Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Poupança tem novo saque recorde e já perde R$ 53,7 bilhões no ano

Só no mês de setembro, as retiradas da caderneta superaram os depósitos em R$ 5,3 bilhões, o maior volume em 20 anos

Célia Froufe, O Estado de S. Paulo

06 de outubro de 2015 | 15h11

A quantia de saques da poupança superou a de depósitos em R$ 5,293 bilhões em setembro, segundo dados divulgados pelo Banco Central. No ano até o mês passado, o total resgatado dessa aplicação foi de R$ 53,791 bilhões. Nos dois casos, tratam-se dos maiores volumes de retiradas dos últimos 20 anos para os períodos, desde quando a instituição começou a compilar as informações disponíveis até hoje, em 1995.

Com a disparada da inflação em 2015, o caderneta de poupança deve ter a primeira perda real desde 2002Isso significa que quem deixar o dinheiro parado na poupança contabilizará um rendimento tão baixo ao fim do ano que não será capaz de ganhar nem mesmo repor a alta dos preços.

Até então, o pior setembro para a caderneta havia sido em 2000. Na ocasião, o resultado ficou negativo em R$ 1,851 bilhão. O resultado deste ano até agora também é significativo: pela primeira vez desde 2003 se vê um volume de resgates maior do que o de aplicações em todos os meses de um ano de janeiro a setembro.

Com o resultado de setembro, o saldo total da poupança ficou em R$ 644,048 bilhões, já incluindo os rendimentos do período, no valor de R$ 4,225 bilhões. Os depósitos na caderneta somaram R$ 158,178 bilhões no mês passado, enquanto as retiradas foram de R$ 163,471 bilhões.

A situação de setembro só não foi pior porque, no último dia do mês, a quantidade de aplicações foi R$ 4,165 bilhões maior do que o das retiradas. Até o dia 29, o saldo da caderneta estava no vermelho em R$ 9,458 bilhões. É comum ocorrer um aumento dos depósitos no último dia de cada mês por conta de aplicações programadas já por investidores com seus próprios bancos.

"Novos investidores". Na quinta-feira passada, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Anthero Meirelles, disse haver evidências de que boa parte dos saques de poupança vistos desde o início do ano é de um grupo considerado como "novos investidores", que tinham escolhido a caderneta no passado como uma forma de aplicação em um momento de maior rentabilidade da poupança.

"Os saques recentes da poupança não mudam sua perspectiva de que se trata de um funding bastante estável", afirmou o diretor. "O depósito de poupança é estável tradicionalmente. Mesmo quando há migração, o depósito de poupança - mais a rentabilidade - tem estabilidade grande historicamente, mesmo em momentos de alta de juros. É muito estável", reforçou.

Remuneração. Essa fuga da poupança tem ocorrido, entre outros motivos, porque, com a recessão econômica, sobram menos recursos dos trabalhadores para investimentos. Além disso, com um cenário de juros e dólar altos, outros investimentos tornam-se mais atrativos. A remuneração da poupança é formada por uma taxa fixa de 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR) - esse cálculo vale para quando a taxa básica de juros (Selic), atualmente está em 14,25% ao ano, está acima de 8,5% ao ano.

Por conta dessa sangria na poupança vista desde o início do ano, o setor imobiliário passou a reclamar de falta de recursos para financiamentos de casas e apartamentos. Para minimizar esse quadro, o BC decidiu, em maio, liberar os bancos para usar R$ 22,5 bilhões dos depósitos da poupança que são obrigados a manter na instituição para desembolsos nas operações de financiamento habitacional e rural. 

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