Praias italianas sem a 'dolce vita'

Afetados pela crise econômica, os italianos estão trocando as praias tradicionais por Roma no verão

ELISABETTA, POVOLEDO, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2012 | 03h09

Artigo

Para muitos romanos, as cidades litorâneas foram durante muito tempo uma arena de rituais de verão, onde multidões de crianças construíam frágeis castelos de areia cor de fuligem, pais cochilavam em grupos, e resorts ferviam com hordas de veranistas bronzeados. Não este ano.

Mesmo agora, no auge do verão europeu, cadeiras repousam abandonadas sob os guarda-sóis coloridos. Onde antes havia listas de espera para as cabines de praia, agora há vagas. Apesar de seus nomes caprichosos - il Corallo (o coral), il Delfino (o golfinho), l'Oasi (o oásis) -, as dezenas de balneários que serviram como um refúgio sazonal para gerações de romanos não conseguiram escapar aos tempos duros.

Com pouco dinheiro após uma série de medidas de austeridade aprovadas pelo governo, e preocupados com seu futuro num momento de incerteza financeira, a maioria dos romanos está optando a contragosto por passar o verão na cidade, apesar de essa praia ficar a meros 25 quilômetros da capital. "Roma pode estar perto, mas a gasolina é cara, por isso as pessoas pensam duas vezes antes de sair para a praia", disse Susanna Corti, a dona da La Vela, um dos balneários.

Os romanos costumavam correr para Ostia durante os dias de semana escaldantes de agosto, mas agora eles tendem a se concentrar nos fins de semana, disse ela, acrescentando: "As pessoas estão sentido muito a crise."

A Associação dos Hoteleiros Italianos informou que cinco em cada 10 italianos ficariam em casa neste verão, e que o número de italianos que está tirando férias cairá cerca de 19% neste ano.

Quase 52% dos entrevistados citaram condições financeiras pessoais pioradas como a principal razão para não tirar férias, segundo a associação. "Nunca houve uma queda tão drástica e generalizada de que se tenha memória", disse o presidente da associação, Bernabò Bocca. Embora estejam longe os dias em que fábricas, escritórios e lojas italianas fechavam as portas durante o mês de agosto obrigando os italianos a tirar férias em massa, a maioria dos italianos ainda prefere sair de férias durante o verão. De modo que os números indicavam uma tendência geral, disse ele.

Renato Papagni, dono da Le Dune, um dos maiores estabelecimentos em Ostia e presidente nacional da Assobalneari, uma associação de balneários, disse que alguns pontos do litoral foram mais atingidos que outros. Mas a queda está sendo sentida em toda parte. O turismo na Sardenha caiu 30% até agora neste ano, segundo cálculos da associação, por consequência, talvez, do custo de chegar à ilha. Algumas partes da Campânia também enfrentam dificuldades, assim como a costa adriática da Itália, apesar de campanhas para atrair turistas.

"No geral, o declínio do litoral neste ano tem estado em torno de 10 a 12%", disse Papagni.

Em Ostia, ele e outros disseram, mesmo os que aparecem estão regulando os gastos, aprofundando uma tendência dos últimos anos. As cabines de praia geralmente são alugadas para a temporada inteira, que vai de 1.º de maio a 30 de setembro, por cerca de 3 mil (US$ 3.700). Neste ano, ainda há cabines disponíveis mesmo com preços reduzidos. Mais famílias as estão dividindo.

Até este ano, Daniela, que trabalha como cozinheira numa cantina escolar e não quis dar seu sobrenome, costumava ir à praia na Croácia durante o verão. Agora que seus impostos - e despesas - aumentaram, ela decidiu pegar um bronzeado ocasional numa praia aberta de Ostia.

"Com toda a conversa na mídia sobre a crise, as pessoas estão pensando duas vezes sobre as suas férias", disse ela. "Elas têm medo de gastar dinheiro porque ninguém sabe quando a crise vai terminar."

O restaurante em La Playa em Ostia costumava ser o principal atrativo do balneário, disse Angelo Radano, um dos gerentes do resort. Agora, os visitantes trazem comidas embalada ou optam por lanches baratos em vez de refeições completas a beira-mar.

O restaurante está "inativo", disse Radano, e os clientes preferem o bar self-service. As pessoas simplesmente não têm muita renda disponível. "Se você ficar ordenhando a mesma vaca por muito tempo", ele lamentou, "cedo ou tarde ela vai secar."

Mesmos os legisladores italianos - entre os mais bem pagos da Europa - estão diminuindo seus dias de folga: o Parlamento entrou em recesso para o verão em 8 de agosto e reabrirá para a Câmara Baixa em 3 de setembro e para o Senado um dia depois. Segundo noticiários italianos, as férias mais curtas em cinco anos.

A tendência a ficar em casa é tão pronunciada que de origem a um vídeo musical, chamado "Resto a Roma" (Fico em Roma), produzido pela Radio Globo, uma estação em Roma, que imita o vídeo oficial da UEFA Euro 2012, Endless Summer, da cantora Oceana. Ele recebeu 840 mil visitas online desde que foi lançado em julho. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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