Pré-sal deve ficar para 2018, com petróleo em baixa

Para Adriano Pires, do CBI, Brasil perdeu oportunidade de investimentos ao retirar blocos de leilão em 2007

Giuliana Vallone, do estadao.com.br,

29 de outubro de 2008 | 08h02

A atual cotação do petróleo no mercado internacional - entre US$ 60 e US$ 70 o barril - pode atrasar a exploração das reservas pré-sal no País. A opinião é do presidente do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBI), Adriano Pires. De acordo com ele, o Brasil perdeu uma grande oportunidade em 2007 ao retirar dos leilões da ANP os blocos do pré-sal, o que garantiria, hoje em dia, investimentos no País para enfrentar a crise financeira.  Veja também:Ouça a entrevista com Adriano PiresEntenda a queda nos preços do petróleo e suas conseqüênciasO caminho até o pré-sal Veja os reflexos da crise financeira em todo o mundoVeja os primeiros indicadores da crise financeira no BrasilLições de 29Como o mundo reage à crise  Dicionário da crise  Em entrevista ao estadao.com.br, Pires afirmou também que não acredita que o corte de 1,5 milhão de barris por dia na produção da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) vá causar algum efeito nos preços da commodity neste momento, até porque, disse, o cartel age melhor em momentos de alta das cotações. Leia a íntegra da entrevista: Os preços do petróleo têm oscilado entre US$ 60 e US$ 65 nos últimos dias, prejudicados pela queda na demanda mundial e pela crise financeira. Com essa cotação, como ficam os investimentos no pré-sal brasileiro? Olha, os investimentos ficam mais difíceis. Apesar do governo e a própria Petrobras declararem que o preço que viabiliza a exploração está em torno de US$ 40, US$ 50 o barril, o petróleo no intervalo de US$ 60, US$ 70 vai criar mais dificuldades para que essa exploração tenha rentabilidade.  Além do mais, a gente está vivendo uma crise de liquidez no mercado financeiro internacional, e a profundidade dessa crise ninguém sabe dizer, nem as conseqüências que ela terá. Então tudo isso pode fazer com que os investimentos sejam diferidos no tempo. É evidente que o petróleo vai continuar existindo. Agora, pode ser que, ao invés do primeiro milhão de barris ser retirado em 2015, como antes se previa, isso seja feito mais tarde, em 2018, 2020.  Alguns analistas apontam o pré-sal como a esperança de investimentos no Brasil em 2009, que deve ser um ano de menor atividade e recursos em todo o mundo. Você concorda com essa visão? Eu não acredito, não. Eu acho que a perspectiva para 2009 é que o mundo tenha crescimento negativo, em particular a economia americana e da Europa. O grande volume de investimentos no pré-sal vai se dar a partir de 2010. Então, o que eu imagino é que a Petrobras, quando divulgar o plano de investimentos dela - agora na primeira semana de dezembro -, deve apresentar corte de recursos nas refinarias, no Comperj (Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro), nos investimentos externos.  E vai haver uma tentativa de manter os investimentos no pré-sal, aguardando como o preço vai se comportar em 2009. Caso o preço fique nesse patamar, de US$ 65, US$ 70 em 2009, ela deve diferir esses investimentos no tempo. Então eu acho que 2009 vai ser um ano muito complicado. O Brasil perdeu uma grande oportunidade quando o governo em 2007 retirou do leilão da Agência Nacional de Petróleo (ANP) os 41 blocos do pré-sal. Naquele momento, o petróleo estava a mais de US$ 100 e com viés de alta. Então era possível ter arrecadado recursos gigantescos, na faixa de R$ 30, R$ 40 bilhões em bônus de assinatura, o que ajudaria muito a passar por esse momento de crise. Além do mais, você teria comprometido uma série de empresas privadas nacionais e estrangeiras com investimentos no pré-sal, o chamado investimento no programa exploratório mínimo. Então, aí sim, o petróleo poderia ser o setor que nos daria um certo conforto para atravessar a crise. Isso não foi feito, ficou-se com aquelas bobagens de falar que era estratégico, que o governo ia resolver todos os problemas brasileiros com o pré-sal, e eu acho que uma oportunidade igual àquela a gente não vai ter tão cedo. Qual o impacto do corte de 1,5 milhão de barris por dia na produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) para a economia mundial?  Eu acho que no momento não vai afetar em nada, os preços vão continuar caindo. A gente tem que entender que hoje o comportamento do preço do petróleo é explicado, basicamente, por esse estado de pânico em que está a economia mundial. Então, enquanto estiver esse estado de pânico, qualquer medida racional que você tomar, como um corte na oferta da Opep não vai fazer efeito.  Além do mais, a gente tem que entender que a Opep funciona muito bem quando o preço está em alta. Quando o preço está em baixa, ele já não se comporta tão bem, porque os países membros tem realidades políticas e compromissos sociais e econômicos muito diferentes entre si. Uma coisa é a gente falar da Arábia Saudita, outra coisa é falar de Venezuela. Então, na verdade, esse cartel não funciona bem no período de baixa porque apesar de se acordarem cotas de corte na produção, os países que precisam mais das receitas do petróleo, como a Venezuela e os países africanos, acabam, por baixo do pano, não cumprindo com o que é determinado. Há algum setor da economia mundial que é beneficiado pela queda? A queda do petróleo acaba sendo também um indicador de uma certa recuperação econômica. Parece contraditório, mas deixa eu explicar. O petróleo chegou àquele número absurdo de quase US$ 150 o barril, e, naquela época, ele pressionava muito a inflação e provocava grandes déficits em balanças comerciais de países como os Estados Unidos.  À medida que esse preço cai, essa pressão inflacionaria diminui muito, porque o petróleo é ainda o principal insumo da economia mundial, e esses déficits comerciais também diminuem. Então é um primeiro arranjo que acontece, em uma crise como essa, pra depois você tentar recuperar a economia mais à frente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.