Precisamos comer terra

Temos de entender que só é possível mudar o Brasil saindo de nossa zona de conforto

Bernard Appy, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2017 | 05h00

Começo minha última coluna do ano com um poema de Manuel Bandeira, um poema sobre a paixão em sua forma mais pura.

Estrela da Manhã

Eu quero a estrela da manhã

Onde está a estrela da manhã?

Meus amigos meus inimigos

Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua

Desapareceu com quem?

Procurem por toda parte

Digam que sou um homem sem orgulho

Um homem que aceita tudo

Que me importa?

Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites

Fui assassino e suicida

Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal sexuada

Atribuladora dos aflitos

Girafa de duas cabeças

Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros

Pecai com os sargentos

Pecai com os fuzileiros navais

Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos

Com o padre e com o sacristão

Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas 

cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples

Que tu desfalecerás

Procurem por toda parte

Pura ou degradada até a última baixeza

Eu quero a estrela da manhã.

Tem sido difícil ser brasileiro nos últimos tempos, mas o desânimo não é uma solução. Só com paixão conseguiremos sair desta enrascada. Mas paixão não é radicalização. Não é nos apegando aos nossos preconceitos e privilégios – e rejeitando todas as ideias diferentes das nossas – que encontraremos a estrela da manhã.

A única forma de mudar o Brasil é comendo um pouco de terra. É entendendo que teremos, todos, de ceder um pouco para que tenhamos um país mais justo, produtivo, equilibrado e em que a lei valha para todos.

Precisamos entender que o mercado não resolve tudo nem é capaz de reduzir as desigualdades sociais, mas que o Estado tem limites e não pode prover tudo para todos.

Entender que nós, que somos mais ricos que a maioria da população brasileira, teremos de perder um pouco para que tenhamos um país onde todos tenham oportunidades. Que teremos de nos aposentar um pouco mais tarde para que nossos filhos e netos também possam se aposentar.

Precisamos entender que é bom que haja competição em todos os mercados, principalmente no nosso. Que um país justo pressupõe regras iguais para todos, dos direitos civis à tributação, passando pela Previdência. Que políticas sociais são importantes, mas que equilíbrio fiscal, aumento da produtividade e eficiência no gasto público também são.

Entender que o País só pode crescer com regras claras e estáveis. Que ricos devem pagar mais impostos que pobres. Que excesso de discricionariedade na concessão de benefícios com recursos públicos é uma porta aberta para a corrupção. Que o Brasil não está isolado do mundo, o que limita o que podemos fazer. Que privilégios financiados com dinheiro público são uma forma de apropriação privada de recursos que deveriam beneficiar toda a sociedade.

Temos de entender que só é possível combater a corrupção se todos estiverem sujeitos às mesmas regras, a começar pelos políticos. Que a política é importante e nossos votos também. Que somos responsáveis por nossas escolhas e que não podemos nos isentar do que ocorre em Brasília.

Precisamos entender que só é possível mudar o Brasil saindo de nossa zona de conforto. Que apenas ouvindo os outros conseguiremos encontrar uma saída. Que, se resistirmos a reavaliar nossos privilégios e nossos preconceitos, dificilmente avançaremos. Que só com paixão e esforço conseguiremos melhorar nosso país e que para encontrar a estrela da manhã vale tudo, menos orgulho e indiferença.

DIRETOR DO CENTRO DE CIDADANIA FISCAL

Mais conteúdo sobre:
Manuel Bandeira corrupção

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.