'Precisamos de novo estímulo monetário', diz braço direito do primeiro-ministro do Japão

Conselheiro de Shinzo Abe espera a medida para o início de maio ou de agosto e a reativação de usinas elétricas nucleares

Entrevista com

Denise Chrispim Marin, enviada especial a Tóquio, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2014 | 02h06

O sucesso da política econômica do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, dependerá de maior agressividade do próprio governo e do Banco do Japão. Considerado o braço direito de Abe no governo, o economista Etsuro Honda prevê o anúncio de uma nova rodada de ajuste quantitativo (programa de injeção de recursos no mercado) no início de maio ou de agosto, como meio necessário para neutralizar o impacto do aumento do imposto sobre consumo na atividade a partir de abril.

Em entrevista ao Estado, o conselheiro especial do gabinete de Abe antecipou ser inevitável a reativação das usinas nucleares comprovadamente seguras a partir de meados deste ano. O governo tenderá ainda, em sua opinião, a suspender a segunda etapa de aumento desse mesmo tributo, prevista para abril de 2015, e promover uma gradual redução mais robusta no imposto sobre o lucro das empresas, para aproximar a alíquota efetiva às aplicadas pela França e Alemanha.

Honda insistiu ser a Abenomics uma política voltada para mudar a mentalidade do empresariado, apegado ao ambiente de baixo crescimento com deflação vivido pelo Japão nos últimos 15 anos. As duas primeiras "flechas" da Abenomics foram disparadas em 2013 e envolveram a adoção da meta de inflação de 2%, de um programa quantitativo de US$ 1,4 trilhão e de um pacote de estímulo de US$ 170 bilhões. Nas contas do governo, essas medidas resultarão no aumento de 2,6% no Produto Interno Bruto (PIB) do ano fiscal de 2013, a ser encerrado em 31 de março.

A Abenomics é uma política de crescimento baseada no estímulo ao consumo e aos salários ou, como alegam seus críticos, no aumento das exportações pela via da desvalorização do iene?

O Banco do Japão fixou no ano passado a meta de inflação de 2% e adotou uma política de estímulo monetário como meio de atingi-la em abril de 2015. A Abenomics é o meio de mudar a mentalidade empresarial ainda apegada à deflação. Nos últimos 15 anos, o mercado de trabalho e as instalações industriais não se renovaram. A desvalorização do iene é necessária para alcançarmos a meta de inflação de 2%. Em dezembro de 2013, o índice de preços subiu 1,3%, principalmente por causa da desvalorização cambial. O alvo final do Abenomics é criar um círculo virtuoso de aumento de consumo, de preços e de produção. Quando a inflação alcançar 2%, o PIB potencial vai subir. O PIB real está agora bem acima do PIB potencial, de 0,5%, segundo o Banco do Japão. Para este ano fiscal, que se encerra em março, estimamos crescimento real da economia de 2,6%.

A projeção de crescimento de 2,6% está muito além da estimativa do FMI. Como é possível?

Acho que o Fundo ainda não entendeu bem a Abenomics. Política de combate à deflação é algo muito incomum e sem precedente. O FMI usa um modelo normal para macroeconomia, mas o caso do Japão hoje é excepcional.

O ponto nevrálgico para a Abenomics será convencer as empresas a aumentarem os salários?

Isso é essencial. O Keidanren (Federação Empresarial do Japão) está apoiando bastante a Abenomics. Estamos na época da publicação dos balanços das empresas. As projeções, na sua maioria, apontam lucros expressivos. Espero que a média de salário aumente na data-base nacional, em 1.º de abril.

Por que aumentar o imposto sobre consumo em abril, se o que o Japão busca é crescimento com inflação?

Não é nada fácil para nós, adotar esse aumento. Mas a dívida pública, como parcela do PIB, é muito alta no Japão, de cerca de 240%. Sua redução também é uma prioridade. Essa arrecadação adicional contribuirá para que o déficit primário nas contas públicas de 2015 seja equivalente ao de 2010 (3,2% do PIB). A decisão de aumentar esse imposto deu-se em meados de 2011, antes do início do governo Abe. Em abril, o imposto passará de 5% para 8%, e um ano depois, para 10%. Politicamente, seria muito difícil mudar esse primeiro aumento. Mas o segundo não foi decidido ainda.

Pode ser adiado ou cancelado?

Temos primeiro de ver os resultados desse primeiro aumento no consumo e na arrecadação até junho. O período de julho a setembro será muito crítico, com inevitável queda no PIB. Em agosto, estará mais claro se o imposto deve subir para 10% em 2015.

Qual o impacto dessa medida no crescimento do Japão no ano fiscal de 2014?

O impacto será de 1,2 ponto porcentual do PIB, que deverá crescer apenas 1,4% nesse período.

Mas o governo ainda aposta na redução do imposto sobre o lucro das empresas em março?

O próximo passo será a discussão sobre a estratégia de crescimento. Entre os principais elementos estão a reforma regulatória, para motivar a competição, e a redução do imposto efetivo pago pelas empresas. Atualmente, as empresas recolhem 38% sobre o lucro. A redução para 35% estava programada para março de 2015, mas Abe decidiu antecipá-la para março deste ano. Abe é favorável também à redução gradual desse imposto para o nível de países como França e Alemanha, de 28% a 29%. O Keidanren quer 25%, Taro Azo é contrário. No Japão, 72% das empresas não estão recolhendo imposto sobre o lucro porque estão com prejuízos. Na medida que o cenário de deflação e depressão mude para o de inflação baixa e crescimento, esse conjunto voltará a recolhe-lo. Alguns especialistas calculam um aumento de 4% na arrecadação. O ministro de Finanças estima elevação de 1,1%. Eu acredito em 2,5% a 3,0%.

Mais uma rodada de programa quantitativo será necessária neste ano para revigorar a economia? Muitos economistas a esperam em abril.

Os economistas mais agressivos defendem um novo afrouxo quantitativo em março, antes do aumento do imposto sobre o consumo. Não acredito ser possível porque os consumidores já estão se precavendo e comprando bens de consumo duráveis. A partir do início de abril, o PIB inevitavelmente cairá. Se o PIB real cair demais, o Banco Japão deve começar o programa em abril. Pode ainda esperar as estatísticas do PIB real do segundo trimestre, mas pode ser tarde demais. Creio que ocorrerá no início de maio ou de agosto.

Todas as 54 usinas nucleares estão fechadas desde a tragédia de Fukushima. O governo vai autorizar a reabertura delas, apesar da resistência social?

Será muito necessário reativar as usinas nucleares, para não perderemos um imenso potencial econômico. Tivemos de aumentar dramaticamente a importação de petróleo e gás, o que nos custou 3,6 trilhões de ienes ao ano e um amplo déficit comercial. A energia renovável e as usinas térmicas não são suficientes. Por isso, uma a uma, as usinas nucleares serão examinadas e reativadas a partir de meados deste ano. Não todas, porém, voltarão à ativa.

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