REUTERS/Jim Urquhart
REUTERS/Jim Urquhart

Preço da bitcoin foi inflado artificialmente no ano passado, afirmam pesquisadores

Suspeitas recaem sobre a corretora Bitfinex, uma das maiores e menos regulamentadas bolsas do setor

Nathaniel Popper, New York Times

14 Junho 2018 | 17h14

SAN FRANCISCO  - Uma campanha concentrada de manipulação de preço pode ter sido responsável pelo menos pela metade do aumento do preço da bitcoin e de outras criptomoedas no ano passado. Isso de acordo com documento elaborado e  divulgado nesta quarta-feira, 14, por um acadêmico conhecido por localizar fraudes nos mercados financeiros.

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O documento assinado por John Griffin, professor de finanças da universidade do Texas, e Amin Shams, estudante de graduação, devem avivar o debate quanto a se os enormes ganhos obtidos com as bitcoins no ano passado foram provocados por ações ocultas de alguns grandes operadores do mercado e não por uma demanda real dos investidores.

Na época, muitos envolvidos no setor manifestaram sua preocupação de que os preços vinham subindo em parte devido às atividades da Bitfinex, uma das maiores e menos regulamentadas bolsas do setor. Essa bolsa, registrada no Caribe e com escritórios na Ásia, foi intimada pelos órgãos reguladores dos Estados Unidos depois de artigos a respeito no The New York Times e outras publicações.

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Griffin analisou o fluxo de tokens digitais entrando e saindo da Bitfinex e identificou diversos padrões distintos sugerindo que alguém, ou algumas pessoas da bolsa agiu, com sucesso, de modo a que os preços subissem no momento em que o valor da moeda registrasse queda em outras bolsas. 

Para isso, a pessoa, ou pessoas, usou uma moeda virtual secundária conhecida como tether, criada e vendida pelos proprietários da Bitfinex para compra de outras criptomoedas.

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"Houve tremendos aumentos de preço no ano passado e este estudo indica que a manipulação foi responsável em grande parte por esses aumentos", disse Griffin.

Executivos da Bitfinex negaram no passado qualquer envolvimento em algum tipo de manipulação. Na quarta-feira eles reafirmaram que a bolsa jamais esteve engajada em qualquer tipo de manipulação de preços ou do mercado. 

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"As emissões de tether não podem ser usadas para influir no preço da bitcoin ou qualquer moeda ou token na Bitfinex", declarou o diretor executivo da bolsa Jan Ludovicus van der Velde.

A divulgação do novo documento provocou uma queda no preço já rebaixado da bitcoin e de outras moedas. O valor da bitcoin despencou 5% após o informe ser publicado, chegando perto do seu nível mais baixo no ano. A moeda virtual perdeu mais de 65% do seu valor mais alto alcançado no final do ano passado.

Os autores do estudo de 66 páginas não possuem e-mails ou documentos provando que a Bitfinex sabia ou foi responsável pela manipulação dos preços. Os pesquisadores se basearam em milhões de registros contidos nas blockchain,  livros contábeis públicos de todas as transações realizadas com moedas virtuais. Este método não é conclusivo, mas ajudou autoridades de governo e acadêmicos a localizarem atividades suspeitas no passado.

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Griffin e Shams examinaram o fluxo das Tether, token que supostamente estaria atrelado ao valor do dólar e é emitido exclusivamente pela Bitfinex em grandes volumes. E concluíram que metade do aumento do valor da Bitcoin em 2017 podia ser detectado imediatamente depois de a Tether ser movimentada em outras bolsas, e geralmente quando o preço estava declinando.

Outras moedas virtuais de peso que podem ser compradas com a Tether, como Ether e Zcash, também registraram altas de modo mais rápido que a Bitcoin naqueles períodos. E os preços avançaram mais rapidamente em bolsas que aceitavam a Tether. A tendência foi interrompida quando a Bitfines parou de emitir novas Tether este ano.

Segundo Sarah Meiklejohn, professora na University Colleg London, pioneira nesse tipo de reconhecimento de padrões, a análise feita no novo documento "parece sólida".

Philip Gradwell, economista chefe da Chainalysis, empresa que analisa dados da Blockchain também considerou o estudo "confiável". Alertou que serão necessárias mais análises para uma plena compreensão dos padrões.

Griffin já havia realizado uma pesquisa que apontava para um comportamento fraudulento em vários outros mercados financeiros. 

Ele chamou a atenção em um estudo feito em 2016 sugerindo que um contrato financeiro popular ligado à volatilidade dos mercados, conhecido como VIX, vinha sendo manipulado. Posteriormente um informante confirmou as suspeitas e hoje várias ações judiciais em curso se centralizam nessas alegações.

Além do seu trabalho na universidade do Texas, Griffin tem uma empresa de consultoria que trabalha com casos de fraude financeira, incluindo alguns envolvendo o setor de moeda virtual.

"A relação entre a Tether e o preço da Bitcoin tem sido destacada há meses dentro da comunidade", afirmou Christian Catalini, professor do MIT - Instituto de Tecnologia de Massachusetts, especializado em pesquisa das blockchain. 

"É ótimo ver um trabalho acadêmico que busca avaliar, em termos de causa e efeitos, se a manipulação do mercado vem ocorrendo".

O novo estudo não é o primeiro trabalho acadêmico para identificar a manipulação nos mercados de moeda virtual. Outro documento publicado no ano passado por uma equipe de pesquisadores americanos e israelenses indicou que grande parte do aumento de preço da Bitcoin em 2013 foi causado por uma campanha de manipulação de preços na Mt.Gox, na época a maior bolsa de transações com  a moeda virtual. / Tradução de Terezinha Martino

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