Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

Preço de bem durável puxa IPCA para baixo

Aumento das importações e recuo na demanda podem estar por trás do recuo

Jacqueline Farid / RIO, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

De microcomputadores à máquinas de lavar, dos automóveis novos aos condicionadores de ar, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou, em agosto, recuo generalizado nos bens de consumo duráveis, que analistas econômicos atribuem ao aumento das importações e a um possível arrefecimento de demanda por esses produtos.

O coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Messenberg, acredita que os duráveis garantiria uma inflação oficial um ponto porcentual inferior ao patamar que atingiria este ano, caso alguns itens desse grupo não estivessem registrando queda nos preços. A coordenadora de índices de preços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Eulina Nunes dos Santos, não contabiliza na ponta do lápis os efeitos, mas ressalta a importante contribuição que itens como automóveis e televisores, com peso elevado no cálculo do IPCA, terá para conter os índices inflacionários este ano.

Porém, enquanto Eulina acredita que a queda de preços apurada nos duráveis em agosto pode estar relacionada a um arrefecimento natural da demanda, além do aumento das promoções nas lojas, Messenberg credita o recuo ao forte aumento nas importações.

Os dados do IBGE e do Ministério do Desenvolvimento mostram que, em agosto, os preços dos eletrodomésticos e equipamentos caíram 1,8% (segundo o IPCA) e, no mesmo mês, as importações de máquinas e aparelhos domésticos aumentaram nada menos que 190% (em US$), comparativamente a igual mês do ano passado. No acumulado de janeiro a agosto, a alta foi de 149% em relação a igual período do ano passado. Nessa comparação, a participação desse grupo de produtos no valor total das importações do País praticamente dobrou, de 1,3% para 2,2%.

Ainda em agosto, o IPCA mostrou queda de 13,03% nos preços dos televisores; 5,5% nos computadores; 1,37% nos fogões; 1,82% nos refrigeradores; 0,46% nos condicionadores de ar; 2,51% nas máquinas de lavar; e 0,60% nos automóveis novos.

Para Messenberg, os dados deixam claro que os importados estão cumprindo o papel de atender à boa parte da demanda doméstica por duráveis. As suspeitas do economista encontram ressonância nos resultados da produção industrial de julho do IBGE, que mostraram queda de 33,7% na produção de eletrodomésticos da linha branca, em relação a igual mês de 2009.

Recuo atribuído pelo economista da coordenação de indústria do IBGE, André Macedo, ao fim da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para esses produtos e ao deslocamento para a compra de bens de consumo de linha marrom, como televisores, por causa da Copa do Mundo.

As importações também são citadas como parte da explicação para o sinal negativo nos preços dos duráveis pelo economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. Outro motivo que, segundo ele, pode explicar essas deflações seria um excesso de estoque nas indústrias, que estariam desovando os produtos para abrir espaço à fabricação de novidades para o fim do ano.

"Talvez tenha havido, no começo do ano, uma percepção de que a economia estaria crescendo de forma intensa. Ela está crescendo, mas não da forma que algumas empresas poderiam ter imaginado, levando a um excesso de estoques. No caso de automóveis e eletrodomésticos de linha branca, depois do fim da redução do IPI e os aumentos naturais de preços, o mercado pode ter voltado um pouco atrás para não afugentar o consumidor", argumenta Vale.

Cenário. Eulina não antecipa os movimentos futuros dos preços, mas Messenberg e Vale acreditam na continuidade de deflação dos duráveis nos próximos meses, assim como em prosseguimento do cenário de demanda aquecida por esses produtos. Segundo o economista do Ipea, os preços "devem continuar contidos", com a manutenção do crescimento das importações, diante da crescente valorização do real.

Para o economista-chefe da MB Associados, os preços só vão se recompor caso a possibilidade do excesso de estoques nas empresas seja o único fator a explicar as atuais deflações nesses produtos. "Creio que ainda há uma expansão de demanda que pode manter esses preços pressionados, mas a tendência é os preços não aumentarem muito nos próximos meses, já que são produtos cujos valores se ajustam mais rapidamente à valorização do câmbio", disse Vale.

Ajuste

SÉRGIO VALE

ECONOMISTA-CHEFE DA MB ASSOCIADOS

"Creio que ainda há uma expansão de demanda que pode manter os preços pressionados, mas a tendência é não aumentarem muito nos próximos meses, já que são produtos cujos valores se ajustam rapidamente à valorização do câmbio."

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