Preço administrado deverá puxar inflação

O estrago do câmbio na inflação em 2003 parece inevitável, apesar da recente decisão do governo de retirar mais dinheiro de circulação para diminuir a forte especulação com o dólar, que levou a moeda americana bater a casa de R$ 4 na semana passada. O foco de pressão para o ano que vem, concordam os analistas, virá mais uma vez das tarifas públicas. Mesmo que o câmbio perca fôlego após as eleições, os preços regulados pelo governo, como energia elétrica, telefonia, pedágio, água e esgoto, entre outros, que são reajustados pelo Índice Geral de Preços (IGP), carregarão pelo menos seis meses da forte alta do dólar registrada neste ano. Até o mês passado, por exemplo, os IGPs acumulavam um aumento de cerca de 14% em 12 meses. "O pico da inflação do paulistano em 2003 será atingido em julho e agosto", prevê o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe), Heron do Carmo. Ele explica que é justamente nesse período que ocorrem os aumentos das tarifas em São Paulo. Como os reajustes são feitos por contratos indexados aos IGPs que, por sua vez estão pressionados pelo câmbio, esse grupo de preços deverá refletir o efeito defasado da alta do dólar. Ele considera para a inflação de 2003 também algum resíduo do reajuste do combustível e do gás de botijão, que deverá ocorrer após as eleições. Heron, que chegou a projetar alta de 3% a 3,50% para o IPC-Fipe em 2003 quando o dólar estava abaixo de R$ 2,30, agora trabalha com a expectativa de uma inflação de 5% para 2003, com um dólar médio de R$ 3,50. O economista pondera que a inflação não depende só do câmbio, mas principalmente de saber se o novo governo vai manter a política fiscal e monetária. A consultoria MB Associados, que inicialmente projetava um Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial da inflação, em 5% para o ano que vem, agora traça dois cenários para o indicador. Segundo a economista Monica Baer, se o candidato do governo ganhar a eleição, o índice será de 6%. Caso a oposição saia vencedora e a transição seja tranqüila, a consultoria projeta um índice de inflação de 9% para o ano que vem. "Mesmo que tudo dê certo, vai haver uma concentração de reajuste de tarifas entre maio e agosto de 2003", observa a economista. Monica ressalta que a raiz da inflação deste ano e do próximo é de custos, desencadeada por um preço fundamental da economia que é o câmbio. Diante de um cenário interno turbulento, por causa da sucessão presidencial, e de um cenário externo complicado, com retração na economia mundial e a aversão global ao risco, que restringe o fluxo de capitais para países emergentes como o Brasil, a economista não descarta a possibilidade de estagnação econômica com inflação em 2003. De toda forma, se os EUA voltarem a crescer e não houver grandes sustos na transição política, ela considera a hipótese de um crescimento de 2,2% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2003. "A inflação de 2003 dependerá de muitos cenários. Para fazer projeções é preciso saber qual será a estrutura da política econômica", diz o economista da Fundação Getúlio Vargas Salomão Quadros. Ele também observa que os índices ao consumidor estarão pressionados no meio do ano que vem por causa do reajuste das tarifas. O economista acrescenta que em alguns meses os índices de preços no atacado poderão até ter alguma deflação, por causa de recuo no dólar. Mesmo assim, os IGPs continuarão carregando pelo menos seis meses de inflação elevada, puxada pelo dólar, que será repassada para o reajuste das tarifas.RevisãoEm apenas duas semanas, houve alterações expressivas nas previsões dos índices de preços médios para este ano e o próximo, segundo revela o Boletim Focus, do Banco Central (BC), que consulta mais de uma centena de instituições financeiras. Na análise de Heron, da Fipe, esse movimento mostra que a alta do câmbio foi incorporada nas estimativas. Essa revisão, no caso de 2003, chega a quase dois pontos porcentuais para o IPA-M, projetado em 7,48% em 18 de setembro e que foi para 9,29% em 4 de outubro. O IPCA, por exemplo, que estava estimado em 5,34%, subiu 5,99%. Entre as consultorias, há quem calcule índices ainda maiores para o IPCA. A consultoria LCA, por exemplo, revisou, nesta semana, de 6,5% para 6,8% a estimativa desse indicador para 2003, superando assim o teto da meta de inflação (6,5%) do ano que vem. Segundo os economistas da consultoria, a elevação das projeções do câmbio médio para 2003, de R$ 3,16 para R$ 3,30, provocou a revisão. Com isso, a inflação será no ano que vem, assim como está sendo neste ano, um fator restritivo à queda nos juros, observam os economistas da consultoria LCA.

Agencia Estado,

13 de outubro de 2002 | 10h13

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