxicação por agrotóxicos) há outras 50 não notificadas. Não encontramos dados sobre isso. Não é dado. É opinião. Temos de ter cuidado com um assunto tão importante e de tamanho impacto ao agronegócio.” 

O peso dos agrotóxicos no custo de produção já faz com que os agricultores queiram usar cada vez menos esses produtos, mencionou o coordenador-geral de Agrotóxicos do Ministério da Agricultura, Carlos Ramos Venâncio. “Em média, esses produtos representam 30% do custo de uma lavoura”, disse. “Existe, por isso, um forte movimento de agricultores para baixar custos e ter maior produtividade.” 

Venâncio acrescentou que, hoje, se vê um uso muito grande de produtos biológicos nas lavouras, por exemplo, vírus para controle de lagartas que atacam a soja ou o milho. “Os próprios agricultores desejam usar esses produtos, desde que sejam eficientes, independentemente de serem químicos ou biológicos.”

Outro ponto relevante é que nunca se registrou tanto produto de baixa toxicidade como atualmente. “Vemos tendência de registro para pequenas culturas cada vez maior.” 

Desinformação no setor

A comunicação do agronegócio sobre suas práticas de cultivo e meios de produção foi alvo de críticas durante o evento. Para Menten, “o setor como um todo se comunica muito mal”. “Essas informações, no que se refere ao uso de defensivos, têm de ser comunicadas de maneira correta. E as melhores fontes de informação são os profissionais do agronegócio”, ressaltou o professor.

Segundo Venâncio, há muita desinformação por parte da população. “O que fazemos hoje em relação há dez anos mudou drasticamente. Imagine em relação há 30 anos, quando foi promulgada a Lei de Agrotóxicos”, ao destacar que os produtores premiados por seus índices de produtividade no País têm sido, justamente, aqueles que adotam práticas sustentáveis. 

Escolhida para assumir o Ministério da Agricultura no governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro, a deputada Tereza Cristina (DEM-MS) afirmou no início do mês que a pauta sobre modificações nas regras sobre agrotóxicos “terá muito espaço” para discussões dentro da pasta.

“O setor faz muito, faz bem e comunica mal. Isso é consenso, todo mundo tem essa visão, mas muito pouco tem sido feito para reverter isso”, criticou Carbonari, da Unesp Botucatu. 

O Paraná e o agronegócio

O Paraná pode assumir o protagonismo na produção de alimentos, disse o governador eleito do Estado, Ratinho Júnior, que participou do fórum. Ele afirmou que o Paraná já é o maior produtor de alimentos por metro quadrado do mundo, colhe 20% da safra de grãos do País e é a segunda maior bacia leiteira brasileira. Além disso, nas granjas paranaenses é produzido o maior volume de proteína animal do País. “A matriz econômica do nosso Estado é o agronegócio e agora começa a surgir uma consciência coletiva forte disso.”

Ratinho Jr. contou ter ido à China três vezes e, na terceira, viu os chineses preocupados em como alimentar os atuais 250 milhões de idosos, que, em 2050, serão 500 milhões com mais de 60 anos. “O governo vai ter de dar alimentos para essas pessoas, que provavelmente já estarão fora do mercado de trabalho, e o Brasil contribuirá.”

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A técnica que recupera pastagens

Integração Lavoura-Pecuária-Floresta é muito usada no Brasil em áreas degradadas

Tânia Rabello e Cleyton Vilarino, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2018 | 05h00

A técnica da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que é amplamente usada no Brasil para recuperar pastagens degradadas, foi reconhecida como uma importante ferramenta de sustentabilidade pelos debatedores do Fórum Estadão Agronegócio Sustentável. Para o diretor de Inovação, Biotecnologia e Pesquisa da Basf América Latina, Ademar De Geroni, é possível notar em áreas monitoradas “uma clara mudança na microbiologia do solo e maior produtividade”.

O coordenador de Sustentabilidade da CNA, Nelson Ananias Filho, observou a dificuldade que é levar não só a tecnologia da ILPF, como qualquer tecnologia, a áreas degradadas. “Essas áreas são degradadas justamente porque não tiveram acesso à tecnologia, seja porque estão distantes, seja porque não tiveram atenção especial do Estado”, disse.

analista Aline Aguiar, do Rabobank, lembrou que com a ILPF há benefícios sociais, com garantia de mão de obra o ano inteiro. “Com isso, se elimina a sazonalidade da força de trabalho”, continua. Ao elogiar a técnica, ela mencionou que há clientes do Rabobank que multiplicaram por oito a produtividade da área. “Em pecuária, por exemplo, a taxa de lotação aumentou de 0,5 unidade animal por hectare (UA/ha) para 8 UA/ha. Além disso, Aline comentou estudos que apontam que se 10 milhões de hectares forem adicionados à ILPF no País, não seria necessário derrubar mais nenhuma árvore para aumentar a produção.

A analista sênior comentou também que práticas sustentáveis como essas podem ser certificadas, o que é cada vez mais exigido no comércio internacional. “Alguns mercados só deram abertura ao Brasil em soja, cana e café depois de certificações”, disse. O diretor executivo de P&D da Embrapa, Celso Luiz Moretti, acrescentou que a onda digital que se vê atualmente ainda está no início e vai facilitar muito a rastreabilidade e a certificação de processos. “Isso certamente vai auxiliar na certificação dos nossos produtos lá fora”, enfatizou Moretti. 

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'Brasil é competitivo e isso incomoda'

Narrativa que mancha a imagem do agro brasileiro esconde interesses comerciais

Entrevista com

Roberto Jaguaribe, presidente da Apex Brasil

Bruno Meirelles, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2018 | 05h00

Fortalecer o agronegócio brasileiro no exterior está entre as prioridades do embaixador Roberto Jaguaribe, presidente da Apex-Brasil. Apesar da pujança do setor, que contribui com 23,5% do PIB, a tarefa não é considerada tranquila, pois há obstáculos a serem superados. Um deles é desconstruir o que Jaguaribe chama de “narrativa negativa” em torno do segmento, que o vincula a altas taxas de desmatamento e uso excessivo de agrotóxicos. “Por que esse discurso se sustenta? Porque há um grupo demagógico e cínico disfarçado de ambientalista com interesses puramente comerciais. A competitividade do Brasil incomoda esses mercados”, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Quais são os principais desafios do agronegócio brasileiro?

Não é possível separar, hoje, sustentabilidade e produção agrícola, o que transforma o Brasil na grande potência agrícola e ambiental do mundo. Para traduzir isso em resultados, temos desafios externos, como a imagem da evolução do agro. Nossa extraordinária história não é contada, pois predomina lá fora uma narrativa negativa. Outro obstáculo é o acesso a mercados. No comércio exterior, boa parte dos países tem discurso liberal, mas o setor agrícola é controlado sob fachadas de protecionismo, controle de qualidade e questões ambientais. Há ainda desafios internos, e o mais evidente é a logística e a infraestrutura, particularmente para o Centro-Oeste. Por fim, o Brasil precisa de um sistema de controle de qualidade com mais eficácia. Isso não quer dizer que a nossa produção não seja de qualidade. Mas falta marketing eficiente.

Por que a imagem negativa ocorre no exterior, mesmo com o Brasil tendo avançado em sustentabilidade?

Os detratores dos interesses brasileiros têm primazia na narrativa. Isso precisa ser revertido. Esse esforço tem várias dimensões. A primeira é a criação de uma base de informações científicas a respeito da realidade da produção agrícola no Brasil. A segunda é a detecção de informações equivocadas no exterior que tenham impacto prejudicial relevante. Precisamos estar presentes nas discussões em que esses assuntos sejam tratados e fazer nossos próprios eventos e reuniões. Por fim, temos de criar mecanismos de acesso aos formadores de opinião. Temos, por exemplo, 60% de cobertura vegetal nativa, enquanto a Europa tem apenas 0,3%.

Como esse discurso contrário ao Brasil se sustenta?

Porque há um grupo demagógico e cínico disfarçado de ambientalista com interesses puramente comerciais. A competitividade do Brasil incomoda esses mercados.

A questão do consumo de agrotóxicos é um ponto sensível.

Uma frase que vi várias vezes é que somos o campeão mundial de agrotóxicos, uma falácia. Diversos países, sobretudo Japão e nações europeias, utilizam muito mais agrotóxicos por hectare do que o Brasil. É importante uma correção dessas questões, incluindo internamente.

A possibilidade aventada pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, de retirar o Brasil do Acordo de Paris pode resvalar nesse processo de construção de uma imagem positiva do agro?

O mercado consumidor já está com uma inclinação totalmente dirigida para a sustentabilidade, independentemente da nossa permanência ou não no acordo. O presidente tem legitimidade para tomar as políticas adequadas no seu momento. Mas, como candidato, ele apresentava um discurso que agora está matizando em função das informações que vai recebendo. Não sei se a saída teria impacto direto ou não. Mas, como a sustentabilidade é muito manipulada por interesses protecionistas, qualquer coisa que facilite essa manipulação nos torna mais vulneráveis.

A FAO-ONU estima que em 2020 o Brasil será o maior produtor e exportador de alimentos do mundo. O sr. considera factível?

De longe, o maior produtor de alimentos é a China, pela demanda populacional. Não acho que deve ser uma meta chegar ao número um. A meta deve ser uma expansão sustentável, com qualidade, para atender a demandas efetivas de mercado. Quem tem mais condições de fazer isso? Não tenho dúvida de que é o Brasil em todos os requisitos. Em relação aos mercados fechados, vamos ter pouca capacidade de atuar. Elementos de protecionismo são percebidos como importantes para a manutenção de segmentos com relevância cultural, social e até política, difíceis de desmontar. Mas acho que isso passa a ser cada vez menos relevante, pois a demanda global vai subir de qualquer maneira por duas razões: expansão da população e pelo aumento da capacidade aquisitiva das camadas mais baixas.

 

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Campo avança em práticas ecológicas

Agropecuária investe em sustentabilidade não só por causa da agenda climática, mas para se manter viável e ganhar competitividade

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2018 | 04h00

Recentemente, a União Europeia firmou importantes acordos de comércio com o Japão e o Canadá e, neles, as cláusulas ambientais foram determinantes. No próprio acordo UE-Mercosul, há quase duas décadas em negociação entre os blocos, há texto específico sobre “comércio e mudanças climáticas”, no capítulo Comércio e Desenvolvimento Sustentável, em que as partes reafirmam a importância de efetivamente implementar o Acordo de Paris, informou ao Estado o Ministério das Relações Exteriores.

Isso significa que cada vez mais o Brasil não vai ter escapatória, a não ser respeitar exigências ambientais, caso pretenda continuar a ser um dos principais players do comércio global – no que diz respeito à UE, trata-se do segundo principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, atrás só da China.

O Brasil ratificou, com 194 nações, em 2016, o Acordo de Paris, a fim de reduzir as emissões de gases do efeito estufa para evitar o aumento da temperatura da Terra. Em junho de 2017, o presidente americano, Donald Trump, deixou o tratado e em setembro deste ano, antes de ser eleito presidente, o então candidato Jair Bolsonaro mencionou que poderia, caso vencesse, retirar o Brasil do acordo, que, segundo ele, feria “a soberania do País”.

Um caminho sem volta

Representantes do setor agropecuário ouvidos pelo Estado veem com ceticismo um eventual rompimento do Brasil com a agenda climática mundial, principalmente pelo risco de perda de mercados. Mas são taxativos em afirmar que o investimento agroambiental nas propriedades rurais é um caminho sem volta. Não só pela preservação dos recursos naturais, mas também para recuperar áreas degradadas e obter saltos de produtividade, criando condições de permanência na atividade agropecuária.

“Se a variável sustentabilidade sair da produção agropecuária brasileira, dificilmente se obterá sucesso tanto em termos de produção quanto de crescimento de mercado”, confirma o diretor executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Cornacchioni. Ele conta que esteve em Bruxelas no dia 8 deste mês, no evento “Um diálogo sobre alimentos sustentáveis e agricultura: construindo um futuro de baixas emissões”, promovido pela Apex Brasil, e que o interesse europeu sobre o tema foi “determinante”.

Cornacchioni lembrou, ainda, que o agronegócio brasileiro deve alcançar neste ano US$ 100 bilhões em exportações. “Qualquer porcentagem a menos (no caso de perda de mercado por causa de um eventual rompimento de acordo climático) causaria um estrago tremendo.”

“Quero crer que tudo o que foi dito (sobre a possibilidade de o Brasil sair do Acordo de Paris) seja da boca pra fora”, afirmou o sócio diretor da Agroicone, Rodrigo Lima. Em termos de comércio global, ele comenta que o fato de o País participar de agendas ambientais será visto no futuro não só como “um prêmio”. “A vantagem vai ser poder continuar vendendo.” Para ele, sustentabilidade na produção é uma temática que já é exigida globalmente. “Lembrando, ainda, que com a saída dos EUA do acordo climático, a China começou a ocupar uma posição de liderança, já que nos últimos anos o país asiático abraçou a agenda sustentável”, diz Lima. E a China deve importar este ano, só do Brasil, US$ 230 bilhões, entre produtos agropecuários e outros segmentos.

Se o risco comercial existe “da fronteira para fora”, dentro dos limites do País, independentemente de o novo governo romper com as outras 193 nações signatárias do Acordo do Clima, a agenda ambiental é inexorável, diz Lima. Ele lembra, por exemplo, que uma das metas voluntárias do Brasil no Acordo de Paris é recuperar 15 milhões de hectares de pasto. “Nossa pecuária tem baixa produtividade e um dos motivos são as pastagens degradadas”, comenta. “Mas a gente precisa melhorar esses pastos por questão de sobrevivência da própria atividade. E melhorar a produtividade resulta, por tabela, em ganhos econômicos e ambientais”, continua. “Essa recuperação, portanto, não deve ser feita só por causa do Acordo de Paris, que atenderia o ambiente, mas também por questões sociais e econômicas.”

O sócio diretor da Agroicone observa, ainda, que “não consegue enxergar” como o Acordo de Paris poderia atrapalhar o Brasil. Ao contrário. Todas as iniciativas ambientais adotadas nos últimos anos nas propriedades rurais podem servir como diferencial da agricultura brasileira, justamente por ela estar cumprindo as metas as quais o País se propôs. “Deveríamos, aliás, adotar essa narrativa ambiental cada vez com maior expressão lá fora. Por exemplo, o Cadastro Ambiental Rural mostrou o quanto ainda temos de florestas nativas no País e nas propriedades particulares, coisa que os Estados Unidos não têm.”

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Brasil perderá 'peso' no exterior se deixar acordo de clima

Risco de ‘descredenciamento’ em fóruns e agências internacionais é real

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2018 | 05h00

Mesmo com práticas ligadas à agricultura de baixo carbono adotadas em larga escala no País, além da farta legislação ambiental, o representante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, André Guimarães, acredita que a permanência do Brasil no Acordo de Paris deve ser vista como “uma grande oportunidade” de captação de recursos para aprimorar as práticas sustentáveis de uso do solo. “Grande parte das metas voluntárias do Brasil acordadas em Paris diz respeito ao uso da terra, como restauração florestal e mudanças de práticas de uso do solo”, comenta. “Para cumprir essas metas, é necessário capital.”

Além do risco de obter menos recursos para adotar práticas sustentáveis, o representante da coalizão também vê a ameaça de perda de mercados e de uma importante ferramenta que auxilia o País a ordenar o uso da terra. “Combater o desmatamento ilegal, por exemplo, é um resultado potencial do Acordo de Paris; se o País deixá-lo, será uma importante ferramenta a menos.” 

O Brasil também perderia “peso” em outros eventuais fóruns internacionais, pelo fato de não ser mais signatário de Paris, alerta Guimarães. “Isso nos descredenciaria em outros pleitos, como participação em agências e órgãos internacionais, por exemplo. Sairíamos enfraquecidos.”

Das metas propostas pelo Brasil no Acordo do Clima, as que mais avançaram foram a redução do desmatamento e a adoção de boas práticas agropecuárias, por meio da agricultura de baixo carbono, diz o professor da FGV Angelo da Costa Gurgel, coordenador do Observatório ABC. “Há outros planos, ligados ao setor de energia e indústria, que foram, porém, menos efetivos do que os da agropecuária.” Por isso, para ele, não há sentido em sair do Acordo de Paris. “Desistir seria deixar de avançar numa agenda de competitividade com amplos benefícios sociais”, defende, ressaltando que, como a agenda agropecuária “está indo para a frente”, não tem por que parar. 

O pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa Informática, diz que a agricultura brasileira tem sido protagonista importante na contribuição para a redução da emissão de gases do efeito estufa e que, numa conta modesta, tem o potencial de mitigar de 15% a 20% do total de emissões do País. “Desde 2009, na Conferência do Clima, em Copenhagen, mostramos nosso potencial de redução nas emissões a partir da adoção de boas práticas agropecuárias (BPA)”, diz.

Em recuperação

“Naquela época, tínhamos 60 milhões de hectares de pastos degradados; hoje são 48 milhões.” Assad diz que não só por causa do acordo climático, mas também por ele, o País desenvolveu tecnologias integradoras na agropecuária, que hoje são referência mundial, como plantio direto na palha, integração lavoura-pecuária, integração lavoura-pecuária-floresta e fixação biológica de nitrogênio. “O Brasil é o único país que apresentou resultados expressivos em reduzir emissão de gases do efeito estufa por meio de BPAs.” Assad diz que esses resultados serão apresentados na próxima Conferência das Partes, em Katowice, Polônia, em dezembro. 

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'Temos de desenvolver o País sem radicalizar'

Para futura ministra da Agricultura, Brasil tem ferramentas para garantir sustentabilidade

Entrevista com

Tereza Cristina, futura ministra da Agricultura

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2018 | 05h00

BRASÍLIA - A atuação da futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina, hoje deputada federal pelo Estado de Mato Grosso do Sul e presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), ficou marcada nos últimos anos pela defesa à aprovação do Projeto de Lei 6.299, que flexibiliza as regras para fiscalização e aplicação de agrotóxicos no País. 

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Tereza afirmou que respeitará na sua gestão o Código Florestal, que considera muito bom, mas sem “radicalizar”. “Temos de desenvolver o País, temos de fazer comida para os brasileiros e para o mundo”, declarou Tereza. Ela defendeu o Acordo de Paris e os sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) e o de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que aliam agronegócio à preservação do meio ambiente. 

Como a sra. pretende tratar a sustentabilidade em sua gestão à frente do Ministério da Agricultura?

Seguindo a lei, temos o Código Florestal, que na minha avaliação é muito bom. Nós temos várias ferramentas que foram feitas ao longo deste ano e que são muito importantes. O que não podemos é radicalizar. Temos de desenvolver o País, temos de fazer comida para os brasileiros e para o mundo. Eu ouso dizer que, olhando hoje, teríamos de mexer muito pouco. Basta verticalizarmos alguma coisa. Por exemplo, fiquei muito feliz com a irrigação vindo para a Agricultura, porque se tivermos uma política de irrigação bem feita com o Meio Ambiente nos ajudando a formular, com sustentabilidade, vamos poder duplicar nossa produção e chegar a fazer três safras por ano em alguns lugares. Outra coisa é que vamos reforçar a ligação entre a Agricultura e Meio Ambiente. As pastas vão ter de se conversar. O perfil do ministro do Meio Ambiente que Bolsonaro quer é um que fale muito bem com a Agricultura. Não quer dizer que tudo o que pedirmos será possível, mas o diálogo vai ser aberto. 

A participação do Brasil no Acordo de Paris é importante para que o Brasil consiga abrir novos mercados e manter parceiros comerciais. Como a sra. vê a participação do País no acordo e como deve tratar isso com o futuro presidente?

Não vejo nenhum problema. Acho que o acordo pode até mostrar que o Brasil está fazendo a coisa certa. Ele pode mostrar para o mundo o que o Brasil já faz pelo meio ambiente e pelo desenvolvimento sustentável. 

Isso quer dizer que a sra. defende a permanência do País no acordo?

Eu acredito nisso, sim.

Os sistemas de integração lavoura-pecuária ou integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) são vistos como importantes ferramentas para aliar o agronegócio à preservação do meio ambiente. Porém, a adesão no País ainda tem de avançar muito. Como fomentar o crescimento desses sistemas?

Primeiro, fazendo seminários e divulgando mais esses sistemas, mostrando que onde eles estão implantados, eles funcionam superbem e os produtores estão muito satisfeitos. O que precisa agora é facilitar um pouco, porque às vezes existe tanta burocracia para a adoção da tecnologia que as pessoas preferem deixar de lado. Há recursos, como os do Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono). Mas precisamos pensar em mais incentivos, talvez selos de qualidade, bonificações na hora de pegar o financiamento.

Mas a adesão ao crédito para o Plano ABC ainda é baixa.

É porque é muito difícil de pegar esse crédito. Há muita dificuldade de conseguir esse programa. Precisamos ver qual é o gargalo para que isso aconteça e possa ser aumentado. 

Como o Brasil deve atuar na conquista e manutenção de mercados externos no setor agropecuário?

A manutenção é fundamental. Sobre a conquista, estou trabalhando para dar um peso grande à Secretaria de Relações Internacionais, porque pretendo dar continuidade ao trabalho do ministro Blairo Maggi e trabalhar bem focada em quais são os mercados que queremos atingir. A confiabilidade do serviço agropecuário vamos ter de trabalhar bem e a imagem do Brasil também. Tanto é que já conversamos com o futuro chanceler, o embaixador Ernesto (Araújo), que nos procurou logo na sua primeira semana de indicado. A ideia é que a gente possa integrar mais a Agricultura com o Ministério de Relações Exteriores para que eles também nos ajudem na divulgação e na mudança da imagem do Brasil lá fora. Temos tanta coisa boa aqui e só se mostra lá fora o que é o ruim. Precisamos mudar isso. Outra coisa é estar sempre perto dos segmentos exportadores mostrando para eles o que é que estão querendo lá fora e o que temos de fazer aqui para dar a credibilidade que o Brasil precisa no exterior e incentivar a vinda de missões. Tenho um pedido de mais de dez embaixadas que querem nos visitar e isso mostra a importância do Brasil no agronegócio do mundo.

O que a sra. pretende fazer para proteger a renda do produtor? Se a guerra comercial entre Estados Unidos e China acabar, por exemplo, pode haver uma queda brusca de preços?

Temos de mostrar cada vez mais a qualidade do produto brasileiro. Precisamos abrir novos mercados, para não ficarmos na mão só de um grande comprador, como é o caso da China, que se de repente, dá alguma trombada, pode nos prejudicar. Precisamos prospectar e ainda há muita coisa para avançarmos.

Como a sra. pretende agir em relação à concentração de mercado que há hoje no Brasil no setor frigorífico?

Vamos ter de formular a política. Temos de incentivar financiamentos, linhas de crédito para os melhores, acho que você tem aí a inspeção estadual que, se bem implementada, pode trazer médias e pequenas plantas, principalmente os pequenos e o que precisamos é que também as plantas pequenas façam uma adequação para as regras internacionais para que elas estejam inseridas nesse mercado e para atender a outros países. A diluição da concentração é algo que o pecuarista tem pedido. 

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País é referência mundial em fontes renováveis

Com programa específico para combustíveis, o Renovabio, ideia é contribuir para redução de gases do efeito estufa

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2018 | 05h00

O Brasil é referência mundial na substituição de combustível fóssil por combustíveis renováveis, na forma de etanol e biodiesel. Nos primeiros nove meses de 2018, o etanol adicionado à gasolina e utilizado na frota flex do País substituiu 44,3% da gasolina. Em alguns Estados, como Mato Grosso, esse grau de substituição chega a 64,2%. Em São Paulo, que é o maior consumidor do ciclo Otto (gasolina mais etanol), a substituição alcançou 57,8% no período. Esses números, citados pelo presidente da consultoria Datagro, Plinio Nastari, revelam não só o potencial de economia de combustível fóssil no País como de redução de emissões de gases do efeito estufa – nas quais o insumo proveniente do petróleo é pródigo.

O setor de biocombustíveis dará uma contribuição enorme para o Brasil atingir as metas que se comprometeu a cumprir dentro do Acordo de Paris”, diz Nastari. Ele comenta, porém, que a execução do Plano Nacional de Biocombustíveis, o Renovabio, aprovado em 26 de dezembro de 2017 sob a lei 13.576, se dará “independentemente de o Brasil permanecer no acordo”. O Renovabio foi formulado pelo governo federal justamente por causa dos compromissos que o Brasil assumiu no acordo climático, de reduzir as emissões de gás carbônico nas áreas de energia e transportes. A meta, explica Nastari, é reduzir 10,1% a intensidade de emissão de carbono no setor de energia e transportes até 2028. Não se trata, porém, de adesão obrigatória das empresas ao Renovabio. “Não é mandatório”, diz Nastari. “É um programa que visa criar um ordenamento e uma previsibilidade para o setor, além de trazer maior competitividade para o segmento de biocombustíveis, pois o Renovabio visa estimular o aumento da eficiência energética e a redução do impacto ambiental.”

Com o novo programa, ele acredita que o etanol será um combustível cada vez mais sustentável. “De fato, ele já é o combustível mais sustentável do mundo e vai ficar cada vez mais eficiente do ponto de vista ambiental.” Para ele, é inevitável que o Brasil continue nessa “rota de sustentabilidade crescente”. “Mas é absolutamente indesejável que o Brasil abandone o Acordo do Clima porque já é o país mais ‘verde’ do mundo e o que tem melhores condições de se diferenciar nos quesitos de produção de alimentos e energia sustentáveis. Somos um grande exemplo no uso da terra e de água.”

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