Poupador chinês resiste a se tornar consumidor

Sem Previdência nem serviços públicos de saúde e educação de qualidade, chineses estão condicionados a poupar em vez de gastar

Wendy Wu; Denise Chrispim Marin, especial para o 'Estado'

31 de maio de 2014 | 17h03

PEQUIM - Poupar é mais do que uma palavra-chave para o chinês regular. É questão de sobrevivência. Sem o cofrinho, não há acesso a saúde e educação de qualidade nem a aposentadoria ou pensão. O país onde o nível de poupança manteve-se acima de 46% do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos dez anos não foi capaz de prover sua população de 1,367 bilhão de habitantes com serviços públicos razoáveis nem com um sistema de Previdência Social, que somente agora começa a ser delineado.

Em protestos cada vez mais frequentes, os chineses cobram do governo esses direitos, que figuram nas reformas em curso. Nas últimas décadas, a carência desses serviços foi oportuna para encher os cofres dos bancos, que repassam os recursos dos poupadores às estatais e aos governos locais como crédito subsidiado. O governo terá de lidar com a queda desses recursos se quiser ver os chineses garantirem o crescimento da economia via consumo. Essa transformação, porém, não será fácil.

A corretora de seguros Li Xiaolin é considerada milionária, por seu patrimônio. Ela e o marido, o administrador de empresas Liu Xiangyu, são proprietários de dois apartamentos em Pequim e têm renda de 30 mil yuans (R$ 10,6 mil). Li tem acesso ao que quiser - dos produtos da Apple às bolsas de marcas famosas com o seu nome gravado, o mais novo objeto do desejo da classe média. Mas o casal economiza pensando no futuro de Yueyue, a filha de 18 meses. “Educação custa dinheiro. Boa educação custa ainda mais.”

O governo aboliu no começo deste ano a política do filho único, quando um dos pais não tem irmãos. Na prática, já era flexibilizada pelas famílias da zona rural e pelas mais pobres das cidades, ao custo de uma multa. Agricultora de Heibei, a viúva Shimei perdeu seu primogênito há mais de 20 anos. Se não tivesse outros três filhos, estaria abandonada. Analfabeta, 83 anos, ela mora com um deles no subúrbio de Pequim. Os três aportam à mãe 300 yuans (R$ 106) por mês, igual ao valor doado pelo governo. “É o suficiente.”

Shumei, como milhões de chineses que migraram do campo para as cidades, não pode usufruir os serviços médicos de Pequim. Teria de voltar a Heibei, onde foi emitido o seu hukou, para ser tratada. O hukou é uma espécie de passaporte com o qual o governo limita os movimentos dos cidadãos pelo país. O migrante sem permissão oficial não tem acesso aos serviços públicos no local. “Se eu realmente não me sinto bem, compro um remédio”, disse.

A migração desautorizada inflou novas e antigas cidades da China nos últimos 40 anos. Abrandar as regras do hukou está nos planos do governo, mas 47% da população vive na zona rural e anseia a melhor qualidade de vida dos centros urbanos. O Partido Comunista, porém, não incluiu nas reforma a criação de cidades médias entre o campo e as metrópoles.

Na entressafra, parte dos agricultores migra para as cidades em busca de trabalho. Zhu Xinjun comprou uma marmita de alumínio ao desembarcar em meados de maio em Pequim, onde trabalharia na construção civil em troca de 5 mil yuans (R$ 1.775) por mês, descontados alojamento e refeições. Ele viera de Pingquan, a 317 km da capital chinesa. “É um bom negócio”, explicou Zhu, que poupa metade da renda para a chegada do primeiro neto.

“Eu levo todo o meu dinheiro para casa. Tenho de guardar para os imprevistos e até para cumprir nosso costume de dar dinheiro aos que se casam”, comentou o agricultor.

A poupança é igualmente fonte de recursos para pequenos negócios, raramente subsidiados pelos bancos. Han Yuchuan nasceu cego em Gaoyi (Hebei) há 30 anos, numa família de agricultores. Aprendeu as técnicas de massagem tradicional e, aos 18 anos, embarcou para Pequim com 4 yuans (R$ 1,43) no bolso. Trabalhou como massagista por 500 yuans (R$ 177,55) mensais, acomodação e refeições até 2008, quando abriu sua empresa.

Graças a suas economias, hoje ele tem dois negócios de massagem em Pequim, com dez empregados, está casado e tem um apartamento em Shijiazhuang, a 320 km de Pequim. Mas prefere manter a mulher e seu bebê recém-nascido em Shijiazhuang e dormir em uma maca de massagem para evitar os gastos com aluguel. “Um terço do meu dinheiro vai para a poupança”, afirmou Han. “Quero muito morar em outro país um dia, para abrir os meus olhos para o mundo.”

Poluição ameaça o futuro. Shimei, Li, Han e Zhu e mais 20,7 milhões de habitantes de Pequim respiram o ar altamente contaminado. A poluição atmosférica e das águas na China traz um risco inegável para os planos do regime comunista de dar um novo salto econômico. O “argedon” - combinação das palavras ar e armagedon - está na lista de possíveis empecilhos ao salto qualitativo da economia chinesa.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a poluição do ar causou 471 mil mortes na China em 2008. A população tenta reduzir sua exposição ao ar contaminado usando máscaras nas ruas. Como crítica, alguns bem-humorados vendem garrafinhas de ar puro.

Relatório do Banco de Desenvolvimento da Ásia concluiu que menos de 1% das cidades se adequa aos padrões de qualidade do ar da OMS. Sete delas estão entre as dez mais poluídas do mundo. Cerca de 90% das cidades têm suas fontes de água poluídas. Em dois terços delas, o nível é de severa contaminação.

O outro risco às pretensões da China está nas regras sanitárias precárias para o setor alimentício. Entre granjas e galinheiros, a China tem 13 bilhões de aves - mais de nove vezes seu total de habitantes. Há ainda 723 milhões de porcos no país. As criações domésticas e de pequenos produtores, sem a fiscalização necessária, podem ser fonte de novas enfermidades, como foram as gripes aviária e suína, surgidas em outros países. Em 2008, a China sofreu um dos piores casos de contaminação, o da fórmula de leite em 2008, que matou quatro crianças e adoentou outras 53 mil.

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