Preço das commodities vai continuar caindo, prevê analistas

Nesta quarta-feira, o petróleo caiu 4,51% e o ouro despencou 5,90%

Cláudia Ribeiro, do estadao.com.br,

19 de março de 2008 | 16h26

O preço das commodities, enfim, começou a cair. Diante do desaquecimento econômico nos Estados Unidos, este era o cenário mais provável. Contudo, não estava se confirmando. Pelo contrário. Desde janeiro, o preço do cacau subiu mais de 40%; o café, 38%; gás natural, 34%; trigo, 29%; e alumínio 28%. Só na semana passada, o petróleo teve alta de quase 5% e o ouro, de 3%. Nesta quarta-feira, porém, o cenário mudou. O petróleo caiu 4,51% - a maior queda em um único dia desde 1991 - e o ouro despencou 5,90% - maior queda em um dia em dólar em 28 anos. "O mercado entendeu que o banco central americano vai fazer qualquer coisa para preservar o valor do dólar", afirma o professor da graduação e da pós-graduação da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, Fabio Kanczuk.  Veja também:Bovespa despenca 4% influenciada pela queda nas commoditiesResultado do Morgan Stanley é melhor que o previsto 'Crise é 30 vezes maior que a de 1998', diz LulaJuro americano cai para 2,25% e Fed sinaliza novas reduçõesCronologia da crise financeira   Na noite de domingo, o Federal Reserve anunciou uma redução na taxa de redesconto - taxa cobrada nas operações entre o BC e as instituições financeiras - para 3,25%. Além disso, abriu linhas de crédito para instituições que antes não eram contempladas, como os bancos de investimento e corretoras. O Fed também financiou a compra do Bearn Sterns pelo JP Morgan e ainda reduziu a taxa básica de juros do país para 2,25% ao ano. "Quando o mundo desacelera, a queda das commodities é violenta. Se a redução no crescimento econômico é de 1%, por exemplo, a perda para estes produtos chega a 10%. Isso não estava acontecendo porque havia uma fuga do risco. O investidor estava migrando do risco (dólar) para ativos mais seguros (commodities)", afirma. Para o professor, isso começou a mudar depois das últimas decisões do banco central americano. "De repente o Fed deixou claro que fará o que for necessário para preservar o dólar. Essa é a sensação que se tem hoje." Kanczuk diz que estava surpreso porque o preço das commodities ainda não estava caindo, apesar do desaquecimento da economia dos EUA. "Mas agora elas vão cair ainda mais." O estrategista de Investimentos Sênior para a América Latina do Banco WestLB do Brasil, Roberto Padovani, avalia que a queda no preço das commodities nesta quarta-feira é a "correção de um exagero". "O preço destes produtos estava descolado da expectativa real de crescimento do mundo, mesmo com a possibilidade de atividade econômica mais forte na América Latina e na Ásia", avalia. Diante disso, ele também não descarta mais desvalorização das cotações. Economia brasileira Para o Brasil, a queda do preço das commodities é determinante, já que o País receberá menos pela exportação destes produtos. Além disso, se a demanda externa cai, o valor das exportações brasileiras vai diminuir. Kanczuk avalia, contudo, que o consumo interno vai continuar puxando o Produto Interno Bruto (PIB) e vai compensar em parte o desaquecimento econômico no mercado internacional. "O crédito ainda é muito forte e os setores que dependem disso, como automóveis e bens duráveis, continuarão bem", afirma.  Mas ele não descarta outras influências da crise norte-americana sobre o Brasil. Segundo o professor, o dinheiro, que era farto no mundo todo, começou a buscar apenas ativos seguros. "Como país emergente, o País vai perder recursos." O mercado financeiro, de fato, já sente isso. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) já acumula queda de mais de 6% em março, revertendo a alta acumulada no ano.

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