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Fábio Alves
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Precisamos falar de Trump

Agora que a corrida presidencial dos Estados Unidos está definida entre o republicano Donald Trump e a democrata Hillary Clinton, os investidores serão forçados a avaliar o risco para a economia americana e para o dólar da retórica agressiva que o magnata do mercado imobiliário vem adotando. Como os dois candidatos têm índices de aprovação baixos e prometem guiar a economia americana para direções opostas, a atual eleição presidencial terá um peso muito maior do que se observou nos pleitos anteriores no humor dos investidores, empresários e consumidores. O banco americano Goldman Sachs, por exemplo, diz que, ao contrário de anos passados, quando eleições presidenciais resultaram em aumento da confiança do consumidor americano, não se vê esse fenômeno até o momento em 2016.

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2016 | 05h00

Do mesmo modo, a reação do mercado financeiro à campanha eleitoral tem sido limitada, o que pode ser interpretado como uma aposta de vitória da ex-primeira-dama e ex-senadora na eleição marcada para 8 de novembro. Embora Hillary ainda lidere as pesquisas de intenção de voto, qualquer avanço do candidato republicano terá um forte impacto sobre o preço dos ativos financeiros. E qual é o risco Trump?

A plataforma oficial para a área econômica dos dois candidatos ainda não é conhecida. O que se tem até o momento é a bravata de Trump contra a imigração e com discurso protecionista e isolacionista em relação ao comércio exterior. Isso leva muitos analistas a prever um choque negativo de oferta, reduzindo o potencial de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e pressionando a inflação. Enquanto pairar a dúvida no mercado sobre o programa econômico de Trump, confirmando ou refutando essa retórica, que pode ser apenas para agradar o eleitorado mais à direita, um avanço dele nas pesquisas de opinião poderá enfraquecer o dólar.

É preciso destacar que, mesmo que suas promessas mais extremistas de campanha no tocante à imigração e ao comércio exterior se confirmem como programa de governo, Trump precisará da aprovação do Congresso para concretizar essas medidas, o que pode não ocorrer. Mas, até lá, ele pode causar um estrago no mercado financeiro e até na economia real. Isso porque, mesmo que o Congresso barre qualquer tentativa dele de lançar os Estados Unidos numa guerra comercial com seus principais parceiros, em especial a China, Trump pode lançar mão de uma guerra cambial, forçando uma desvalorização substancial do dólar para tornar os produtos americanos mais competitivos. Ou seja, o dólar poderá ser usado por ele como uma ferramenta comercial. Uma desvalorização induzida para esse fim não será vista como saudável pelos mercados globais.

Indagada nesta semana sobre o que acharia de um possível governo Donald Trump, a presidente do Federal Reserve (o BC americano), Janet Yellen, silenciou e não quis entrar em polêmica. O mandato dela termina apenas no fim de 2018, mas o mercado teme que, em caso de vitória do republicano nas eleições, ele não reconduza Yellen ao cargo, abrindo espaço para especulação quanto à independência do Fed.

Não chega a ser uma surpresa, portanto, o fato de os empresários americanos preferirem a democrata Hillary Clinton a Trump para suceder Barack Obama. Não que Hillary represente um cenário totalmente livre de riscos, afinal, a maioria das últimas gestões democratas na Casa Branca favoreceu um dólar mais forte. O risco de tanta incerteza é prejudicar a recuperação da atividade econômica, enfraquecendo o consumo e o investimento. Daqui em diante, as pesquisas de intenção de voto poderão causar volatilidade parecida com o que se viu nas eleições brasileiras de 2014, quando, a cada subida de Dilma Rousseff, a bolsa caía e o dólar ganhava, refletindo temor dos investidores. Nos EUA, avanço de Trump poderá levar a um tombo da bolsa e do dólar frente a outras moedas.

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