Taba Benedicto/Estadão - 15/7/2021
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Preço da cesta básica sobe 22% em um ano e encosta no salário mínimo em São Paulo

Valor da cesta básica alcançou R$ 1.064,79 na cidade de São Paulo, próximo ao do salário mínimo, de R$ 1.100; há um ano, o preço da cesta básica era de R$ 871,48

Márcia de Chiara, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2021 | 16h00

O galope da inflação dos últimos meses vem tornando cada vez mais difícil mesmo o sustento básico da população mais pobre. Em julho, o valor da cesta básica na capital paulista para uma família de quatro pessoas quase empatou com o salário mínimo. O quadro é preocupante porque a cesta básica inclui gastos apenas para compra de 39 produtos, entre alimentos e itens de higiene pessoal e limpeza doméstica. Ficam de fora itens tão importantes quanto a alimentação, como despesas com moradia, transporte e medicamentos, por exemplo.

Levantamento mensal feito pelo Núcleo de Inteligência e Pesquisas do Procon-SP em convênio com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que em julho o custo da cesta básica paulistana chegou a R$ 1.064,79. A alta foi de 0,44% em relação a junho, de 5,65% no ano e de 22,18% em 12 meses. Em 12 meses até julho, a inflação oficial medida pelo IPCA avançou 8,99%.

Mas o que mais chama a atenção na pesquisa é que o valor da cesta  de julho quase encostou no salário mínimo de R$ 1.100.  A diferença de R$ 35,21 entre o custo da cesta básica e do salário mínimo é a menor desde dezembro do ano passado (R$ 37,11).

Com esse troco dá para fazer muito pouco. É insuficiente, por exemplo, para levar para casa um quilo de carne de segunda. No mês passado, a carne de segunda era encontrada no varejo paulistano pelo preço mínimo de R$ 36,10.

“O quadro é grave: estamos chegando no patamar do 'elas por elas', com os gastos com alimentação, higiene e limpeza empatando com o salário mínimo”, afirma Marcus Vinicius Pujol, diretor da Escola de Proteção e Defesa do Consumidor do Procon-SP, responsável pela pesquisa.

Ele pondera que o que atenuou a situação foi o auxílio emergencial dado pelo governo federal e os programas estaduais de distribuição de renda. Mas nenhum desses atenuantes reduzem a gravidade da situação, argumenta. Ele ressalta que o desemprego em alta agrava o estrago provocado pelo aumento da inflação.

Essa também é a avaliação do coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV), André Braz. “O desemprego piora o impacto da inflação no orçamento”, afirma. Uma coisa, diz ele, é ter dinheiro e os produtos e serviços irem ficando mais caros. “As famílias vão dando um jeito, compram menos, trocam de produto.” Outra coisa é quando não se tem dinheiro e os produtos encarecem, argumenta. "Nesse caso, a sensação de que a inflação é muito maior é flagrante, é uma situação de impotência."

 


Enquanto a comida em geral acumula alta na faixa de 12% em 12 meses, os preços dos alimentos essenciais da cesta básica subiram cerca de 25%, observa Braz. Ele lembra que a expectativa era de que os preços dos alimentos recuassem um pouco mais rápido. Mas isso não ocorreu por causa dos problemas climáticos: falta de chuvas e geadas que castigaram as safras de vários produtos.

Na avaliação do economista da FGV, esse quadro da inflação pode se agravar ainda mais com a persistência da crise hídrica castigando a produção e provocando novas altas de preços dos alimentos nos próximos meses.

Pujol, do Procon-SP, faz uma avaliação semelhante à de Braz. A perspectiva, diz, é que a cesta básica continue pressionada nos próximos meses. “Acredito que o cenário se agrave”, prevê o diretor. Problemas climáticos, como seca e geadas que afetaram as safras de vários produtos nas últimas semanas, devem ter impactos nos preços da comida e a volta à normalidade deve demorar, diz.

Cesta mínima

A pesquisa coleta preços em 40 supermercados da capital e elabora uma cesta com as  menores cotações encontradas de cada item. “É a cesta mais barata dentro do universo que pesquisamos.” Isto é, essa cesta, “ideal” em termos de custos, na  maioria das vezes acaba  sendo inviável para o cidadão comum porque requer  uma grande pesquisa de preços.

Buscar promoções tem sido uma das saídas usadas por Irany Santos, de 45 anos, mãe de três filhos, para colocar comida na mesa. A renda da família é de cerca de R$ 1.800 e está cada vez mais apertada com o avanço da cesta básica. “A carne vermelha é um absurdo”, conta Irany, que acaba de conseguir um emprego como doméstica.

No passado, quando a inflação era baixa, ela lembra que chegava a comprar peça de carne fechada, porque era mais em conta. Agora, carne uma vez na semana, de segunda e só a quantidade que vai usar. Também a família está consumindo mais ovo e frango. E Irany não tira o olho nas promoções dos quatro supermercados da vizinhança para tentar conseguir preços menores.

Além dessa estratégia de guerra para colocar comida na mesa, hoje ela conta com uma cesta básica que recebe de um projeto do qual a filha participa. No primeiro ano da pandemia, ela teve a ajuda de amigos que lhe garantiram  uma cesta básica para conseguir enfrentar a carestia. “Eles me deram essa força, porque não foi fácil para ninguém.”

Pesquisa

Enquanto a inflação não dá trégua, Pujol recomenda que o consumidor faça um levantamento de preços antes de ir às compras e considere trocar marcas e estabelecimentos comerciais para reduzir a alta de custos.

No mês passado, os vilões da cesta básica paulistana foram a carne de primeira, o café em pó, o frango resfriado inteiro, o leite de caixinha e o pão francês. De 39 itens pesquisados, mais da metade (21) teve aumento de preço.

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