finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

'Precisamos de crescimento inclusivo'

Para El-Erian, sinal de superação da crise virá quando mundo crescer de forma inclusiva, sustentável e forte

Entrevista com

DENISE CHRISPIM MARIN, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h16

O "novo normal" da economia mundial, passados cinco anos do colapso do Lehman Brothers, não deixa de ser menos temerário. Nesse novo cenário, o crescimento mundial é muito lento e é minado por "instrumentos imperfeitos" adotados por bancos centrais de países ricos. Os países emergentes, entre os quais o Brasil, são agora vítimas potenciais dessa situação.

O autor desse conceito é o economista Mohamed El-Erian, presidente da companhia de investimentos Pimco, uma das maiores administradoras de recursos do mundo, com aplicações de US$ 2 trilhões. El-Erian, que escreve a cada dois meses para o Estado, diz que o Brasil deve ser afetado pela retirada de estímulos à economia pelo Fed, o banco central americano.

"Felizmente, o Brasil construiu as próprias redes de proteção, seja o alto nível de reservas internacionais ou a melhoria da estrutura de sua dívida", afirmou El-Erian, ao antever a reversão do intenso fluxo de capitais direcionado ao País nos últimos cinco anos quando os estímulos começarem a ser reduzidos. "As redes de proteção podem reduzir os efeitos colaterais vindos dos países avançados. Mas não vão eliminá-los." A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

Oito meses depois do colapso do Lehman Brothers, o sr. criou o conceito "novo normal" para expressar a realidade enfrentada pelas economias avançadas (baixo crescimento, alto desemprego, endividamento) e pelos emergentes, que puderam crescer mais rápido e evitar o contágio. Cinco anos depois, qual é o "novo normal"?

O conceito foi uma tentativa de indicar que a economia mundial não se recuperaria da crise financeira como nas crises anteriores. O crescimento e a geração de empregos seriam frustrantes e extraordinariamente lentos nas economias avançadas, e as economias emergentes se tornariam os maiores contribuintes para o crescimento mundial. Infelizmente, os países avançados não incorporaram com rapidez as lições políticas e as implicações do novo normal. Em vez de buscarem com insistência as políticas de crescimento, preferiram adotar soluções parciais e confiar demais em medidas experimentais dos bancos centrais. Como o crescimento e o emprego continuam a frustrar, o novo normal alimenta a polarização política, a desigualdade de renda e, em alguns lugares, o descontentamento social. Isso força os bancos centrais a se aventurarem ainda mais no terreno das políticas não convencionais, com uma compreensão parcial de suas potenciais consequências. As economias avançadas estão agora lidando com algumas dessas consequências, e os efeitos delas nos emergentes têm sido perturbadores algumas vezes.

Em recente artigo, o sr. mencionou, com preocupação, a hiperatividade dos bancos centrais e a passividade dos governos desde 2008. Quais os riscos desse quadro?

Como tentativa de estimular o crescimento e o emprego, os bancos centrais não tiveram escolha senão transitar pelos mercados financeiros usando instrumentos imperfeitos de política. Eles inseriram uma cunha para elevar os preços dos ativos financeiros acima dos fundamentos morosos da economia. Não o fizeram como um fim em si mesmo, mas como um meio de gerar um efeito de riqueza e animar os espíritos. Com isso, esperavam contribuir para o aumento do consumo e dos investimentos. Mas, quanto mais os fundamentos continuam lentos, maior o risco de danos colaterais desses instrumentos. Entre eles, a alocação equivocada de recursos, causada pela precificação artificial dos ativos, a exposição a riscos excessivos e o funcionamento ruim dos sinais de mercado.

Pode-se incluir os três afrouxamentos quantitativos (QEs, injeção de recursos no mercado) adotados pelo Federal Reserve desde 2008 entre os "instrumentos imperfeitos de política"?

Sim. Como uma ilustração, considere dois aspectos bastante perspicazes relacionados com as expectativas. Primeiro, toda vez que o Fed pensou ser possível sair do QE, em 2011 e 2012, acabou anunciando mais um QE. Segundo, os resultados econômicos dos QEs têm ficado consistentemente abaixo das próprias expectativas do Fed.

O Fed indicou a possível eliminação do QE3 antes de meados de 2014. A economia americana está preparada para isso? Essa eliminação pode causar mais danos para os emergentes, como o Brasil, onde o primeiro sinal disparado pelo Fed provocou forte pressão na taxa de câmbio?

A economia dos EUA ainda não alcançou a velocidade de arranque esperada pelo Fed e por muitos outros. Mesmo assim, é provável que o Fed comece a reduzir o volume mensal de recursos para a compra de títulos lastreados na dívida hipotecária ainda este mês. Ou seja, o Fed vai pisar menos fundo no acelerador. E vai fazê-lo porque também está preocupado com as consequências negativas do próprio QE. Os mercados tomam essa possibilidade como sinal da redução da vontade e da habilidade do Fed em apoiar os preços artificiais dos ativos. O resultado é uma reversão do fluxo de ativos, arrebentando países, como o Brasil.

Pode-se dizer que, se a crise impactou fortemente as economias dos EUA e da Europa em seus primeiros anos, agora está se movendo para os países emergentes? O Brasil está entre as economias mais vulneráveis?

As economias emergentes estão agora lidando com as consequências não intencionais das políticas monetárias experimentais adotadas pelos países avançados. A vulnerabilidade do Brasil se deve ao fato de, inadvertidamente, ter sido importante destino de um grande volume de capital expelido pelas economias avançadas. Felizmente, o Brasil construiu as próprias redes de proteção, seja o alto nível de reservas internacionais ou a melhoria da estrutura de sua dívida soberana. Esses elementos podem reduzir os efeitos colaterais vindos dos países avançados. Mas não vão eliminá-los.

Por quanto tempo ainda a crise de 2008 continuará a causar danos para a economia mundial? Qual seria um sinal de total superação?

Uma palavra: crescimento! O mundo precisa desesperadamente de crescimento, mas não de qualquer crescimento. Precisa de crescimento forte, sustentável, bem equilibrado e, especialmente, que seja socialmente inclusivo.

Depois do colapso do Lehman Brothers, das regras de Basileia 3, do socorro dos governos aos bancos e da nova lei regulação financeira nos EUA, os bancos ocidentais podem ser vistos como instituições mais sólidas ou ainda estão vulneráveis a ramificações da crise de 2008?

Um progresso enorme foi feito nos Estados Unidos, onde os bancos têm acumulado reservas maiores de capital, melhorado a qualidade de seus ativos e começado a mudar comportamentos internos tidos como prejudiciais. A Europa está menos avançada nesse processo, embora seu esforço tenha visivelmente ganhado maior ímpeto. Há também progresso na coordenação mundial sobre regulação e supervisão prudencial, apesar da inclinação de alguns países em buscar um enfoque excessivamente doméstico.

Antes do colapso do Lehman Brothers, costuma-se dizer que algumas instituições eram grandes demais para falir. Depois, vários economistas criticaram a omissão do governo americano, que optou por não avalizar a última alternativa à falência do Lehman. Pode-se dizer que, hoje, os governos não devem permitir a quebra de grandes instituições?

Em teoria, sim. Na prática, ainda está por ser testado. A questão mais imediata vem de sinais crescentes de que algumas instituições podem ter se tornado grandes demais para serem bem administradas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.