Iara Morselli/Estadão - 4/7/2019
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Coluna

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'Precisamos de sistemas que coloquem o homem em primeiro lugar', diz criadora da Economia Donut

Para economista que participa da Virada Sustentável, crises como a da covid indicam a necessidade de transformação do capitalismo

Entrevista com

Kate Raworth, economista e professora da Universidade de Oxford

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2020 | 05h00

Criadora do conceito da Economia Donut, a inglesa Kate Raworth afirma que as crises sucessivas que o mundo vive no começo deste século indicam a necessidade de transformar o capitalismo em um sistema sustentável social e ambientalmente. “Precisamos criar sistemas econômicos que coloquem o bem-estar do homem em primeiro lugar, em vez de sistemas que persigam o crescimento - que são a fonte desses choques”, diz ela, que participa às 14h desta sexta-feira, 18, de debate online promovido pela Virada Sustentável. O evento tem o apoio do Estadão

O Modelo Donut associa a economia ao formato de uma rosquinha, em que o aro interno representa o alicerce social - serviços e produtos básicos como alimentos, saúde e habitação -, e o externo, o limite ecológico da Terra. Entre um e outro, está o espaço seguro e justo para a humanidade viver, enquanto pessoas sem acesso ao básico ficam no buraco interno da rosquinha. Em abril, a cidade de Amsterdã foi a primeira do mundo a anunciar que passará a adotar a Economia Donut.

Kate rechaça a ideia de que, hoje, o modelo se aproxima de uma utopia e afirma que o capitalismo não pode continuar perseguindo um crescimento econômico infinito. “O donut descreve um mundo em que todos têm o básico: comida, água, saúde, casa, voz política e renda. Quem pode viver sem essas coisas? São essas coisas que nos fazem humanos e em comunidade. Se isso é uma utopia, estamos perdidos em uma narrativa louca de extração econômica e destruição.” A seguir, trechos da entrevista.

Amsterdã foi, neste ano, a primeira cidade do mundo a anunciar que adotará o modelo da Economia Donut. O mundo começa a perceber que uma mudança no capitalismo é necessária para preservar o ambiente? A crise da covid-19 impulsiona essa mudança?

Sim. No século XX, nações focaram em crescimento econômico. Essa era a métrica e a metáfora do sucesso, mas o século XXI começou com a gravidade de uma série de crises profundas e recorrentes, com o derretimento financeiro em 2008, o colapso climático e mais recentemente o confinamento da covid. O fato de vivermos crises recorrentes nos diz que somos profundamente interconectados uns com os outro e com a natureza. E o ser humano é muito vulnerável aos choques. Precisamos criar sistemas econômicos que coloquem o bem-estar do homem em primeiro lugar, em vez de sistemas que persigam o crescimento - que são a fonte desses choques. A covid é apenas mais uma crise. Se essas crises continuarem, vejo mais políticos percebendo que não podem ter uma estratégia para lidar com finanças, outra estratégia para a mudança climática e outra para pandemias. É preciso uma abordagem política diferente. É interessante que Amsterdã escolheu lançar o modelo da Economia Donut em abril, quando sua taxa de infecção de covid estava no patamar mais alto. Eles lançaram sabendo que, uma vez que saíssem dessa emergência, precisariam de uma nova visão. O Modelo Donut traz uma direção, para onde queremos ir. Ele dá um sinal claro e poderoso do modo que queremos sair dessa crise.

O mundo já passou por outras crises profundas, como a de 2008, em que muita gente achou que o capitalismo teria de mudar, mas isso não se concretizou. Por que desta vez seria diferente?

O que é diferente desta vez é que há mais gente mobilizada ao redor de novas ideias. Temos movimentos crescendo ao redor do mundo, como o Extinction Rebellion (movimento ambientalista) e o Black Lives Matter (contra o racismo). Também temos visões positivas do futuro que queremos, como o Modelo Donut. Até mesmo os líderes corporativos estão dizendo que é hora de mudar. Mas é sempre uma luta fazer as novas ideias crescerem.

Dada a cultura em que vivemos hoje, a Economia Donut não se aproxima de uma utopia?

Não. O modelo se aproxima das condições de vida. Se a vida é uma utopia, isso é algo terrível em relação  às sociedades desse começo de século. O donut descreve um mundo em que todos têm o que é básico: comida, água, saúde, casa, voz política e renda. Quem pode viver sem essas coisas? São essas coisas que nos fazem humanos e em comunidade. Se isso é utopia, estamos perdidos em uma narrativa louca de extração econômica e destruição. 

Nosso modelo econômico é baseado no desejo de um crescimento contínuo, ideia incompatível com os recursos limitados da Terra. Como resolver isso sem aumentar o desemprego?

Temos um modelo que é estruturalmente viciado em um crescimento infinito. O sistema é financeiramente viciado ao trabalhar para conseguir sempre o maior retorno de juros. É politicamente viciado porque nenhum governo quer perder seu lugar na foto de família do G20.  E é socialmente viciado, porque nos é vendida a história de que toda geração deve ser mais rica que a anterior. Estamos presos numa economia baseada em crescimento e temos de nos extrair disso, porque algo que cresce incessantemente se destrói. Em corpos, reconhecemos isso como cânceres. É bizarro que nas economias achemos que isso é sucesso. Por exemplo, neste momento, quando negócios estão indo atrás da taxa máxima de retorno, eles tendem a empregar o menor número de pessoas possíveis. Precisamos minimizar o uso de novos recursos do planeta e isso pode criar mais empregos. Ao invés de gerar desemprego para ter ganho financeiro, precisamos empregar mais pessoas para usar esses recursos mais de uma vez, de modo coletivo, criativo e cuidadoso. 

Isso já é difícil para um país rico como a Holanda. Como fazer essa transformação em um país como o Brasil?

Adotar a Economia Donut é um desafio para qualquer país. Países ricos como Holanda estão ultrapassando de forma massiva os limites do planeta. A jornada que eles têm de fazer para voltar aos limites do planeta e sustentando o bem-estar de suas populações é algo sem precedentes. Não é fácil para eles, assim como não o é para um país como Bangladesh. Países de renda muito baixa, que vivem dentro das fronteiras do planeta, têm espaço para crescer em termos de parcela justa dos recursos da Terra, mas não podem fazer algo parecido com o que países como Holanda e Reino Unido fizeram. Não podem se industrializar da mesma forma que esses outros fizeram. E países como Brasil têm um déficit em atender as necessidades básicas de suas populações, mas, ao mesmo tempo, estão ultrapassando de forma excessiva os limites do planeta. Esses países têm um desafio duplo. É claro que os países com renda mais alta tem mais renda para lidar com isso, mas eles também têm de lidar com as expectativas de pessoas que se acostumaram com vidas que extraem muito da natureza. Um país como a Costa Rica é o que está mais perto para viver no Modelo Donut. Está próximo de atender as necessidades básicas das pessoas e apenas um pouco acima dos limites do planeta. Isso nos dá a sensação de que poderia ser possível, mas não é algo fácil para qualquer país do mundo. 

Qual é o papel do setor privado na construção de um país nos moldes da Economia Donut?

É enorme, porque somos viciados no crescimento sem fim em parte por causa da estrutura e dos desejos dos negócios. O que interessa não é apenas o objetivo de um negócio, mas também a estrutura de propriedade dele. Se uma empresa é familiar, estatal, privada ou de seus próprios empregados, ela têm a expectativa e as demandas financeiras de seus donos. Se o financiador da empresa diz: ‘estou aqui pelos retornos mais altos que você pode me dar e, se você não me entregar, estou fora’, isso a conduz a ser mais extrativa. Mas tem um novo tipo de empreendimento surgindo. O Sistema B (movimento que apoia empresas a solucionarem problemas sociais e ambientais), empreendimentos sociais, cooperativas e empreendimentos cujos empregados são os donos são conduzidos por objetivos (sustentáveis) e se asseguram de que o modo que são financiados estão alinhados com seus objetivos. Temos de alinhar o design dos negócios com o objetivo de ser regenerativo. Caso contrário, os negócios não serão parte da solução.

O Brasil está se tornando conhecido internacionalmente por não proteger a Amazônia. Como isso afetará a economia brasileira?

Com o rápido crescimento do desmatamento, o Brasil está ganhando um tipo de fama que não é bom. As pessoas veem o aumento do desmatamento, a negligência e o abuso do direito das terras das comunidades indígenas. É claro que o país perde respeito internacionalmente, mas também está perdendo a maior riqueza da terra – a biodiversidade – para o ganho de curto prazo do uso do solo. Essa situação tem de mudar, assim como o comportamento destrutivo e exploratório. Caso contrário, poderá não haver reparação mais tarde. 

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