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coluna

Carolina Bartunek: ESG, o que eu tenho a ver com isso?

'Pouco a pouco, os estímulos vão atenuar o sobe e desce dos mercados', diz economista

Para André Loes, da Kairós Capital, porém, recuperação mais consistente só virá com boas notícias do front médico sobre o coronavírus

Entrevista com

André Loes, economista da Kairós Capital

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 12h02

O economista André Loes, da Kairós Capital, acredita que um dos reflexos da crise atual será um relativo recuo da globalização - movimento que já vinha se intensificando com a guerra comercial entre Estados Unidos e China. “Acredito que possa haver um desejo de diminuição da dependência do comércio internacional e um maior questionamento sobre a globalização.” Para ele, esse é um processo de longo prazo. “Mas, se o mundo se engajar nele, pode haver sinais claros em cerca de 5 anos.”

Loes acredita que a crise atual terá tamanho semelhante a de 2008, com a diferença de que agora ninguém vai se safar. “Naquela época, o Brasil sofreu pouco e aquelas nações menos alavancadas também.” Na avaliação dele, por estar saindo de uma grave recessão, o País vai sofrer mais nesta crise. E a perda de receita das empresas pode ser um problema na retomada da economia, uma vez que afetaria o PIB potencial - crescimento sustentável sem pressão inflacionária. 

A seguir trechos da entrevista:

Num cenário tão conturbado como o atual, qual o efeito da queda promovida pelo Copom na taxa de juros esta semana?

Baixar o custo do dinheiro sempre tem efeito positivo sobre liquidez. Pouca gente tinha argumentos contra um corte. A discussão ficou mais no tamanho. Se a realidade passou a ser uma situação de lockdown no mundo inteiro e no Brasil, o hiato do produto vai abrir mais ainda, demorar muito mais tempo pra fechar e, com isso, a inflação vai ser menor do que se esperava. Aumentar a folga do ponto de vista do custo do dinheiro tende a fazer aumentar a liquidez no sistema em algum momento. Pode ser que outras questões, incertezas, façam com que não seja tão rápido o efeito, mas ele virá.

Como essa crise que estamos vivendo afetará os rumos da economia mundial?  

Acredito que essa crise provavelmente terá tamanho semelhante ao da crise de 2008. Claro que são crises com naturezas diferentes, mas quando estamos no olho do furacão achamos que nada mais será igual. Passamos por situação similar em 2008, e as coisas acabam voltando.  Eu não acredito que vá mudar tanto os rumos da economia no médio prazo, mas acredito num relativo recuo da globalização. Isso não será fruto somente do coronavírus. Já vinha ocorrendo, e a guerra comercial entre Estados Unidos e China e toda a questão da competição pela liderança tecnológica mundial são vetores relevantes dessa tendência. Acredito que possa haver um desejo de diminuição da dependência do comércio internacional e um maior questionamento sobre a globalização. Essa crise de saúde está fortemente alavancada pela globalização, pelo grande aumento das viagens internacionais nas últimas décadas, e deve contribuir para esse questionamento da globalização.

Quais os efeitos disso?

Desglobalização relativa leva a ambiente mais inflacionário. Um mundo que se fecha mais tende a perder e a ter preços mais altos. É um processo de longo prazo, mas se o mundo se engajar nele pode haver sinais claros em cerca de 5 anos.

Hoje, a incerteza em relação aos efeitos da epidemia na economia é o que está deixando o investidor desorientado?

Em 2008 também havia essa incerteza. Nos Estados Unidos, houve situações de empresas muito grandes tendo de ser nacionalizadas e moedas de países desenvolvidos apresentando variações de mais de 10% em um dia, como agora. A vida econômica do americano mudou muito naquele período. Não acho que agora seja pior do que em 2008, é comparável. A incerteza é maior agora em relação à doença, que é algo que nos atinge de maneira mais emocional.

Podemos viver uma quebradeira das empresas?

Sim, pode haver uma quebradeira relevante. Um ponto da crise atual é que não tem quem se safe. Em 2008 houve países que sofreram pouco, por estarem menos alavancados. O Brasil sofreu pouco. Foi uma recuperação em “v”. Agora, todo mundo vai sofrer parecido.

O fato de estamos saindo de uma crise profunda, com uma recuperação lenta, deixa o País numa situação pior?

Acredito que sim. Isso vai atrapalhar muito a retomada. Depois de alguns anos de uma economia que dificultou a melhora da saúde das empresas, você ser pego nessa situação é ruim. A questão da perda de receita é grave e pode afetar de maneira importante o médio prazo no Brasil - o curto prazo é horrível para todos os países, mas o Brasil vai sofrer também no médio prazo. Como a relação dívida/PIB limita gastos do governo, não podemos reproduzir a expansão fiscal de 3%, 4% do PIB que alguns países vêm anunciando. E, se as limitações ao suporte que pode ser dado pelo governo levarem a uma quebradeira relevante, impactaremos mais fortemente o PIB potencial, o que seria um problema na retomada.

As medidas que o governo tem tomado são suficientes?

Um pouco tímidas ainda. Além dos limites dados pelo alto nível da relação dívida/PIB, há o necessário processo de aprovação de exceção temporária na LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) para o teto de gastos ser excedido, etc... Mas o Tesouro está certo de passar isso para aprovação do Congresso.

A volatilidade do mercado vai continuar?

Os estímulos pouco a pouco vão atenuar a volatilidade. Enquanto não tem o lockdown é aquela incerteza, mas quando houver em quase todos os países relevantes, todo mundo já terá feito as contas e já se terá contabilizado quase todas as notícias ruins. Os estímulos estão vindo fortemente. Com menos notícias ruins, se olhará mais para os estímulos. Mas o mais importante é começarmos a ter notícias boas do front médico. Só isso fará os mercados melhorarem de maneira mais consistente.

Medidas anunciadas agora, como o complemento do salário dos empregados, por exemplo, são suficiente para amenizar a crise?

Somente mais um passo para reduzir as perdas de renda daqueles que, por motivo de força maior, terão suas jornadas reduzidas pelas empresas.

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