'Precisamos de mais Europa, não menos'

Schaeuble defende união fiscal e bancária dos países da zona do euro, mas se mantém contrário aos eurobonds

Entrevista com

SVEN BÖLL, KONSTANTIN VON HAMMERSTEIN, DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2012 | 03h01

O ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, acredita que somente o aprofundamento da integração na União Europeia pode salvar o euro. A Spiegel conversou com ele. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A União Europeia está atolada na pior crise de sua história, e o euro corre o risco de ser feito em pedaços. O que está em jogo?

Nossa prosperidade. Com a economia globalizada, o mundo está se transformando num ritmo acelerado. Aqueles que querem acompanhar esse ritmo não podem fazê-lo sozinhos. Nossos esforços só terão resultado se houver a colaboração entre os outros países europeus e a moeda comum europeia. Caso contrário, ficaremos para trás, o que levaria a uma perda de prosperidade e segurança social.

Será que a UE é capaz de sobreviver a um colapso da união monetária?

É certamente real o risco de, no caso de um colapso do euro - coisa que, por sinal, não creio que vá ocorrer -, boa parte daquilo que conquistamos e aprendemos a estimar seria alvo de questionamento, do mercado doméstico comum à liberdade de viagem na Europa. Mas um colapso da UE seria absurdo. O mundo está avançando no sentido de uma integração cada vez maior e, enquanto isso, falamos na possibilidade de cada país europeu seguir o próprio rumo? Isso não deve, não pode e não vai ocorrer!

A criação do euro foi um erro?

Não. A união monetária foi a consequência do avanço da integração política da Europa.

Ainda assim, o euro parece ter nascido morto. A união fiscal necessária não estava presente.

É bobagem dizer que a moeda nasceu morta. Mas é claro que desejávamos uma união política na época, algo que não foi possível. A Alemanha estava preparada para delegar poderes a Bruxelas, pois foi somente graças à Europa que recebemos uma nova chance após a 2.ª Guerra. Mas outros países enfrentaram problemas com essa ideia, seja por causa de tradições especiais ou por terem recuperado apenas recentemente sua autonomia nacional. Assim, enfrentávamos uma questão fundamental: introduzir o euro na ausência da união política necessária, supondo que o euro pudesse nos aproximar mais, ou abandonar a ideia?

Naquele momento, optou-se por correr o risco.

Se tivéssemos dito sempre que só adotaríamos passos no sentido de uma integração mais profunda se esses funcionassem perfeitamente desde o início, jamais teríamos avançado nem uma fração do que avançamos. Por isso, quisemos introduzir o euro primeiro e, a seguir, tomar as decisões necessárias para a união política. O primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, estava certo quando disse, à época, que o euro se revelaria o pai dos desenvolvimentos futuros na Europa.

Mas, enquanto esse futuro não chega, a moeda possui principalmente o poder da destruição.

Isso é um exagero. A Europa sempre funcionou com base em dois princípios: aquilo que inicialmente não é possível vai ocorrer com o passar do tempo, e aquilo que não funciona será corrigido com o tempo. É por isso que as soluções perfeitas demoram tanto na Europa. E é por isso que estamos aperfeiçoando agora a arquitetura da união monetária.

Soa quase como se o sr. estivesse esperando pela crise para poder finalmente corrigir os defeitos de nascença do euro.

Ora, a situação não é tão ruim, principalmente porque não tenho nenhuma propensão ao desespero nem à resignação. Mas quanto mais as pessoas tiverem a consciência daquilo que está em jogo, mais dispostas elas se mostrarão no sentido de optar pelas consequências certas.

Quais as consequências que a Europa precisa escolher agora?

Precisamos de mais Europa, e não menos.

O sr. é um defensor da teoria da bicicleta: quem fica parado cai no chão. Mas também parece sugerir que o projeto é instável.

Peço licença, mas o desejo de melhorar é uma condição básica da existência humana. Em 'Fausto', Goethe escreve: "Aperto mais: Se me chegar momento a que eu diga: 'Demora-te! És formoso', então aos teus grilhões entrego os pulsos; então a morte aceito". É assim que as coisas são.

O apelo por uma maior integração na Europa já está se tornando um clássico, como 'Fausto'.

Talvez, mas isto não significa que o apelo esteja errado. Infelizmente, a Europa é complicada e suas estruturas são de tal forma que inspiram pouca confiança nos mercados financeiros e nas pessoas.

Como o sr. pretende corrigir este déficit?

Até o momento, os países-membros quase sempre tiveram a palavra final na Europa. Isto não pode continuar. Nas principais áreas políticas, temos de transferir mais poder a Bruxelas, de modo que os países individuais não possam vetar as decisões.

O sr. deseja algo nos moldes dos Estados Unidos da Europa.

Não, a Europa do futuro não será um Estado federal com base no modelo dos Estados Unidos da América nem da República Federal da Alemanha. Ela terá sua estrutura própria. Trata-se de um empreendimento extremamente animador.

Isto soa como um novo experimento, semelhante à introdução do euro. Ainda assim, o sr. defende a transferência do máximo poder possível à Europa?

Não, nós não devemos e jamais poderemos tomar decisões na Europa que se apliquem de maneira uniforme a todos. A força da Europa reside precisamente na sua diversidade. Mas, numa união monetária, há coisas que são feitas com mais eficácia no nível europeu.

Quais, por exemplo?

O mais importante é a criação de uma união fiscal na qual os Estados-nação abram mão de sua jurisdição em termos de política fiscal. Além disso, os problemas das instituições financeiras espanholas revelam mais uma vez que a Europa estaria melhor se tivesse uma união bancária. Precisamos de uma autoridade supervisora europeia, ao menos para os principais credores.

Durante meses, a Alemanha vem sendo pressionada para concordar com a ideia de obrigações conjuntas chamadas de eurobonds. Colaborar com os anseios dos demais países seria visto como gesto de confiança.

Enquanto não houver união fiscal, não poderemos assumir a responsabilidade conjunta pelas dívidas.

Por que o sr. é tão avesso a fazer concessões nesse tema?

Porque não podemos separar a responsabilidade pelas decisões da responsabilidade pela dívida. Isso se aplica a quase todas as áreas, mas especialmente ao dinheiro. Ninguém hesita diante da possibilidade de gastar dinheiro às custas de outrem. É isso que qualquer um de nós faria. Os mercados sabem disso. É por isso que, no fim, eles também teriam dificuldade em confiar nos eurobônus.

Como deveria ser a união fiscal para que a Alemanha pudesse aceitar os eurobônus?

Num cenário ideal, teríamos um ministro europeu de Finanças, que teria poder de veto sobre os orçamentos nacionais e também o poder de aprovar novos níveis de crédito. Caberia a cada país decidir como seriam gastos os recursos aprovados, ou seja, como responder à pergunta: "Devemos gastar mais com as famílias ou com a construção de estradas?".

E o sr. acha mesmo que isto poderia funcionar?

Tem funcionado há muito tempo nas políticas de concorrência. Quando o atual primeiro-ministro italiano, Mario Monti, era comissário de concorrência da UE, ele enfrentou com sucesso corporações internacionais, como a Microsoft. Um ministro europeu de Finanças poderia, se necessário, ser obrigado a enfrentar a Itália, por exemplo.

Ou a Alemanha. Suponhamos que o ministro em Bruxelas rejeitasse seu orçamento. Os alemães ficariam indignados.

É claro que existe o risco de reações nacionais, e é por isso que tudo isso exige um debate intenso. Mas outra coisa também é clara: aqueles que desejam uma Europa forte devem também estar dispostos a transferir as decisões a Bruxelas.

Além da política fiscal, há outras áreas que deveriam passar para o nível europeu?

Na globalização, é imperativo que a política econômica faça parte disso. Há também um número grande de competências nacionais nas políticas externas e de segurança. A Europa deveria se comunicar com o mundo numa única voz, mais clara e eficaz. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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