Marcos Corrêa/PR - 19/8/2020
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'Precisamos ver desmatamento cair para seguir com acordo com Mercosul', diz embaixador da Alemanha

Diplomata afirma que o país europeu continua comprometido com pacto firmado entre o bloco e a União Europeia, mas cobra avanços da pauta ambiental do governo Bolsonaro

Entrevista com

Heiko Thoms, embaixador da Alemanha no Brasil

Eduardo Gayer e André Marinho, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2020 | 13h10

Em meio a incertezas sobre a viabilidade do acordo comercial entre União Europeia (UE) e Mercosul, o novo embaixador da Alemanha no Brasil, Heiko Thoms, garante que o país europeu segue comprometido com o pacto, mas condicionou sua implementação plena a avanços da pauta ambiental no governo Jair Bolsonaro. "Para seguir em frente, precisamos ver progressos reais nos pontos mais importantes da questão ambiental. Precisamos ver ações reais e os números do desmatamento caindo durante um período significativo", afirmou, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast.

Um dia após o vice-presidente Hamilton Mourão dizer que o tratado começa a "fazer água", na última sexta-feira, 28, Thoms destacou que as notícias do País contradizem o espírito do acordo. O documento, com cláusulas sobre preservação do meio ambiente, ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos da UE e de cada membro dos dois blocos.

O andamento da pauta, contudo, está travado por causa de insatisfações de autoridades europeias com o avanço do desmatamento na Amazônia. Na semana passada, o governo da chanceler alemã, Angela Merkel, chegou a comentar que tem "dúvidas" sobre o texto.

Apesar disso, o diplomata, que assumiu a embaixada alemã em Brasília no dia 19 de agosto, entende que o tratado não está morto e fala sobre sintonia com o governo brasileiro.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O porta voz da chanceler Angela Merkel, Stefeen Seibert, disse ter "sérias dúvidas" sobre a possibilidade do acordo UE-Mercosul ser implementado como previsto, devido à desconfiança estrangeira em relação à política ambiental brasileira. Demoramos 20 anos para chegar a um consenso entre as partes e o texto ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos de cada país-membro dos dois blocos. Podemos dizer que o acordo está em risco?

É importante observar toda a declaração. O que o governo disse é que a Alemanha segue compromissada com o pacto. No ano passado, quando chegamos a um acordo sobre esse importante tema, ressaltamos que estamos comprometidos com o espírito do acordo. Isso é um processo, e estamos enfrentando as realidades políticas tanto na UE quanto no Brasil. Isso não acontece em um vácuo, mas dentro de um contexto político. Todos estão acompanhando as notícias do Brasil, particularmente sobre a questão ambiental e o desmatamento na Amazônia, e isso tem efeito sobre os cidadãos europeus. Na Alemanha, não há um único partido dentro do espectro democrático que não se importe com questões ambientais e climáticas. Mas sabemos que temos de fazer nosso dever de casa primeiro, porque temos nossas questões internas também.

O vice-presidente Hamilton Mourão disse que a imprensa criou ruído na relação entre Brasil e Alemanha, mas que o acordo UE-Mercosul começa a "fazer água". Falar em "naufrágio" agora não prejudica as negociações?

Estou em contato direto com o governo brasileiro. Estamos na mesma página em relação a preocupações e desejos sobre o acordo. Precisamos lidar com algumas questões críticas e temos de ver progressos nelas. Estou confiante em dizer que as relações estão boas. Reconheço que há algumas áreas em que podemos fazer mais juntos. Não há só cooperação entre Brasil e Alemanha só no nível político, mas também nos campos empresarial e acadêmico.

O que o governo brasileiro precisa fazer para salvar o acordo? Há parlamentares europeus dizendo que o acordo está morto.

Eu, pessoalmente, não acredito que o acordo esteja morto. Há uma chance grande de que possamos salvá-lo. Mas isso não acontecerá isolado de outros desdobramentos, é preciso ter comprometimento com todas as áreas do pacto. Esse é um acordo comercial, mas também aborda questões de sustentabilidade e ambientais. As notícias do Brasil parecem contradizer o espírito do acordo. Para seguir em frente, precisamos ver progressos reais nos pontos mais importantes da questão ambiental. Precisamos ver ações reais e os números do desmatamento caindo durante um período significativo.

Se o acordo está a salvo, é possível estimar uma data para sua implementação?

É difícil colocar uma data. Sei que o processo está em curso e há alguns passos a serem dados, mas eles estão sendo dados. A Alemanha está com a presidência do Conselho Europeu até o fim de dezembro e avançar com o acordo UE-Mercosul é um dos itens da agenda.

O governo do presidente Jair Bolsonaro critica o multilateralismo. Essa postura avessa à cooperação internacional não é um desafio para o seu trabalho? Quais são suas metas para o desenvolvimento da relação bilateral entre Brasil e Alemanha?

Fui muito bem recebido pelo presidente e a relação entre os dois países é longa. A cooperação entre os dois países se estende para muitas áreas. Há problemas compartilhados entre as partes, que é muito discutido. Nosso comércio bilateral é muito importante, não fazemos tanto comércio quando gostaríamos. Poderíamos expandir. Do ponto de vista de importações e exportações, o Brasil está apenas próximo da posição 30 na posição da lista de maiores parceiros econômicos. Isso é muito baixo para uma economia tão grande. Mas o lado positivo são os investimentos de empresas alemãs no Brasil. A Alemanha tem uma presença muito forte aqui. Tudo isso está conectado com a cooperação na questão da sustentabilidade e meio ambiente.

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